Como podemos tocar a imaginação dos jovens nesta era digital?

Vaticano 23 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 15

Uma imaginação geradora de vida deve congregar desejos diferentes e aparentemente irreconciliáveis. O Papa Francisco escreveu: «Como seria uma sociedade, uma família ou um grupo de amigos sem tensão ou conflito? Sabeis como seria? Seria um cemitério. Porque só nas coisas mortas é que não há tensões nem conflitos. Onde há vida, há tensão e há conflito.»

 

Esta tensão está no coração do cristianismo: Jesus proclama que quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á (Mateus 16,25). Tocaremos a imaginação dos jovens se identificarmos as tensões com que vivem nesta era digital e mostrarmos como elas podem ser vividas de forma frutuosa e jubilosa.

 

Em primeiro lugar, diria que eles anseiam simultaneamente por segurança e aventura. Jonathan Haidt declarou celebremente que pertencem a uma geração ansiosa. Escreveu: «A Geração Z é a primeira geração que passou a puberdade curvada sobre smartphones e tablets, tendo menos conversas face a face e menos aventuras ombro a ombro com os amigos. À medida que a infância foi reconfigurada – especialmente entre 2010 e 2015 –, os adolescentes tornaram-se mais ansiosos, deprimidos e frágeis.»

 

Contudo, o desejo de aventura está presente em todo o coração humano: o risco de amar. O meu irmão Herbert McCabe dizia: «Se te apaixonares, vais magoar-te. Podes até ser morto. Mas se não o fizeres, já estás morto.»

 

Os livros de Tolkien, especialmente O Hobbit e O Senhor dos Anéis, contam-se entre os mais populares de sempre. Articulam a relação entre este desejo de segurança e a fome de aventura. O Condado, a terra dos hobbits, é o lar supremamente seguro, intocado pela ascensão do mal. Depois, Gandalf aparece com um convite perigoso: «Procuro alguém para participar numa aventura que estou a organizar, e é muito difícil encontrar alguém.» Bilbo responde: «Creio que sim por estas bandas! Somos gente simples e pacata e não temos utilidade para aventuras. Coisas incómodas, perturbadoras e desagradáveis! Fazem-nos chegar tarde ao jantar!» Mas, no coração de Bilbo, há um anseio insaciável de aventura. Tolkien era, naturalmente, um católico devoto. Assistia à Missa em Blackfriars e eu estive presente no seu funeral! Descreveu a sua obra como uma história pré-cristã para uma era pós-cristã. Escreveu ao seu filho Michael que se inspirara na aventura da Eucaristia. Estas histórias articulam a tensão entre o amor por um lar seguro e o impulso de partir para a aventura perigosa.

 

Portanto, tocaremos a imaginação dos jovens se lhes pudermos oferecer tanto um lar seguro como o convite a morrer. São Paulo escreveu: «Estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potências, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 8,38-39). E, no entanto, este mesmo amor convoca-nos a caminhar com o Senhor rumo a Jerusalém.

 

Este amor paradoxal – tão seguro e tão perigoso – fundamenta-se numa atenção aguda ao outro. O mundo digital está repleto de distrações. Um dos meus confrades, Toby Lees, escreveu: «Inúmeras mensagens que pretendem ser pessoais competirão pela vossa atenção... porque num mundo de produtos abundantes e informação quase infinita, a verdadeira escassez é a atenção, e é por isso que as empresas e os partidos políticos lutam... Os nossos telefones existem como o anel de Gollum nos nossos bolsos; o entretenimento ou a distração está lá a todo o momento.»

 

Simone Weil chamava à atenção «a forma mais rara e pura de generosidade»; é ver os outros «tal como se relacionam consigo próprios e não comigo». Iris Murdoch: «O amor é a realização extremamente difícil de que algo diferente de si mesmo é real.» Isto convida-nos a não ter medo de sermos nós próprios o objeto de atenção. Ousamos ser vistos. Um clip de vídeo de duas jovens irmãs dominicanas a rir juntas tornou-se viral neste verão. A Ir. Gemma Simmonds explicou a sua enorme atração do seguinte modo: «A descoberta de que eras amado antes de qualquer pessoa fazer swipe, consultar um perfil ou decidir se eras digno do seu tempo, e este facto, recebido calmamente em vez de conquistado com ansiedade, muda a sensação da liberdade a partir de dentro.»

 

Existe uma tensão análoga no âmbito do ensinamento da Igreja. Muitos jovens sentem-se atraídos pelo catolicismo porque percecionam a Igreja como fiel aos evangelhos e à tradição. A Igreja nunca renunciará à crença na Ressurreição ou na divindade de Cristo. O dogma pode desenvolver-se, como Newman nos ensinou, mas nunca será renunciado. Os jovens anseiam por certeza. Dizem: «Os católicos sabem aquilo em que acreditam.»

 

Esta certeza está em tensão com a nossa Fé enquanto aventura intelectual. O Papa Bento XVI afirmou: «Não possuímos a verdade, a verdade possui-nos: Cristo, que é a verdade, tomou-nos pela mão, e sabemos que a sua mão nos segura firmemente no caminho da nossa busca de conhecimento.» Acolhemos os ensinamentos da Igreja, mas estamos sempre apenas no início da sua compreensão. O seu significado é vislumbrado à margem da linguagem. A certeza sem a busca é fundamentalismo; o questionamento sem fidelidade à tradição cairia facilmente no relativismo. Então, como tocar a imaginação dos jovens com a beleza das verdades que são dadas, agora e para sempre, e que, contudo, devem ser sempre procuradas?

 

A sabedoria é mais do que o domínio de dados. A IA é melhor do que nós nisso. Sim, as verdades da nossa fé são factos – Maria foi virgem e deu à luz uma criança, o túmulo estava vazio na manhã de Páscoa –, mas são mais do que factos. São verdades para ser vividas. O Papa Leão escreveu em Magnificans Humanitas: «A velocidade e a facilidade com que se podem obter respostas ou resumos correm o risco de extinguir o desejo de fazer perguntas, que é um processo que só frutifica com o tempo. Como escreveu Platão, as coisas mais profundas e importantes só se aprendem após muito tempo e esforço, debatendo com os outros, “chocando” ideias e experiências em conjunto como pederneiras até que a faísca da compreensão se acenda dentro de nós.» (n.º 140)

 

São Tomás de Aquino ensinou que a compreensão é uma forma de estar humanamente vivo. Boyd Taylor Coolman escreveu que precisamos de «uma cultura educativa em que seja bom simpliciter, em si e por si mesmo, que os seres humanos leiam, pensem, conversem, se maravilhem e perguntem, nem que seja pela razão do valor intrínseco de tais atividades ou porque tais atividades são, em si mesmas, fontes de deleite e alegria, ingredientes do florescimento humano. Quando uma inteligência humana faz estas coisas, não pode, por definição, ser superada ou substituída pela IA, mesmo que a IA possa simular essas coisas melhor e mais depressa do que os humanos conseguem gerá-las.»

 

Tocamos a imaginação dos jovens conduzindo-os à beleza transformadora da compreensão que conduz ao espanto, à estupefação, à reverência. Assim, encontrarão o Logos «que estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele e sem ele nada do que foi feito foi feito» (João 1,2-4).

 

A conversa de Deus com a humanidade na Bíblia gira habitualmente em torno de perguntas. A primeira conversa começa com a pergunta de Deus a Adão: «Onde estás?» Uma das últimas no evangelho de São João é a pergunta de Jesus a Simão Pedro: «Amas-me mais do que estes?» Nos evangelhos de Marcos e Mateus, as últimas palavras de Jesus são uma pergunta assombrosa: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?»

 

As perguntas profundas convidam-nos a viver mais profundamente. O poeta Rainer Maria Rilke escreveu: «Não procures as respostas, que agora não te podem ser dadas, porque não serias capaz de as viver. E o objetivo é viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, algum dia, num futuro longínquo, venhas gradualmente a viver, sem sequer dar por isso, a resposta.» A vida da graça está perpetuamente a começar. Santa Teresa de Ávila dizia: «Somos nós que começámos esta obra. Cabe aos que nos seguem continuar a começar.»

 

Paul Murray OP conta a história de um Arcebispo que, falando a um grupo de noviços, declarou: «Certifiquem-se de que todos leem a Suma de Aquino. Contém cinquenta e seis mil respostas para todos os que criticam a Igreja Católica!» E comenta: «São Tomás, se ouvisse essa declaração, daria certamente voltas na tumba!» Aquino dá-nos respostas maravilhosas às perguntas, mas as perguntas mantêm-se e assim o farão até vermos a Deus face a face.

 

O trabalho é uma dimensão da nossa dignidade humana. Dá sentido às nossas vidas. Mas e se a IA eliminar a maioria dos empregos? Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, afirmou que a IA poderá eliminar «metade de todos os empregos de nível de entrada de colinhos brancos num prazo de cinco anos». Matthew Harvey Sanders escreveu: «Enquanto houver seres humanos, a pergunta “como vais comer?” tem sido respondida, para a maioria das pessoas, por alguma versão de “eu vou trabalhar”. Essa equação é aquilo sobre o qual economistas, teólogos e políticos têm discutido durante dois séculos. E pode ser que, no âmbito da vida ativa das pessoas sentidas nesta sala, essa equação simplesmente se dissolva.»

 

Elon Musk admitiu que «se um computador puder fazer tudo melhor do que tu, a tua vida tem sentido?» Os industriais começam a perguntar para que servem os seres humanos se já não forem necessários para a economia. Precisamos, pois, urgentemente de uma nova visão do trabalho, que não se baseie na sobrevivência, mas no ser humano. Em Magnificans Humanitas, o Papa Leão afirma que a escolha principal não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas sim entre construir Babel ou reconstruir Jerusalém; entre um poder que pretende dominar os céus e um povo que trabalha em conjunto na presença de Deus para reconstruir os muros da convivência fraterna (n.º 9).

 

Mais uma vez, isto exige uma atenção aos outros que nenhuma IA pode dar. Sanders de novo: «O capelão à couceira da cama. A enfermeira que nota que algo está errado antes dos monitores. O assistente social. O padre no confessionário. O professor que fica depois da aula porque a criança hesita à porta. Estes não são empregos no sentido do PIB. São, diria eu, uma forma de estar com outra pessoa, uma forma de presença que é em si mesma a substância do trabalho, e não o embrulho à sua volta. A presença pode ser imitada. Não pode ser replicada.»

 

Pensemos na atenção que um agricultor dedica ao solo, um carpinteiro à madeira ou à pedra, o marinheiro ao vento e às ondas, um pintor ao mundo. Esta atenção é a abertura do nosso ser àquilo que é outro de nós mesmos. É uma sabedoria que transforma aquilo que somos. Liberta-nos do distanciamento da internet para nos introduzir na complexidade e na beleza da criação. Aquino gostava da expressão de Aristóteles: a alma é, em certo sentido, todas as coisas. Amamos e saboreamos o mundo. Isso pode incendiar a imaginação dos jovens, libertando-os das abstrações do continente digital.

 

Portanto, examinámos a segurança e o risco do amor, a certeza e o questionamento da fé, e o trabalho. Em cada caso, precisamos de uma atenção amorosa, pacientemente adquirida, que nos tire do narcisismo para o espanto perante a criação e o nosso Criador.

 

 

[Tradução iMISSIO | Radcliffe, T. (2026). How can we touch the imagination of the young in this digital age? [Palestra/Conferência]. Congresso de pastoral escolar e universitária, Cidade do Vaticano. Dicastério para a Cultura e a Educação. https://www.dce.va/content/dam/dce/congresso-pastorale-scolastica-e-universitaria-2026/press-kit/abstract-relatori/abs-cardtimothy-radcliffe.pdf]
@Imagem: Cardeal Timothy Radcliffe| Foto: Pedro Quintans| EDUCRIS

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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