Cardeal Tolentino: Cristo chama-nos a ser guardiões da beleza do mundo

Vaticano 22 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 17

CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE A PASTORAL ESCOLAR E UNIVERSITÁRIA

A beleza de Cristo chama-nos a ser guardiões da beleza do mundo

 

Introdução: a beleza de Cristo

Caros responsáveis e agentes da pastoral escolar e universitária, caros irmãos e irmãs,

 

Por detrás deste palco encontra-se uma obra de arte que tem uma história. Em 1970, o Papa São Paulo VI pediu a um escultor italiano, Pericle Fazzini, que desse um rosto à Ressurreição. Fazzini trabalhou nela durante anos dentro de uma igreja então profanada, aqui perto: São Lourenço in Piscibus. Mandou levar para lá enormes blocos de esferovite e esculpiu-os ele mesmo. «Lancei-me na Ressurreição», escreveu, «com uma força que já não dependia de mim».

 

Fazzini dizia ter pensado nesta obra como «uma explosão a partir da terra»: o horto das oliveiras do Getsémani rasgado, as árvores arrancadas pela raiz e erguidas no ar, as pedras, as nuvens, os relâmpagos. Era, nas suas palavras, «como uma enorme tempestade em forma de mundo».

 

A obra tem cerca de vinte metros de comprimento e sete de altura. Mas observem: aquele mundo em tempestade não tem o aspeto de uma ruína. Parece um fundo marinho. Os ramos das oliveiras ondulam como algas na corrente, ramificam-se como corais, abrem-se sobre si mesmos. O bronze tem a porosidade da esponja e o brilho da madrepérola. Tudo flutua. É uma beleza suntuosa e frágil ao mesmo tempo: tem a riqueza de um recife de coral e a delicadeza daquilo que vive apenas sob a superfície de uma onda. E no meio desta maré ergue-se Cristo. Emerge como quem sai das águas do batismo. O seu corpo é jovem, na flor da idade. Tem a graça de um esposo no dia das bodas. É o Cristo sempre jovem, que não envelhece, porque a morte já não tem poder sobre Ele.

 

Os Padres da Igreja falam muitas vezes desta beleza de Cristo. Comentando o Salmo 44, o salmo das bodas reais («Tu és o mais belo entre os filhos dos homens», Sl 44,3), Santo Agostinho irrompe num cântico: «É belo, portanto [...]; belo nos milagres, belo nos suplícios; belo ao convidar para a vida, belo ao não se preocupar com a morte; belo ao abandonar a vida e belo ao retomá-la; belo na cruz, belo no sepulcro, belo no céu» (Exposição sobre o Salmo 44, 3).

 

Uma beleza que instrui

Quando mais tarde, em 1977, o Papa São Paulo VI inaugurou esta obra que agora vemos, disse: «Que esta presença transcendente e imanente de Cristo esteja aqui representada é belo e, a nosso ver, [...] é instrutivo». A beleza de Cristo, com efeito, não serve apenas para ser contemplada: instrui-nos. Cristo é o Mestre e ensina com a sua beleza.

 

Se tivéssemos de resumir numa palavra o nosso trabalho na pastoral escolar e universitária, nenhuma seria mais adequada do que a palavra «Ressurreição». Também nós, como Fazzini, nos «lançamos na Ressurreição». Aquelas palavras do artista, «Lancei-me na Ressurreição com uma força que não dependia de mim», descobrimo-las nós esculpidas no coração da própria missão que realizamos, porque a nossa pastoral no contexto educativo existe para «lançar» os homens «dentro» da experiência pascal; existe para fazer descobrir Cristo, que veio para dar e restituir a vida, e a vida em abundância (cf. Jo 10,10). Quanta razão tinha o artista: a beleza transbordante da vida ressuscitada passa através das feridas.

 

Santo Agostinho ensina-nos que Cristo é belo «nos suplícios» e «na cruz». A beleza humana e cristã não é uma perfeição idealizada: é um amor que não foge perante a dor de existir. Por isso, na pastoral escolar e universitária, somos frequentemente chamados a aprender a ver a beleza onde o mundo vê apenas fragilidade, fracasso, descarte.

 

Conseguiremos lançar-nos cada vez mais na Ressurreição adotando o estilo do verdadeiro Mestre. Cristo não se impõe e não ameaça: atrai. «Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32). A beleza pastoral atua assim: não por coação, mas por atração. Um pastor que quer instruir sem atrair torna-se um funcionário. Um educador que atrai para o bem, para o verdadeiro e para o belo torna-se uma testemunha.

 

Se a fixarmos bem, a figura de Cristo que temos diante dos olhos está toda em movimento: ergue-se, lança-se, como que impelida pelo vento. Não permanece fechada no sepulcro, e não permanece fechada sequer na sua própria beleza. A beleza de Cristo é um convite missionário.

 

A beleza de estarmos juntos

Contemplando a beleza de Cristo, contemplamos também a beleza de estarmos aqui juntos. Como membros de um só corpo, pertencemos uns aos outros e precisamos uns dos outros. Por isso, saúdo-vos a todos com alegria, como estrelas de uma mesma constelação.

 

O Papa Leão XIV recordou-nos que cada «estrela» tem uma luminosidade própria, mas todas juntas desenham uma rota (Desenhar novos mapas de esperança, 8.1). Sozinhos somos pontos de luz, por vezes cansados e desencorajados. Juntos tornamo-nos uma constelação capaz de orientar o caminho de outros. Esta constelação tem um nome: a missão pastoral e educativa da Igreja, uma rede viva que sabe reencontrar-se, escutar-se e caminhar em conjunto.

 

Há um ano, na véspera do sexagésimo aniversário da Declaração conciliar Gravissimum educationis, o Papa Leão XIV assinava na Basílica de São Pedro a Carta Apostólica Desenhar novos mapas de esperança. Era a sua primeira Carta Apostólica, e creio que este detalhe merece ser sublinhado. Entre as muitas questões que um Pontífice traz no coração no início do seu ministério, o Papa Leão quis dizer à Igreja e ao mundo que a educação não é uma atividade acessória, mas o próprio tecido do anúncio do Evangelho. O título da carta é já um programa. Falar de mapas significa reconhecer que nos encontramos muitas vezes em territórios novos. Por isso, o Papa pede-nos para desenharmos o futuro, com aquele olhar longo de Abraão (cf. Gn 15,5): capaz de olhar ao longe para restituir dignidade à pessoa, que não pode ser reduzida a um algoritmo ou a um perfil estatístico, mas deve ser acolhida na sua história e vocação única.

 

Na pastoral escolar e universitária é-nos concedido ser testemunhas diretas do milagre do crescimento. Vemo-lo todos os dias: a criança que aprende a ler o Evangelho e descobre que as palavras abrem mundos; o adolescente que pela primeira vez formula uma pergunta verdadeira; o estudante universitário que um dia compreende a que é que quer dedicar a própria vida. Em cada um destes momentos, se soubermos escutar, pressentimos os passos do Cristo ressuscitado que continua a caminhar na história.

 

O apóstolo Paulo explica-o bem na Carta aos Efésios: «Somos, de facto, obra sua, criados em Cristo Jesus» (Ef 2,10). No texto grego, a palavra «obra» é poiēma: autou gar esmen poiēma. É o termo de onde deriva a palavra «poema». 

 

Poderíamos, com efeito, traduzir: «porque somos o Seu poema». Cada um é uma obra de arte de Deus, única e irrepetível. Somos a poesia de Deus, desejada, amada, escrita com cuidado por Aquele que é a fonte de toda a beleza. Eis o segredo da nossa pastoral: ajudar todos a descobrir que são um poema de Deus.

 

A beleza de desenhar novos mapas de esperança

O Papa Leão confiou-nos uma tarefa: «Desenhar novos mapas de esperança» (11.1). Penso numa página d'O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, onde se fala do planeta habitado por um velho geógrafo, sentado à sua secretária com um grande livro à frente. O geógrafo nunca viu nem o mar, nem os rios, nem as montanhas do seu planeta porque, explica ele, «eu não sou um explorador». E quando o Principezinho lhe fala da sua flor, da sua amada rosa, o geógrafo responde: «Nós não anotamos as flores». «Porquê? São a coisa mais bela!», reage, desconcertado, o Principezinho. «Porque as flores são efémeras», justifica-se o geógrafo.

 

As nossas pastorais não podem ser assim: fechadas nos próprios gabinetes, a classificar a realidade a partir de cima, sem conhecer a concretude da vida, convencidas de que aquilo que é efémero não merece figurar no mapa. Precisamente aquilo que é frágil — a flor, a pergunta apenas sussurrada, o desejo ainda confuso, a procura de sentido apenas esboçada — é muitas vezes a coisa mais preciosa. Somos chamados a ser exploradores para podermos tornar-nos cartógrafos; chamados a sair, a caminhar, a sujar os sapatos nas estradas do continente jovem, e a escutar antes de desenhar. Ser servidores da beleza e lançar-se na Ressurreição requer, é verdade, algumas atenções. E queria sublinhar brevemente três campos que solicitam particularmente a nossa atenção.

 

Antes de mais, a atenção à interioridade. No Jubileu do Mundo Educativo, o Papa Leão disse que os meios e os espaços físicos são certamente úteis, mas que não podemos esquecer que «o Mestre está dentro». Hoje é fácil viver dominados por ecrãs e filtros, mais desejosos de nos conectarmos com o mundo virtual do que com o nosso coração. E o risco é que também nós, pastores e agentes pastorais, sobrecarregados por tantas tarefas, esqueçamos o lema de São John Henry Newman: cor ad cor loquitur, o coração fala ao coração.

 

O segundo campo de atenção é à comunidade. A escola e a universidade são tecidos polifónicos, microcosmos com um olhar de esperança sobre o futuro: cada um com o seu próprio papel, todos com um único horizonte. Jesus não escolheu um grupo uniforme de apóstolos, mas homens com histórias e dons diferentes, e não excluiu ninguém: desde quem passava por acaso até quem vinha de longe para o encontrar. Por isso, as nossas pastorais são para todos: para os estudantes, mas também para os docentes, para as famílias e para as comunidades humanas e eclesiais.

 

O terceiro âmbito de atenção é guardar a arte dos laços. Vivemos num mundo cada vez mais interligado, mas a facilidade da comunicação não nos tornou mais capazes de relações profundas e autênticas. Uma comunidade pastoral e educativa constrói-se com a autenticidade, porque os jovens percebem imediatamente se somos verdadeiros ou se estamos a representar um papel. E constrói-se sobretudo com a presença, porque acompanhar significa poder dizer: aconteça o que acontecer, eu estarei cá.

 

Conclusão: artesãos de beleza no serviço

 

O lava-pés é a garantia de que compreendemos a lição de Jesus. A educação não se esgota na transmissão do saber: encontra a sua plenitude no servir. Somos chamados a formar mentes pensantes e corações pulsantes, capazes de unir conhecimento e compaixão, competência e solidariedade; a ser coreógrafos da esperança, porque a humanidade atinge o seu culminar quando se torna dom, um dom de beleza.

 

O mundo precisa de beleza. Precisa dela um mundo ferido pelas guerras, porque a beleza desarma. Precisa dela um mundo saturado de imagens, porque a beleza verdadeira ensina de novo a olhar. Precisa dela um mundo que corre, porque a beleza detém-nos e devolve-nos o espanto. Precisam dela os jovens, porque quem encontrou a beleza já não se contenta com o banal: a beleza educa o desejo.

 

Caras irmãs e caros irmãos, São Paulo VI dizia aos artistas: «Lembrai-vos de que sois os guardiões da beleza no mundo». Hoje gostaria de o dizer a cada um de vós, capelães e agentes pastorais: sois guardiões da beleza da pessoa humana, que é uma obra de arte de Deus, única e irrepetível. A nossa tarefa é reconhecê-la, acompanhá-la e ajudá-la a resplandecer.

 

Neste primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV aprendemos, no âmbito educativo, a amar uma imagem: a da constelação. Assim é a pastoral escolar e universitária: uma obra coral, na qual cada um brilha com a sua própria luz, mas todos juntos indicam uma direção. Esta assembleia, com quase mil e duzentos participantes provenientes de mais de sessenta países, é um mapa dessa constelação.

 

A Carta Apostólica do Papa Leão entregou-nos também algumas prioridades precisas, que serão o fio condutor dos nossos trabalhos: guardar a vida interior dos jovens e o seu diálogo com Deus; educar para um uso sábio das tecnologias e da inteligência artificial, sem tecnofobias fáceis, mas com discernimento; formar para a paz e para a reconciliação, ensinando uma linguagem capaz de desarmar e criar espaço para a civilização do amor.

 

Estamos aqui para que esse documento se torne vida. Obrigado ao Santo Padre, que hoje nos acolherá e nos encorajará na missão. Obrigado a quantos, com as suas comunicações ou com o seu empenho, ajudarão a fazer destes dois dias de Congresso um tempo favorável, um verdadeiro kairós impulsionador de uma pastoral sinodal e profética. Uma palavra de gratidão às diversas equipas de trabalho do Dicastério para a Cultura e a Educação e a quantos oferecem a sua colaboração, de diversos modos, para o bom êxito dos nossos trabalhos.

 

Deixemo-nos agora guiar pelo Espírito, confiemos estes dias a Maria, Sede da Sabedoria, e iniciemos o nosso caminho com confiança.

 

Bem-vindos a todos. Iniciemos o Congresso.

 

Cardeal José Tolentino de Mendonça

 

[Tradução iMISSIO | Mendonça, J. T. (2026, 22–23 de outubro). La bellezza di Cristo ci chiama ad essere custodi della bellezza del mondo[Alocução]. Congresso Internazionale sulla Pastorale Scolastica ed Universitaria, Cidade do Vaticano. Dicastério para a Cultura e a Educação. https://www.dce.va/content/dam/dce/congresso-pastorale-scolastica-e-universitaria-2026/press-kit/abstract-relatori/dce-congresso-pastorale-allocuzione-prefetto.pdf]

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