Cultivar a interioridade: aprender a sentir a vida de um modo novo

Vaticano 23 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 29

Cultivar a interioridade: Aprender a sentir a vida de um modo novo

Fr. Roberto Pasolini
Congresso de pastoral escolar e universitária – 22 de outubro de 2026

 

1. A viagem rumo ao coração

Gostaria de começar com uma pergunta aparentemente simples: porque é que hoje se tornou tão difícil cultivar a interioridade?

 

A primeira resposta que nos ocorre diz provavelmente respeito ao mundo em que vivemos. Somos continuamente alcançados por palavras, imagens, mensagens e informações. Temos à disposição instrumentos extraordinários, que nos permitem comunicar com qualquer pessoa, conhecer quase tudo, alcançar em poucos instantes aquilo que outrora exigia dias ou semanas.

 

Contudo, dentro desta enorme possibilidade de comunicação, parece existir uma dificuldade crescente em comunicarmos connosco mesmos.

 

Não é apenas uma questão de tempo. É certo que estamos todos muito ocupados. Mas o problema talvez seja mais profundo. Perdemos progressivamente a familiaridade com algumas experiências fundamentais da vida humana: o silêncio, a espera, a solidão, o tédio. Experiências que hoje tendemos a considerar como vazios a preencher, em vez de espaços para habitar.

 

Pensemos em como se tornou difícil esperar sem fazer nada. Basta encontrarmo-nos durante alguns minutos numa sala de espera, num transporte público, perante alguém que demora a chegar. Quase automaticamente pegamos no telemóvel. Não porque tenhamos necessariamente algo para fazer, mas porque já não sabemos muito bem o que fazer quando não temos nada para fazer.

 

Naturalmente, não creio que o problema sejam simplesmente os instrumentos tecnológicos. Seria demasiado fácil atribuir-lhes a responsabilidade de uma dificuldade que pertence desde sempre ao ser humano. A tecnologia, quanto muito, tornou muito mais simples uma possibilidade que sempre tivemos: a de nos distrairmos de nós próprios.

 

Talvez o ponto seja precisamente este. Não somos apenas pessoas que têm dificuldade em encontrar o silêncio. Somos pessoas que, por vezes, têm medo daquilo que o silêncio nos poderia fazer escutar.

 

Porque quando finalmente paramos, não encontramos necessariamente aquela paz interior que esperaríamos. Podemos encontrar inquietações, contradições, desejos que não sabemos interpretar, perguntas que adiámos durante muito tempo.

 

E então torna-se compreensível a tentação de permanecermos sempre à superfície, onde tudo é mais imediato, mais gerível, mais fácil de controlar.

 

Mas aqui gostaria de introduzir uma primeira provocação. Temos a certeza de que o problema da interioridade é apenas o de conseguirmos entrar dentro de nós mesmos? Temos a certeza de que, uma vez encontrado o tempo para parar e nos escutarmos, encontraremos necessariamente algo de verdadeiro, de bom, de autêntico?

 

A tradição bíblica convida-nos a ser um pouco mais prudentes.

 

Porque o coração do homem é certamente o lugar onde Deus deseja encontrá-lo. Mas não é um lugar neutro. Não é um espaço incontaminado, no qual bastaria entrar para encontrar imediatamente a verdade.

 

O nosso coração é também um lugar ferido.

 

E talvez, antes mesmo de aprendermos a escutá-lo, precisemos de compreender o que lhe aconteceu.

 

2. A ferida da sensibilidade

Há um pormenor do relato do Génesis que me parece particularmente significativo.

 

Quando a serpente sugere à mulher que coma o fruto da árvore, o texto conta que a mulher vê como aquela árvore é «boa para comer, agradável aos olhos e desejável para adquirir sabedoria» (Gn 3,6).

 

É uma descrição surpreendente.

 

O pecado não nasce simplesmente do desejo de fazer algo de mau. Nasce de uma experiência muito mais subtil: algo parece bom, belo, desejável. Algo é percecionado como uma possibilidade de vida, quando na realidade está a introduzir uma fratura na relação com Deus.

 

Isto significa que a ferida originária do ser humano não diz respeito apenas à sua capacidade de escolher entre o bem e o mal. Diz respeito também à sua capacidade de os reconhecer.

 

O problema não é apenas que algumas vezes sabemos qual é o bem e não conseguimos fazê-lo. O problema é que, muitas vezes, nem sequer conseguimos senti-lo como algo desejável.

 

Podemos saber perfeitamente que perdoar é melhor do que vingar-se, e contudo sentir dentro de nós que a vingança seria muito mais satisfatória. Podemos saber que a generosidade torna a nossa vida mais humana, e contudo percecionar cada pedido dos outros como uma ameaça à nossa liberdade. Podemos reconhecer o valor da fidelidade, da paciência, da gratuitidade, e todavia sentirmo-nos atraídos por aquilo que promete resultados mais imediatos.

 

Há uma distância, por vezes dolorosa, entre aquilo que reconhecemos como verdadeiro e aquilo que sentimos como desejável.

 

A Bíblia leva muito a sério esta distância.

 

Depois de terem comido o fruto, Adão e Eva não se tornam simplesmente culpados. Muda o seu modo de percecionar a realidade. Descobrem que estão nus e sentem vergonha. Escondem-se diante de Deus. Começam a ter medo daquele com quem, até àquele momento, viviam em familiaridade.

 

Não mudou Deus. Mudou o modo de eles O sentem.

 

Esta parece-me uma das consequências mais profundas da ferida originária: a nossa sensibilidade já não é completamente fiável. Nem tudo o que sentimos como agradável nos faz bem. Nem tudo o que pressentimos como ameaçador é verdadeiramente um perigo. Nem tudo o que nos custa esforço é contrário à nossa felicidade.

 

Eis porque cultivar a interioridade não pode significar simplesmente dar ouvidos a tudo o que emerge do nosso mundo interior.

 

Devemos certamente aprender a escutar as nossas emoções, os nossos sentimentos, os nossos desejos. Mas escutá-los não significa necessariamente obedecer-lhes. Significa aprender a compreendê-los, a interpretá-los, por vezes, até a pô-los em questão.

 

O profeta Jeremias chega a dizer que o coração do homem é difícil de conhecer e de curar (cf. Jr 17,9).

 

E o profeta Ezequiel anuncia uma promessa extraordinária da parte de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo» (Ez 36,26).

 

Notemos bem: Deus não promete apenas novas instruções, novas regras, novos conhecimentos. Promete um coração novo.

 

Porque o problema do ser humano não é apenas saber o que deve fazer. É chegar a desejar aquilo que o torna verdadeiramente vivo.

 

Se isto é verdade, então também a educação deve reconhecer que tem uma tarefa muito mais profunda do que a simples transmissão de informações ou de valores.

 

Não basta ensinar a uma pessoa o que é o bem. É preciso acompanhá-la até ao ponto em que esse bem se possa tornar algo que o seu coração reconhece, aprecia e deseja.

 

A verdadeira transformação espiritual não consiste apenas em mudar o que fazemos, mas em mudar o que nos agrada, o que tememos, o que nos atrai. É uma transformação da sensibilidade.

 

3. As dificuldades da escuta

Esta dificuldade da nossa interioridade em reconhecer e acolher o bem permite-nos compreender melhor uma das parábolas mais importantes do Evangelho: a do semeador.

 

Jesus fala de um homem que sai a semear. A semente cai em terrenos diferentes: ao longo do caminho, em terreno pedregoso, no meio dos espinhos e, por fim, em terra boa.

 

O interessante é que o semeador não parece preocupar-se demasiado em escolher onde lançar a semente. Semeia com uma generosidade quase excessiva. E a semente é sempre a mesma.

 

O que muda é o terreno.

 

Creio que esta parábola contém uma descrição muito precisa daquilo que acontece quando Deus procura comunicar com a nossa interioridade.

 

Estamos habituados a pensar que o problema principal da vida espiritual é conseguir escutar a voz de Deus. Perguntamo-nos porque é que Deus não fala, porque não se faz ouvir, porque não nos dá indicações mais claras.

 

Jesus parece sugerir que a questão é outra.

 

Deus fala. A sua Palavra é semeada com abundância. Mas nem sempre encontra dentro de nós as condições para ser acolhida.

 

Pode haver um coração tornado como uma estrada: uma superfície de tal modo batida e endurecida que já nada consegue penetrá-la. É a condição de quem aprendeu a defender-se de tudo, até daquilo que lhe poderia fazer bem.

 

Há depois o terreno pedregoso, onde a semente germina logo, mas não consegue criar raízes. É a imagem de uma sensibilidade capaz de entusiasmos imediatos, mas incapaz de atravessar o esforço e a duração.

 

E depois há os espinhos. Talvez o terreno mais interessante para compreender a nossa condição contemporânea.

 

Jesus fala das preocupações do mundo, da ilusão da riqueza e dos desejos de outras coisas, que sufocam a Palavra e a impedem de dar fruto.

 

Não é necessário que o coração esteja cheio de coisas más para se tornar estéril. Basta que esteja demasiado cheio.

 

Podemos estar de tal modo ocupados a viver que já não conseguimos compreender o que estamos a viver. Podemos ter tantas coisas para fazer, para desejar, para alcançar, que já não deixamos espaço para aquilo que nos poderia verdadeiramente transformar.

 

A Palavra de Deus não é necessariamente rejeitada. É simplesmente sufocada.

 

Eis porque me parece muito bela a imagem escolhida para o tema desta sessão: cultivar a interioridade.

 

Um terreno não se torna fértil simplesmente porque alguém nele lança uma semente. Precisa de ser trabalhado. É preciso tirar as pedras, arrancar as ervas daninhas, partir os torrões endurecidos, deixar que a terra respire.

 

Do mesmo modo, o nosso coração precisa de ser cultivado.

 

Não para produzir artificialmente uma qualquer experiência espiritual, mas para se tornar novamente capaz de acolher aquilo que a vida e Deus continuamente lhe oferecem.

 

Poderíamos dizer que cultivar a interioridade significa tornar o coração novamente hospitaleiro, para aprender a reconhecer a voz de Deus.

 

4. A disciplina como caminho para a liberdade

Há outra imagem evangélica que gostaria de aproximar à do semeador.

 

No final do discurso da planície, no Evangelho de Lucas, Jesus compara quem escuta as suas palavras e as põe em prática a um homem que constrói uma casa.

 

Lucas introduz um pormenor muito significativo. Este homem, antes de lançar os alicerces sobre a rocha, «escavou bem fundo» (Lc 6,48).

 

É um detalhe que merece atenção.

 

Nós gostaríamos de construir imediatamente. Gostaríamos de ver logo os resultados do nosso empenho, da nossa formação, das nossas escolhas. Jesus, pelo contrário, recorda-nos que antes de construir é preciso escavar.

 

E escavar significa realizar um trabalho que, pelo menos inicialmente, não produz nada de visível. Quem escava ainda não está a construir uma casa. Está apenas a preparar as condições para que essa casa se possa aguentar.

 

Parece-me uma belíssima imagem do que deveria ser a educação da interioridade.

 

A profundidade não é uma qualidade que possuímos espontaneamente. É o resultado de um caminho, de uma paciência, de uma disciplina.

 

E aqui encontramos uma palavra que hoje não goza de grande popularidade: disciplina.

 

Frequentemente associamo-la a algo que limita a nossa liberdade, que reprime a espontaneidade, que nos obriga a comportarmo-nos segundo regras estabelecidas por outros.

 

Mas basta observar como se desenvolvem as capacidades humanas mais belas para nos apercebermos de que não é assim.

 

Um músico não se torna livre para tocar um instrumento simplesmente seguindo a sua espontaneidade. Deve exercitar-se, repetir, errar, recomeçar. Um atleta não alcança uma plena liberdade de movimentos sem ter submetido o próprio corpo a um treino. Até a capacidade de amar requer uma disciplina: aprender a esperar, a escutar, a não se colocar sempre a si mesmo no centro.

 

A disciplina, quando é autêntica, não é o contrário da liberdade. É uma das condições que a tornam possível.

 

E isto vale também para a vida espiritual.

 

Não podemos pensar em desenvolver uma sensibilidade profunda sem atravessar um processo de iniciação. Precisamos de aprender a deter-nos, a fazer silêncio, a rezar, a guardar a palavra dada, a permanecer fiéis mesmo quando já não sentimos entusiasmo.

 

Nem tudo o que é espontâneo é autêntico. E nem tudo o que requer esforço é contrário à nossa natureza.

 

Por vezes, aliás, é precisamente aquilo que nos custa esforço que nos permite tornarmo-nos finalmente nós mesmos.

 

Por isso creio que hoje, sobretudo no âmbito educativo, é importante redescobrir o valor de experiências que não oferecem uma gratificação imediata.

 

Não devemos ter medo de propor aos jovens percursos exigentes. Devemos, antes, ter a paciência de os acompanhar a compreender o seu sentido.

 

Porque escavar em profundidade não significa complicar a vida inutilmente. Significa procurar um fundamento capaz de resistir quando chegarem as inevitáveis tempestades da existência.

 

A ascese cristã não serve para nos tornarmos menos sensíveis. Serve para desenvolver uma sensibilidade mais profunda, mais livre, mais capaz de reconhecer o bem.

 

5. Educar o desejo

Mas a este ponto devemos colocar-nos uma pergunta: o que é que nos impele a empreender um caminho tão exigente?

 

Porque deveríamos aceitar o esforço da disciplina, do silêncio, da paciência, da transformação?

 

Creio que a resposta tem que ver com uma das forças mais grandiosas que habitam o coração humano: o desejo.

 

Nós somos seres desejantes. Não podemos viver sem desejar alguma coisa. E talvez não haja nada de mais importante, para compreender uma pessoa, do que procurar perceber o que é que ela deseja verdadeiramente.

 

O problema é que nem sempre somos capazes de reconhecer os nossos desejos mais profundos.

 

Frequentemente confundimos o desejo com a necessidade imediata, com o impulso, com a procura de uma gratificação. Pensamos desejar algo apenas porque, num determinado momento, sentimos fortemente a sua atração.

 

Mas o desejo humano é uma realidade muito mais complexa.

 

Podemos desejar algo que, uma vez obtido, nos deixa insatisfeitos. Podemos perseguir durante anos um objetivo e descobrir, quando finalmente o alcançamos, que não era aquilo de que precisávamos verdadeiramente.

 

Isto não significa que o desejo seja errado. Significa que precisa de ser educado.

 

No Evangelho de João, as primeiras palavras que Jesus dirige aos discípulos são uma pergunta: «Que procurais?» (Jo 1,38).

 

É uma pergunta extraordinária, porque Jesus não começa por lhes dizer o que devem fazer. Convida-os antes de mais a reconhecer aquilo que estão a procurar.

 

E no encontro com a Samaritana, no capítulo quarto do mesmo Evangelho, Jesus parte de uma sede muito concreta, a da água, para acompanhar progressivamente a mulher rumo ao reconhecimento de uma sede mais profunda.

 

Não lhe pede que deixe de ter sede. Permite-lhe compreender melhor a sua própria sede.

 

Parece-me que aqui se encontra um dos aspetos mais importantes da formação cristã.

 

Não se trata de apagar o desejo, mas de o libertar das suas contrafações. Não se trata de convencer uma pessoa a renunciar à felicidade, mas de a ajudar a descobrir que felicidade está verdadeiramente à altura da sua vida.

 

O desejo é uma força extraordinária, porque nos põe em movimento. Impede-nos de nos contentarmos com o que somos e com o que temos. Abre-nos à possibilidade de algo maior.

 

Mas precisamente por isso pode também tornar-se uma força desordenada, capaz de nos arrastar continuamente para aquilo que promete muito e cumpre pouco.

 

Educar o desejo significa então aprender a distinguir entre o que nos atrai e o que nos faz crescer, entre o que nos gratifica e o que nos torna felizes, entre o que preenche momentaneamente a nossa vida e o que lhe dá profundidade.

 

Talvez a tarefa da educação não seja tanto a de ensinar os jovens a desejar menos, mas antes a de os ajudar a desejar melhor.

 

E todavia, também aqui, devemos evitar um equívoco.

 

Não basta compreender intelectualmente quais são os desejos mais autênticos. Não basta sequer exercitar-se através de uma disciplina.

 

Porque o nosso coração muda verdadeiramente quando aquilo que compreendemos se torna experiência.

 

E é aqui que gostaria de chegar, através da história de Francisco de Assis.

 

6. A experiência de Francisco de Assis

Se olharmos para a vida de Francisco de Assis, apercebemo-nos de que a sua conversão não aconteceu simplesmente através de uma reflexão interior.

 

Francisco não se tornou santo porque, a certa altura, encontrou tempo para parar, olhar para dentro de si e compreender finalmente quem era.

 

A sua transformação passou através da vida.

 

Através de desejos que não se realizaram, ambições que se despedaçaram, experiências de derrota, encontros inesperados.

 

Em jovem, Francisco desejava tornar-se alguém. Sonhava com uma vida gloriosa, marcada pela honra e pelo reconhecimento. As biografias contam como a guerra, o cativeiro, a doença e o fracasso de alguns dos seus projetos abriram progressivamente brechas neste modo de imaginar a própria existência.

 

Mas seria errado pensar que as derrotas, por si sós, o converteram.

 

As derrotas podem tornar-nos mais profundos, mas também podem tornar-nos mais duros, mais desconfiados, mais fechados. Não é a dor, enquanto tal, que transforma o coração. É o modo como conseguimos atravessá-la, interpretá-la, deixá-la iluminar por uma palavra nova.

 

Francisco aprendeu progressivamente a ler a própria vida à luz do Evangelho.

 

E o ponto mais alto desta transformação é narrado por ele mesmo, nas primeiras linhas do seu Testamento.

 

Francisco recorda que, quando ainda vivia nos pecados, lhe parecia uma coisa demasiado amarga ver os leprosos.

 

Não diz simplesmente que não queria ocupar-se deles. Diz algo mais profundo: parecia-lhe amargo até mesmo vê-los.

 

A sua sensibilidade reagia com repulsa, com medo, com o desejo de se afastar.

 

Depois conta que o Senhor o conduziu para o meio deles e que ele usou de misericórdia para com eles.

 

E acrescenta uma frase extraordinária: aquilo que antes lhe parecia amargo foi-lhe transformado em doçura da alma e do corpo.

 

Gostaria de me deter nesta expressão, porque creio que contém uma das descrições mais belas do que significa cultivar a interioridade.

 

Francisco não diz simplesmente que aprendeu a fazer o bem. Não diz que compreendeu que os leprosos mereciam respeito, dignidade e atenção.

 

Diz que mudou o seu gosto.

 

Aquilo que antes lhe parecia amargo tornou-se doce.

 

Não mudou apenas a sua ideia dos leprosos. Mudou o seu modo de os sentir.

 

E esta mudança não aconteceu antes do encontro, como condição para o poder viver. Aconteceu através do próprio encontro.

 

Francisco não esperou sentir-se pronto para amar os leprosos. Começou a usar de misericórdia para com eles, e dentro dessa experiência a sua sensibilidade foi transformada.

 

Aqui encontramos algo de decisivo.

 

Frequentemente imaginamos que, para podermos mudar de vida, devemos primeiro mudar interiormente. Pensamos que temos de alcançar uma certa convicção, uma certa maturidade, uma certa disposição de espírito, antes de podermos realizar gestos novos.

 

Francisco mostra-nos que pode acontecer também o contrário.

 

Por vezes, devemos começar a viver de modo diferente para podermos finalmente sentir de modo diferente.

 

Devemos atravessar um medo para descobrir que não era assim tão invencível. Devemos realizar um gesto de gratuitidade para nos apercebermos de que dar não nos empobrece. Devemos aproximar-nos de uma pessoa que instintivamente gostaríamos de evitar, para descobrir uma beleza que não conseguíamos ver.

 

A interioridade não se cultiva apenas através da introspeção.

 

Cultiva-se também através da experiência.

 

Aliás, talvez sobretudo através daquelas experiências que nos obrigam a sair das representações habituais de nós mesmos e do mundo.

 

Francisco não descobriu a doçura da misericórdia pensando na misericórdia. Descobriu-a praticando-a.

 

E esta é uma lição de enorme importância também para a educação.

 

Se queremos ajudar as novas gerações a desenvolver uma vida interior profunda, não podemos limitar-nos a oferecer-lhes ocasiões de reflexão, por muito necessárias que sejam.

 

Devemos oferecer também experiências capazes de alcançar o coração.

 

Experiências de serviço, de encontro, de responsabilidade, de fidelidade. Experiências nas quais seja possível descobrir que a realidade é maior do que as nossas expectativas e que o bem se pode tornar desejável precisamente quando começamos a praticá-lo.

 

Naturalmente, isto requer também alguém que ajude a reler o que aconteceu. Porque nem todas as experiências se tornam automaticamente formativas. A vida precisa de ser escutada, interpretada, compreendida.

 

Mas sem a vida, até a reflexão mais profunda corre o risco de permanecer estéril.

 

Francisco não se tornou um homem novo porque aprendeu a pensar de modo diferente. Aprendeu a pensar de modo diferente porque aceitou viver de um modo novo.

 

Conclusão

Gostaria de concluir voltando à pergunta inicial.

 

O que significa, hoje, cultivar a interioridade?

 

Talvez signifique, antes de mais, reconhecer que não basta ter uma vida interior para sermos pessoas profundas. Todos temos um mundo interior, feito de pensamentos, emoções, recordações, desejos, medos. Mas este mundo não é necessariamente ordenado, livre, capaz de reconhecer a verdade.

 

O Evangelho diz-nos que o nosso coração precisa de ser alcançado, trabalhado, transformado.

 

Precisa de se tornar uma terra boa, na qual a Palavra possa criar raízes.

 

Precisa de aprender a escavar em profundidade, sem se contentar com as emoções e as gratificações imediatas.

 

Precisa de uma disciplina que não apague o desejo, mas o torne mais livre e mais autêntico.

 

E sobretudo precisa de viver.

 

Porque a profundidade de uma pessoa não se mede apenas pela sua capacidade de olhar para dentro de si, mas também pela sua disponibilidade para se deixar mudar por aquilo que encontra.

 

Francisco de Assis entrega-nos, deste ponto de vista, uma imagem extraordinária da vida espiritual: a de um homem que, atravessando a realidade à luz do Evangelho, viu transformar-se até o seu próprio modo de sentir.

 

Aquilo que era amargo tornou-se doce.

 

Talvez seja precisamente esta a promessa mais bela do cristianismo.

 

Não simplesmente tornarmo-nos pessoas que sabem distinguir o bem do mal, que conhecem as regras da vida, que conseguem controlar melhor os próprios comportamentos.

 

Mas tornarmo-nos pessoas capazes de sentir novamente o bem, de reconhecer a sua beleza, de o desejar com todo o coração.

 

E talvez seja também esta a tarefa mais elevada da educação: não apenas ensinar a pensar bem, mas acompanhar as pessoas a sentir novamente o bem.

 

Porque, no fim, um coração verdadeiramente cultivado não é um coração que aprendeu a proteger-se da vida.

 

É um coração que aprendeu a deixar-se transformar pela vida, até descobrir que mesmo aquilo que outrora parecia apenas amargo se pode tornar, misteriosamente, uma fonte de doçura.

 

[Tradução iMISSIO | Pasolini, R. (2026, 22 de outubro). Coltivare l'interiorità: Imparare a sentire la vita in modo novo [Comunicação]. Congresso Internazionale sulla Pastorale Scolastica ed Universitaria, Cidade do Vaticano. https://www.dce.va/content/dam/dce/congresso-pastorale-scolastica-e-universitaria-2026/press-kit/abstract-relatori/abs-pasolini.pdf]

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail