O que talvez não saibas sobre o Rosário
Pegamos nas contas do Rosário, repetimos palavras que conhecemos quase de cor e talvez raramente nos perguntemos como nasceu esta oração que atravessou séculos, famílias, guerras, peregrinações, quartos de hospital e noites de silêncio.
O Rosário não nasceu num único momento. Foi-se formando. São João Paulo II dizia-o de forma muito clara na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae: o Rosário, «ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milénio».
A história desta oração é, por isso, também a história de muitas gerações que procuraram encontrar uma forma simples de permanecer diante de Deus.
Quando quem não sabia ler também queria rezar
Durante a Idade Média, os 150 Salmos ocupavam um lugar central na oração dos monges e religiosos. Para muitos cristãos, porém, esta forma de oração era inacessível. Não sabiam ler, não possuíam livros ou simplesmente não tinham possibilidade de acompanhar a oração monástica.
Começaram então a surgir formas populares de oração baseadas na repetição do Pai-Nosso e, progressivamente, da Avé-Maria.
As 150 Avé-Marias estabeleciam uma relação simbólica com os 150 Salmos. Paulo VI recordaria precisamente esta ligação ao afirmar que o número tradicional de cento e cinquenta Avé-Marias apresenta «uma certa analogia com o Saltério».
Para contar as orações utilizavam-se nós, contas ou outros pequenos objetos. Aquilo que hoje deslizamos entre os dedos guarda, portanto, a memória de uma oração profundamente simples e popular. Mas o Rosário foi-se tornando mais do que uma sucessão de orações.
A repetição começou a ser acompanhada pela contemplação dos grandes acontecimentos da vida de Cristo. E é aí que o Rosário encontra aquilo que continua a ser o seu verdadeiro centro. Não Maria isolada de Jesus, mas Maria conduzindo a Jesus.
São João Paulo II exprimiu-o de maneira particularmente feliz: apesar da sua «fisionomia mariana», o Rosário «no seu âmago é oração cristológica».
E São Domingos?
Há uma imagem que atravessou séculos de arte e devoção: Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos de Gusmão.
A tradição dominicana associa profundamente o fundador da Ordem dos Pregadores à propagação desta oração. A própria Ordem Dominicana refere que, «segundo a tradição», São Domingos recebeu o Rosário da Virgem Maria como instrumento espiritual contra a heresia e o pecado.
É importante, contudo, distinguir tradição espiritual e documentação histórica.
As fontes contemporâneas de São Domingos não registam essa aparição. A forma do Rosário que hoje conhecemos desenvolveu-se progressivamente e ganhou particular impulso no século XV, sobretudo através do dominicano Alano de la Roche, que promoveu intensamente esta devoção.
Na década de 1470 surgiram também as primeiras confrarias formalmente organizadas do Rosário. A sua rápida expansão ajudou a estabilizar a estrutura da oração e a torná-la uma das grandes devoções populares da Igreja.
A própria Rosarium Virginis Mariae reconhece que «a história do Rosário mostra como esta oração foi utilizada especialmente pelos Dominicanos». O Rosário cresceu entre a pregação, a contemplação e a necessidade muito concreta de ajudar o povo a entrar no Evangelho.
Lepanto, outubro e uma oração que atravessa a História
No século XVI, outro acontecimento ficaria profundamente ligado ao Rosário. Em 1571, uma coligação cristã enfrentou a frota otomana na Batalha de Lepanto. O Papa São Pio V pediu oração e recitação do Rosário. Depois da vitória, associou o acontecimento à intercessão de Nossa Senhora e determinou que a sua memória fosse celebrada liturgicamente.
Leão XIII recordaria mais tarde que São Pio V quis perpetuar a memória daquela vitória através de uma festa dedicada à Virgem, posteriormente celebrada sob o título de Nossa Senhora do Rosário. A festa permanece no calendário da Igreja a 7 de outubro.
Séculos depois, Leão XIII voltou a dar enorme impulso à devoção, dedicando repetidamente o mês de outubro à oração do Rosário. Em 1891 escrevia que outubro estava já «consagrado à beatíssima Virgem» e convidava os fiéis a recorrer ao Rosário durante todo o mês.
Não é, portanto, por acaso que outubro continua a ser conhecido como o mês do Rosário.
Um Rosário que continua a crescer
Em 2002 aconteceu algo invulgar numa oração com tantos séculos de história. São João Paulo II propôs a introdução de cinco novos mistérios: os Mistérios Luminosos: Batismo de Jesus no Jordão; Bodas de Caná; Anúncio do Reino de Deus; Transfiguração; Instituição da Eucaristia.
O objetivo era tornar ainda mais evidente que o Rosário é uma contemplação da vida de Cristo.
O Papa explicava que estes mistérios permitiam contemplar momentos particularmente significativos da vida pública de Jesus e fazer do Rosário, de modo ainda mais pleno, um «compêndio do Evangelho».
Talvez esteja aqui a chave para compreender esta oração. «Recitar o Rosário nada mais é senão contemplar com Maria o rosto de Cristo», escreveu São João Paulo II.
Talvez seja por isso que esta oração sobreviveu a tantos séculos. Porque cabe numa mão, mas contém uma história inteira. Nascimento. Alegria. Luz. Sofrimento. Morte. Ressurreição.
A vida de Jesus passa diante de quem reza lentamente, mistério depois de mistério. E as palavras repetidas deixam de ser apenas palavras. Transformam-se em ritmo. Em memória. Em contemplação.
As contas passam pelos dedos. O Evangelho passa pelo coração. E Maria continua a fazer aquilo que fez em Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser.» (Jo 2,5)