Rumo à presença plena

Pastoral da Comunicação 27 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 56

 Uma reflexão pastoral sobre a participação nas redes sociais

 

1) Foram dados grande passos na era digital, mas uma das questões urgentes que ainda deve ser abordada é o modo como nós, enquanto indivíduos e comunidade eclesial, devemos viver no mundo digital com “amor ao próximo”, genuinamente presentes e atentos uns aos outros na nossa viagem comum ao longo das “rodovias digitais”.

 

Os progressos tecnológicos tornaram possíveis novos tipos de interações humanas. Com efeito, a questão já não é se, mas como devemos participar no mundo digital. As redes sociais são, em particular, um ambiente em que as pessoas interagem, compartilham experiências e cultivam relacionamentos como nunca antes. Mas ao mesmo tempo, dado que a comunicação é cada vez mais influenciada pela inteligência artificial, há necessidade de redescobrir o encontro humano em sua própria essência. Nas últimas duas décadas, nosso relacionamento com as plataformas digitais passou por uma transformação irreversível. Sobressaiu a consciência de que estas plataformas podem evoluir até se tornar espaços cocriados, não apenas algo que usamos de maneira passiva. Os jovens – assim como as gerações mais velhas – pedem para ser encontrados onde estão, inclusive nas redes sociais, pois o mundo digital é “parte integrante da identidade dos jovens e do seu modo de viver”.[1]

2) Muitos cristãos pedem inspiração e orientação, uma vez que as redes sociais, que representam uma expressão da cultura digital, tiveram um impacto profundo quer nas nossas comunidades de fé, quer nas nossas jornadas espirituais individuais.

 

Existem abundantes exemplos de participação fiel e criativa nas redes sociais em todo o mundo, tanto de comunidades locais como de indivíduos que dão testemunho da sua fé em tais plataformas, muitas vezes de maneira mais abrangente do que a Igreja institucional. Também existem numerosas iniciativas pastorais e educacionais, desenvolvidas por Igrejas locais, movimentos, comunidades, congregações, universidades e indivíduos.

 

3) A Igreja universal abordou também a realidade digital. Por exemplo, desde 1967 as mensagens anuais para o Dia Mundial das Comunicações Sociais têm oferecido uma reflexão contínua sobre o tema. A partir dos anos 90, estas mensagens abordaram o uso do computador e, desde o início dos anos 2000, refletiram de maneira consistente sobre aspetos da cultura digital e da comunicação social. Levantando interrogações fundamentais para a cultura digital, em 2009 o Papa Bento XVI falou sobre as mudanças nos padrões de comunicação, afirmando que a mídia não deveria apenas fomentar conexões entre as pessoas, mas também encorajá-las a comprometer-se com relacionamentos que promovam “uma cultura de respeito, de diálogo e de amizade”.[2] Sucessivamente, a Igreja consolidou a imagem das redes sociais como “espaços”, não simplesmente “instrumentos”, e pediu que a Boa Nova seja proclamada inclusive nos ambientes digitais.[3] Por sua vez, o Papa Francisco reconheceu que o mundo digital “já não se consegue separar do círculo da vida quotidiana” e continua a mudar o modo como a humanidade acumula conhecimento, divulga informações e desenvolve relacionamentos.[4]

 

4) Além destas reflexões, a participação prática da Igreja nas redes sociais também tem sido eficaz.[5] Um momento recente demonstrou claramente que a mídia digital é um instrumento poderoso para o ministério da Igreja. Em 27 de março de 2020, ainda nas fases iniciais da pandemia da Covid-19, a Praça de São Pedro estava vazia, mas cheia de presença. Uma transmissão televisa ao vivo permitiu ao Papa Francisco presidir a uma experiência global transformadora: uma oração e uma mensagem dirigida a um mundo em confinamento. No meio de uma crise de saúde que ceifou a vida de milhões de indivíduos, pessoas no mundo inteiro, em quarentena e em isolamento, sentiram-se profundamente unidas entre si e ao sucessor de Pedro.[6] 

 

Através da mídia tradicional e da tecnologia digital, a prece do Papa chegou aos lares e tocou a vida das pessoas em todo o mundo. Os braços abertos da colunata de Bernini, ao redor da praça, foram capazes de ampliar um abraço a milhões de pessoas. Embora fisicamente distantes uns dos outros, os que se uniram ao Papa naquela hora estavam presentes uns aos outros e puderam experimentar um momento de unidade e de comunhão.

 

5) As seguintes páginas representam o resultado de uma reflexão que envolveu especialistas, professores, jovens profissionais e líderes, leigos, clérigos e religiosos. O objetivo consiste em abordar algumas das principais questões sobre o modo como os cristãos deveriam participar nas redes sociais. Elas não tencionam ser “diretrizes” exatas para o ministério pastoral nesta área. Ao contrário, espera-se promover uma reflexão comum sobre nossas experiências digitais, incentivando os indivíduos e as comunidades a adotar uma abordagem criativa e construtiva que possa fomentar uma cultura da proximidade.

 

O desafio de promover relacionamentos pacíficos, significativos e atenciosos nas redes sociais suscita um debate tanto nos círculos acadêmicos e profissionais como nos círculos eclesiásticos. Que tipo de humanidade se reflete na nossa presença nos ambientes digitais? Em que medida nossos relacionamentos digitais são fruto de uma comunicação profunda e autêntica, e em que medida são meramente modelados por opiniões inquestionáveis e reações apaixonadas? Até que ponto nossa fé encontra expressões digitais vivas e revigorantes? E quem é meu “próximo” nas redes sociais?

 

6) A Parábola do Bom Samaritano,[7] através da qual Jesus nos leva a responder à pergunta “Quem é meu próximo?”, é provocada pela interrogação de um especialista em direito. “O que devo fazer para herdar a vida eterna?”, questiona. O verbo “herdar” recorda-nos a herança da terra prometida, que não se trata tanto de um território geográfico, mas de um símbolo de algo mais profundo e duradouro, algo que cada geração deve redescobrir e que pode nos ajudar a reimaginar nosso papel no mundo digital.

 

I. Atenção às ciladas nas rodovias digitais
Aprender a ver a partir da ótica de quem caiu nas mãos dos ladrões (cf. Lc 10, 36).

Uma terra prometida a redescobrir?

7) As redes sociais representam apenas um dos ramos do fenômeno muito mais vasto e complexo da digitalização, que consiste no processo de transferência de muitas tarefas e dimensões da vida humana para plataformas digitais. As tecnologias digitais podem aumentar nossa eficácia, incrementar nossa economia e ajudar-nos a resolver problemas que antes eram insolúveis. A revolução digital ampliou nosso acesso às informações e nossa capacidade de nos conectarmos uns com os outros, para além dos limites do espaço físico. Um processo já em curso ao longo das últimas três décadas foi acelerado pela pandemia. Atividades, como a educação e o trabalho, que em geral eram feitas pessoalmente, agora podem realizar-se à distância. Também os países fizeram alterações significativas nos seus sistemas jurídicos e legislativos, adotando sessões e votações online, como uma alternativa às reuniões presenciais. O ritmo acelerado com que se divulgam as informações também transforma a maneira de funcionar da política.

 

8) Com o advento da Web 5.0 e de outros progressos na comunicação, nos próximos anos o papel da inteligência artificial causará um impacto cada vez maior na nossa experiência da realidade. Atualmente testemunhamos o desenvolvimento de máquinas que trabalham e tomam decisões por nós, que podem aprender e prever nossos comportamentos; de sensores na nossa pele, capazes de medir nossas emoções; de máquinas que respondem às nossas perguntas e aprendem com nossas respostas, ou que usam os registros da ironia e falam com a voz e as expressões das pessoas que não estão mais conosco. Nessa realidade em evolução constante, ainda há muitas perguntas a responder.[8]

 

9) As consideráveis mudanças que o mundo experimentou desde o lançamento da Internet provocaram também novas tensões. Alguns nasceram nesta cultura e são “nativos digitais”; outros ainda procuram acostumar-se com ela, como “imigrantes digitais”. Seja como for, agora nossa cultura é digital. Para superar a antiga dicotomia entre “digital” e “face a face”, alguns já não falam de “online” e “offline”, mas somente de “onlife”, incorporando a vida humana e social nas suas várias expressões, tanto em espaços digitais como físicos.

 

10) No contexto da comunicação integrada, que consiste na convergência dos processos de comunicação, as redes sociais desempenham um papel decisivo como um fórum em que se modelam nossos valores, crenças, linguagem e suposições a respeito da vida diária. Além disso, para muitas pessoas, especialmente nos países em desenvolvimento, o único contato com a comunicação digital ocorre através das redes sociais. Muito além do ato de usar as redes sociais como um instrumento, vivemos em um ecossistema plasmado na sua essência pela experiência da partilha social. Não obstante ainda usemos a web para procurar informações ou entretenimento, recorremos às redes sociais para ter uma sensação de pertença e afirmação, transformando-a em um espaço vital onde se verifica a comunicação de valores e crenças essenciais.

 

Neste ecossistema, pede-se que as pessoas confiem na autenticidade das declarações de missão das empresas de redes sociais, que prometem, por exemplo, aproximar o mundo, conferir a todos o poder de criar e de compartilhar ideias, ou dar voz a todos. Embora estejamos cientes de que estes slogans publicitários quase nunca são postos em prática, uma vez que as empresas estão muito mais preocupadas com seus lucros, ainda tendemos a acreditar nas promessas.

 

11) Na verdade, quando começaram a utilizar a Internet há poucas décadas, as pessoas já compartilhavam uma versão deste sonho: a esperança de que o mundo digital seria um feliz espaço de compreensão comum, informações gratuitas e colaboração. A Internet devia ser uma “terra prometida”, em que as pessoas pudessem contar com informações partilhadas com base na transparência, confiança e experiência.

 

Ciladas a evitar

12) No entanto, estas expetativas não foram realmente atendidas.

Em primeiro lugar, ainda nos deparamos com uma “desigualdade digital”. Embora esta evolução se mova mais rapidamente do que nossa capacidade de a compreender de maneira adequada, muitas pessoas continuam a não ter acesso, não só às necessidades básicas, como alimentos, água, roupas, moradia e assistência médica, mas inclusive às tecnologias de comunicação e informação. Isto deixa um grande número de excluídos, marginalizados, à beira do caminho.

 

Além disso, uma “desigualdade nas redes sociais” torna-se cada vez mais aguda. As plataformas que prometem criar comunidade e aproximar o mundo, ao contrário, tornaram mais profundas várias formas de divisão.

 

13) Existem algumas ciladas a evitar na “rodovia digital”, que nos permitem compreender melhor como isto poderia acontecer.

 

Hoje não é possível falar de “redes sociais” sem considerar seu valor comercial, isto é, sem a consciência de que a revolução real ocorreu quando empresas e instituições compreenderam o potencial estratégico das plataformas sociais, contribuindo para uma rápida consolidação de linguagens e práticas que, ao longo dos anos, transformaram usuários em consumidores. De resto, os indivíduos são tanto consumidores como produtos: como consumidores, recebem publicidades baseadas em dados e conteúdos patrocinados sob medida. Como produtos, seus perfis e dados são vendidos a outras empresas, tendo em mente o mesmo objetivo. Aderindo às declarações de missão das empresas de redes sociais, as pessoas aceitam também “termos de acordo” que normalmente não leem nem entendem. Tornou-se popular compreender tais “termos de acordo” segundo um velho ditado que diz: “Se você não pagar pelo produto, o produto é você”. Em poucas palavras, ele não é gratuito: pagamos com minutos da nossa atenção e bytes dos nossos dados.

 

14) A ênfase cada vez acentuada na distribuição e no comércio de conhecimento, de dados e de informações gerou um paradoxo: em uma sociedade onde as informações desempenham um papel tão essencial, é cada vez mais difícil averiguar as fontes e a exatidão das informações que circulam no mundo digital. A sobrecarga de conteúdo é resolvida por algoritmos de inteligência artificial, que determinam constantemente o que mostrar com base em fatores que dificilmente percebemos ou entendemos: não apenas nossas escolhas, gostos, reações ou preferências precedentes, mas também nossas ausências e distrações, pausas e capacidades de concentração. O ambiente digital que cada pessoa vê – e até os resultados de uma pesquisa online – nunca é o mesmo em relação ao de qualquer outra. Quando procuramos informações nos navegadores, ou quando as recebemos no nosso sistema para diferentes plataformas e aplicativos, geralmente não temos noção dos filtros que condicionam os resultados. A consequência desta personalização cada vez mais sofisticada dos resultados constitui uma exposição forçada a informações parciais, que corroboram nossas próprias ideias e fortalecem nossas crenças, levando-nos assim a um isolamento de “bolhas de filtro”.

 

15) As comunidades online nas redes sociais são “pontos de encontro”, que em geral se formam em volta dos interesses compartilhados de “indivíduos em rede”. Quem está presente nas redes sociais é abordado de acordo com suas caraterísticas, origens, gostos e preferências particulares, dado que os algoritmos por detrás das plataformas online e dos mecanismos de busca tendem a unir as pessoas que são “iguais”, agrupando-as e chamando sua atenção a fim de as manter online. Consequentemente, as plataformas das redes sociais podem correr o risco de impedir que seus usuários realmente se encontrem com o “outro”, que é diferente.

 

16) Todos nós fomos testemunhas de sistemas automatizados que correm o risco de criar estes “espaços” individualistas e, às vezes, de encorajar comportamentos extremos. Discursos agressivos e negativos propagam-se fácil e rapidamente, oferecendo um campo fértil para a violência, o abuso e a desinformação. Nas redes sociais, diferentes atores, frequentemente incentivados por uma cobertura de anonimato, reagem constantemente uns aos outros. Em geral, tais interações são marcadamente diferentes das que se verificam em espaços físicos, onde nossas ações são influenciadas pelas reações verbais e não verbais dos outros.

 

17) Estar cientes destas ciladas ajuda-nos a discernir e desmascarar a lógica que polui o ambiente das redes sociais, e a procurar uma solução para este descontentamento digital. É importante apreciar o mundo digital e reconhecê-lo como parte da nossa vida. No entanto, é na complementaridade das experiências digitais e físicas que se constroem a vida e a jornada humanas.

 

18) Ao longo das “rodovias digitais”, muitas pessoas são feridas pela divisão e pelo ódio. Não podemos ignorar isto. Não podemos ser apenas viandantes silenciosos. A fim de humanizar os ambientes digitais, não devemos esquecer quem é “deixado para trás”. Só podemos ver o que acontece, se olharmos do ponto de vista do homem ferido na parábola do Bom Samaritano. Como na parábola, onde somos informados a respeito do que o homem ferido viu, a perspectiva dos marginalizados e feridos digitalmente ajuda-nos a compreender melhor o mundo de hoje, cada vez mais complexo.

 

Tecer relacionamentos 

19) Em uma época em que estamos cada vez mais divididos, em que cada pessoa se retira na sua própria bolha filtrada, as redes sociais tornam-se um caminho que leva muitos à indiferença, à polarização e ao extremismo. Quando os indivíduos não se tratam uns aos outras como seres humanos, mas como meras expressões de um certo ponto de vista que não compartilham, testemunhamos outra expressão da “cultura do descarte”, que prolifera a “globalização” – e a normalização – “da indiferença”. Retirar-se no isolamento dos próprios interesses não pode ser o caminho para restabelecer a esperança. Pelo contrário, o caminho a percorrer é o cultivo de uma “cultura do encontro”, que promova a amizade e a paz entre pessoas diferentes.[9]

 

20) Portanto, há necessidade cada vez mais urgente de envolver as plataformas das redes sociais, de tal modo que vá além dos próprios silos, saindo do grupo dos seus “iguais” para se encontrar com os outros.

 

Aceitar o “outro”, alguém que assume posições opostas às minhas, ou que parece “diferente”, com certeza não é uma tarefa fácil. “Por que eu me deveria importar?” pode muito bem ser nossa primeira reação. Podemos encontrar esta atitude também na Bíblia, começando pela rejeição de Caim de ser o guardião do seu irmão (cf. Gn 4, 9) e continuando com o escriba, que perguntou a Jesus: “Quem é meu próximo?” (Lc 10, 29). O escriba queria fixar um limite em relação a quem é e quem não é meu próximo. Parece que gostaríamos de encontrar uma justificativa para nossa própria indiferença; sempre procuramos traçar uma linha entre “nós” e “eles”, entre “alguém que devo tratar com respeito” e “alguém que posso ignorar”. Deste modo, quase sem perceber, chegamos a tornar-nos incapazes de sentir compaixão pelos outros, como se seus sofrimentos fossem responsabilidade deles e não tivéssemos nada a ver com isso.[10]

 

21) Ao contrário, a parábola do Bom Samaritano desafia-nos a enfrentar a “cultura do descarte” digital e a ajudar uns aos outros a sair da própria zona de conforto, fazendo um esforço voluntário para alcançar o outro. Isto só é possível, se nos esvaziarmos a nós mesmos, compreendendo que cada um de nós faz parte da humanidade ferida e recordando que alguém olhou para nós e teve compaixão de nós.

 

22) Só assim podemos – e deveríamos – ser aqueles que dão o primeiro passo para superar a indiferença, pois acreditamos em um “Deus que não é indiferente”.[11] Podemos e deveríamos ser aqueles que deixam de perguntar, “Quanto me devo interessar realmente pelos outros?” e, ao contrário, começam a agir como próximo, rejeitando a lógica de exclusão e reconstruindo uma lógica de comunidade.[12] Podemos e deveríamos ser aqueles que passam do entendimento da mídia digital como experiência individual para uma sua compreensão como experiência que se fundamenta no encontro mútuo, promovendo a construção da comunidade.

 

23) Em vez de agir como indivíduos, produzindo conteúdo ou reagindo a informações, ideias e imagens compartilhadas pelos outros, devemos interrogar-nos: como podemos cocriar experiências online mais saudáveis, em que as pessoas possam participar em conversas e superar divergências com um espírito de escuta recíproca?

 

Como podemos fortalecer as comunidades, a fim de que encontrem maneiras de superar as divisões e promover o diálogo e o respeito nas plataformas das redes sociais?

 

Como podemos restituir o ambiente online àquilo que ele pode e deveria ser: um lugar de partilha, de colaboração e de pertença, baseado na confiança mútua?

 

24) Todos podem participar na realização desta mudança, relacionando-se com os outros e desafiando-se a si mesmos nos encontros com os outros. Como crentes, somos chamados a ser comunicadores que caminham intencionalmente rumo ao encontro. Deste modo, podemos procurar encontros que sejam significativos e duradouros, não superficiais nem efêmeros. Com efeito, orientando as conexões digitais para o encontro com pessoas reais, criando relacionamentos reais e edificando uma comunidade real, na realidade nutrimos nossa própria relação com Deus. Dito isto, nossa relação com Deus deve ser alimentada também através da oração e da vida sacramental da Igreja que, devido à sua essência, nunca podem ser reduzidas simplesmente à esfera “digital”.

 

II. Da consciência ao verdadeiro encontro
Aprender com aquele que teve compaixão (cf. Lc 10, 33)

Ouvintes intencionais

25) A reflexão sobre nossa participação nas redes sociais começou com a consciência acerca do modo como estas redes funcionam e das oportunidades e desafios que nelas enfrentamos. Se as redes sociais online têm uma tentação inerente ao individualismo e ao enaltecimento pessoal, como foi descrito no capítulo precedente, não estamos condenados necessariamente a cair em tais atitudes. O discípulo que encontrou o olhar misericordioso de Cristo experimentou algo mais. Ele ou ela sabe que a boa comunicação começa pela escuta e a consciência de que outra pessoa está diante de mim. A escuta e a consciência visam fomentar o encontro e superar os impedimentos existentes, inclusive o obstáculo da indiferença. Ouvir desta maneira é um passo essencial para envolver os outros; é o primeiro ingrediente indispensável para a comunicação e uma condição para o diálogo genuíno.[13]

 

26) Na parábola do Bom Samaritano, o homem espancado e abandonado à morte foi ajudado pela pessoa menos esperada: na época de Jesus, os povos judeu e samaritano estavam com frequência em conflito. No mínimo, o comportamento esperado teria sido a hostilidade. Contudo, o samaritano não viu aquele homem espancado como “outro”, mas simplesmente como alguém que precisava de ajuda. Sentiu compaixão, colocando-se no lugar do outro; e doou-se a si mesmo, seu tempo e seus recursos para ouvir e acompanhar alguém que ele tinha encontrado.[14]

 

27) A parábola pode inspirar relacionamentos nas redes sociais, pois ilustra a possibilidade de um encontro profundamente significativo entre duas pessoas completamente estranhas. O samaritano rompe a “desigualdade social”: ultrapassa os confins da concordância e da divergência. Enquanto o sacerdote e o levita passam pelo homem ferido e vão em frente, o viajante samaritano vê-o e move-se de compaixão (cf. Lc 10, 33). Compaixão significa sentir que a outra pessoa faz parte de mim mesmo. O samaritano ouve a história do homem; aproxima-se porque se comove intimamente.

 

28) O Evangelho de Lucas não contém diálogo algum entre os dois homens. Podemos imaginar que o samaritano encontrou o homem ferido e talvez lhe tenha perguntado: “O que aconteceu com você?”. Mas até sem palavras, mediante sua atitude de abertura e hospitalidade, tem início um encontro. Este primeiro gesto é uma expressão de atenção, e isto é crucial. A capacidade de ouvir e de permanecer aberto para receber a história de outra pessoa, sem se importar com os preconceitos culturais da época, impediu que o homem ferido fosse abandonado à morte.

 

29) A interação entre os dois homens estimula-nos a dar o primeiro passo no mundo digital. Somos convidados a ver o valor e a dignidade daqueles em relação aos quais temos diferenças. Somos convidados também a olhar para além da nossa rede de segurança, dos nossos silos e das nossas bolhas. Tornar-se próximo no ambiente das redes sociais exige intencionalidade. E tudo começa com a capacidade de ouvir bem, de permitir que a realidade do outro nos comova.

 

Roubar nossa atenção

30) Escutar é uma habilidade fundamental, que nos permite estabelecer relacionamentos com os outros e não apenas participar em uma troca de informações. No entanto nossos dispositivos estão repletos de informações. Vivemos mergulhados em uma rede de informações que nos conecta com os outros através de postagens partilhadas de textos, imagens e sons. As plataformas das redes sociais permitem-nos navegar incessantemente na exploração deste contexto. Embora o vídeo e o som tenham, certamente, aumentado a riqueza midiática da comunicação digital, nossas interações mediadas uns com os outros ainda são limitadas. Com frequência, encontramos informações rapidamente e sem o contexto completo e necessário. Conseguimos reagir fácil e imediatamente às informações em uma tela, sem ir à procura da história completa.

 

31) Esta abundância de informações tem muitos benefícios: quando fazemos parte da rede, as informações são pronta e amplamente acessíveis e personalizadas segundo nossos interesses. Podemos receber informações práticas, manter conexões sociais, explorar recursos e aprofundar e dilatar nosso conhecimento. A facilidade de acesso às informações e à comunicação tem também o potencial de criar espaços inclusivos, que dão voz àqueles que, nas nossas comunidades, são marginalizados pela injustiça social ou econômica.

 

32) Ao mesmo tempo, a disponibilidade infinita de informações criou também alguns desafios. Experimentamos o excesso de informações, uma vez que nossa capacidade cognitiva de processar sofre com as informações excessivas à nossa disposição. De maneira semelhante, experimentamos um excesso de interação social, dado que estamos sujeitos a um alto nível de estímulos sociais. Diferentes websites, aplicativos e plataformas são programados para tirar proveito do nosso desejo humano de reconhecimento e lutam constantemente para chamar a atenção das pessoas. A atenção por si só passou a ser o ativo e a mercadoria mais valiosos.

 

33) Neste ambiente nossa atenção não se concentra, enquanto procuramos navegar nesta rede sobrecarregada de informações e interações sociais. Em vez de nos concentrarmos em uma matéria de cada vez, nossa atenção parcial contínua passa rapidamente de um assunto para outro. Em nossa condição de “sempre conectados”, temos a tentação de postar de maneira instantânea, uma vez que estamos fisiologicamente viciados em estímulos digitais, desejamos cada mais conteúdo, em uma navegação interminável, e sentimo-nos frustrados por qualquer falta de atualização. Um significativo desafio cognitivo da cultura digital é nossa perda de capacidade de pensar profunda e objetivamente. Analisamos a superfície e permanecemos no baixio, em vez de ponderar profundamente sobre as realidades.

 

34) Devemos estar mais atentos a este aspeto. Sem o silêncio e o espaço para pensar lenta, profunda e objetivamente, corremos o risco de perder não só as capacidades cognitivas, mas também a profundidade de nossas interações, tanto humanas como divinas. O espaço para a escuta, a atenção e o discernimento deliberados da verdade torna-se raro.

 

O processo chamado atenção-interesse-desejo-ação, bem conhecido pelos publicitários, é semelhante ao processo mediante o qual qualquer tentação entra no coração humano e desvia nossa atenção da única palavra realmente significativa e vivificante, a Palavra de Deus. De qualquer forma, ainda prestamos atenção à antiga serpente que, todos os dias, nos mostra novos frutos. Eles parecem “bons para comer, de aspecto agradável e muito apropriados para alcançar a sabedoria” (Gn 3, 6). Como sementes ao longo do caminho, onde a palavra é semeada, permitimos que o maligno venha e tire a palavra que foi semeada em nós (cf. Mc 4, 14-15).

 

35) Com este excesso de estímulos e dados que recebemos, o silêncio é um bem precioso, porque garante o espaço para a concentração e o discernimento.[15] O ímpeto de procurar o silêncio na cultura digital eleva a importância de se concentrar e de escutar. Nos ambientes educacionais ou de trabalho, assim como nas famílias e comunidades, há necessidade crescente de nos desligarmos dos dispositivos digitais. Neste caso, o “silêncio” pode ser comparado a uma “desintoxicação digital”, que não é simplesmente abstinência, mas ao contrário uma maneira de se comprometer mais profundamente com Deus e com os outros.

 

36) A escuta emerge do silêncio e é fundamental para cuidar dos outros. Quando escutamos, damos as boas-vindas a alguém, oferecemos hospitalidade e demonstramos respeito por aquela pessoa. Escutar é inclusive um ato de humildade da nossa parte, dado que reconhecemos a verdade, a sabedoria e o valor, além do nosso próprio limitado ponto de vista. Sem a disposição para a escuta, não somos capazes de receber o dom do outro.

 

Com o ouvido do coração

37) Com a velocidade e o imediatismo da cultura digital, que põe à prova nossa capacidade de atenção e de concentração, a escuta torna-se ainda mais importante na nossa vida espiritual. Uma abordagem contemplativa é contracultural, até profética, e pode ser formativa não só para as pessoas, mas para a cultura no seu conjunto.

 

O compromisso da escuta nas redes sociais constitui um ponto de partida fundamental, em vista de passar para uma rede que não seja tanto de bytes, avatares e “likes”, mas de pessoas.[16] Deste modo, passamos de reações rápidas, suposições equivocadas e comentários impulsivos para a criação de oportunidades de diálogo, levantando questões para aprender mais, demonstrando cuidado e compaixão, e reconhecendo a dignidade daqueles com quem nos encontramos.

 

38) A cultura digital aumentou incomensuravelmente nosso contacto com os outros. Isto também nos oferece a oportunidade de escutar muito mais. Muitas vezes, quando se fala de “escuta” nas redes sociais, faz-se referência a processos de monitoração de dados, a estatísticas de participação e a ações que visam uma análise de marketing dos comportamentos sociais presentes nas redes. Naturalmente, isto não é suficiente para que as redes sociais seja um ambiente para a escuta e o diálogo. A escuta intencional no contexto digital exige que se escute com o “ouvido do coração”. Escutar com o “ouvido do coração” vai além da capacidade física de ouvir sons. Pelo contrário, impele-nos a estar abertos ao outro com todo o nosso ser: uma abertura do coração que torna possível a proximidade.[17] Trata-se de uma postura de atenção e hospitalidade, que é fundamental para estabelecer a comunicação. Essa sabedoria aplica-se não só à oração contemplativa, mas também às pessoas que estão em busca de relacionamentos autênticos e de comunidades genuínas. O desejo de estar em relação com os outros e com o Outro – Deus – permanece uma necessidade humana fundamental, que é evidente também no desejo de conectividade na cultura digital.[18]

 

39) O diálogo interior e a relação com Deus, possíveis graças ao dom divino da fé, são essenciais para nos permitir crescer na capacidade de escutar bem. Também a Palavra de Deus desempenha um papel fundamental neste diálogo interior. A escuta orante da Palavra na Escritura, através da prática da leitura espiritual dos textos bíblicos, como na lectio divina, pode ser profundamente formativa, uma vez que permite uma experiência lenta, deliberada e contemplativa.[19] 

 

40) A “Palavra do Dia” ou o “Evangelho do Dia” estão entre as matérias mais consultadas pelos cristãos no Google, e pode-se afirmar claramente que o ambiente digital nos ofereceu muitas possibilidades, novas e mais fáceis, para um “encontro” regular com a Palavra divina. Nosso encontro com a Palavra do Deus vivo, até online, transforma nossa abordagem de uma visão de informações na tela, para o encontro com outra pessoa que narra uma história. Se tivermos em mente que, por detrás da tela, nos conectamos com outras pessoas, o exercício da escuta pode ampliar a receptividade às histórias dos outros e começar a gerar relacionamentos.

 

Discernir nossa presença nas redes sociais

41) Do prisma da fé, o que e como comunicar não é somente uma questão prática, mas também espiritual. A presença nas plataformas das redes sociais requer discernimento. Comunicar-se bem em tais contextos é um exercício de prudência e exige uma ponderação orante sobre o modo como entrar em contacto com os outros. Abordar esta questão na ótica da interrogação do escriba, “Quem é meu próximo?”, exige discernimento a propósito da presença de Deus no e através do modo como nos relacionamos uns com os outros nas plataformas das redes sociais.

 

42) Nas redes sociais, a proximidade é um conceito complexo. Nas redes sociais, os “próximos” são mais claramente aqueles com quem temos ligações. Ao mesmo tempo, nosso próximo é também, frequentemente, aquele que não podemos ver, quer porque as plataformas nos impedem de vê-lo, quer porque ele simplesmente não está presente. Os ambientes digitais são compartilhados também por outros participantes, como os “bots da Internet” e os “deepfakes”, programas de computador automatizados, que atuam online com tarefas específicas, muitas vezes simulando ações humanas ou coletando dados.

 

Além disso, as plataformas das redes sociais são controladas por uma “autoridade” externa, em geral uma organização com fins lucrativos que desenvolve, administra e promove mudanças no modo como a plataforma foi programada para funcionar. Em um sentido mais abrangente, todos eles “habitam na” ou contribuem para a proximidade online.

 

43) Reconhecer nosso próximo digital implica reconhecer que a vida de cada pessoa nos diz respeito, até quando sua presença (ou ausência) é mediada através de meios digitais. “Os meios de comunicação atuais permitem-nos comunicar e partilhar nossos conhecimentos e afetos”, como diz o Papa Francisco na Laudato si’, “mas às vezes também nos impedem de entrar em contato direto com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal”.[20] Ser próximo nas redes sociais significa estar presente nas histórias dos outros, especialmente de quem sofre. Em síntese, defender melhores ambientes digitais não significa desviar o foco dos problemas concretos experimentados por muitas pessoas - por exemplo, fome, pobreza, migração forçada, guerra, doença e solidão. Pelo contrário, significa defender uma visão integral da vida humana que, atualmente, abrange o mundo digital. Com efeito, as redes sociais podem ser um modo de chamar mais atenção para tais realidades e construir a solidariedade entre aqueles que estão próximos e distantes.

 

44) Considerando as redes sociais como um espaço não apenas para conexões, mas em última análise para relacionamentos, um “exame de consciência” apropriado a respeito da nossa presença nas redes sociais deveria incluir três relações vitais: com Deus, com o próximo e com o meio ambiente ao nosso redor.[21] Nossos relacionamentos com os outros e com nosso meio ambiente deveriam alimentar nossa relação com Deus, e nossa relação com Deus, que é a mais importante, deve ser visível nos nossos relacionamentos com os outros e com nosso meio ambiente.

 

III. Do encontro à comunidade
“Cuida dele” (cf. Lc 10, 35) – abranger outros no processo de cura

Face a face

45) A comunicação começa com a conexão e passa para os relacionamentos, a comunidade e a comunhão.[22] Não existe comunicação sem a verdade de um encontro. Comunicar-se consiste em estabelecer relacionamentos; em “estar com”. Ser comunidade significa partilhar com os outros as verdades fundamentais a respeito do que se possui e do que se é. Muito além da mera proximidade geográfico-territorial ou étnico-cultural, o que constitui uma comunidade é a partilha comum da verdade, com um sentimento de pertença, reciprocidade e solidariedade, nos diferentes âmbitos da vida social. Considerando estes últimos elementos, é importante recordar que a edificação da unidade comunitária mediante práticas comunicativas, que mantêm os laços sociais ao longo do tempo e do espaço, será sempre secundária em relação à adesão à verdade em si.

 

46) Como construir uma comunidade mediante práticas comunicativas até no meio daqueles que não estão fisicamente próximos uns dos outros é, na verdade, uma questão muito antiga. Já nas cartas dos Apóstolos podemos identificar uma tensão entre a presença mediada e o desejo de um encontro pessoal. Por exemplo, o evangelista João conclui sua segunda e terceira cartas, dizendo: “Apesar de ter mais coisas para vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar face a face convosco, para que a vossa alegria seja perfeita” (2 Jo 12). O mesmo é verdade no caso do apóstolo Paulo que, até na sua ausência e no seu “desejo de ver” as pessoas face a face (1 Ts 2, 17), estava presente através das suas cartas na vida de cada comunidade por ele fundada (cf. 1 Cor 5, 3). Seus escritos serviram também para “interligar” as diferentes comunidades (cf. Cl 4, 15-16). A capacidade de Paulo de edificar comunidades foi transmitida aos nossos dias através das suas numerosas cartas, nas quais aprendemos que para ele não havia dicotomia entre a presença física e a presença mediante sua palavra escrita, lida pela comunidade (cf. 2 Cor 10, 9-11). 

 

47) Na realidade cada vez mais onlife do mundo de hoje, é necessário superar a lógica do “ou, ou”, que pensa os relacionamentos humanos no âmbito de uma lógica dicotômica (digital versus real-físico-pessoal), e assumir uma lógica do “ambos, e”, baseada na complementaridade e na integralidade da vida humana e social. As relações comunitárias nas redes sociais deveriam fortalecer as comunidades locais, e vice-versa. “O uso da social web é complementar ao encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da respiração do outro. Se a rede for usada como prolongamento ou expetativa de tal encontro, então não se atraiçoa a si mesma e permanece um recurso para a comunhão”.[23] “A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas”,[24] se nos recordarmos que do outro lado da tela não existem “números”, nem meros “agregados de indivíduos”, mas pessoas com histórias, sonhos, expetativas, sofrimentos. Existem um nome e um rosto.

 

A caminho de Jericó

48) A mídia digital permite que as pessoas se encontrem além dos confins do espaço e das culturas. Embora tais encontros digitais talvez não tragam necessariamente a proximidade física, contudo podem ser significativos, influentes e reais. Para além de meras conexões, podem ser um caminho para se relacionar sinceramente com os outros, para participar em conversas significativas, para expressar solidariedade e para aliviar o isolamento e a dor de alguém.

 

49) As redes sociais podem ser vistas como outro “caminho para Jericó”, repleto de oportunidades para encontros não previstos, como foi para Jesus: um mendigo cego que grita alto à margem da estrada (cf. Lc 18, 35-43), um cobrador de impostos desonesto, escondido nos galhos de uma figueira (cf. Lc 19, 1-9) e um homem ferido, abandonado meio-morto pelos ladrões (cf. Lc 10, 30). Ao mesmo tempo, a parábola do Bom Samaritano recorda-nos que, só porque alguém é “religioso” (um sacerdote ou levita), ou alega ser seguidor de Jesus, isto não é garantia de que oferecerá ajuda, ou procurará a cura e a reconciliação. Os discípulos de Jesus repreenderam o cego e lhe disseram para ficar calado; a interação de Zaqueu com Jesus foi acompanhada pelos murmúrios de outras pessoas; o homem ferido foi simplesmente ignorado pelo sacerdote e pelo levita, que passaram e foram em frente.

 

50) Nas encruzilhadas digitais, assim como nos encontros diretos, não é suficiente ser “cristão”. Nas redes sociais é possível encontrar muitos perfis ou contas que proclamam um conteúdo religioso, mas não participam em dinâmicas relacionais de modo fiel. Interações hostis, bem como palavras violentas e ofensivas, especialmente no contexto da partilha de um conteúdo cristão, gritam da tela e representam uma contradição do próprio Evangelho.[25] 

 

Ao contrário, o Bom Samaritano, que está atento e aberto para se encontrar com o homem ferido, é movido pela compaixão para agir e cuidar dele. Trata das feridas da vítima, levando-a para uma hospedaria a fim de garantir seu cuidado contínuo. Do mesmo modo, nossos desejos de fazer das redes sociais um espaço mais humano e relacional devem traduzir-se em atitudes concretas e gestos criativos.

 

51) A promoção de um sentido de comunidade inclui a atenção a valores compartilhados, experiências, esperanças, tristezas, alegrias, humor e até piadas, que por si só podem tornar-se pontos de encontro para as pessoas nos espaços digitais. Assim como se verifica com a escuta, o discernimento e o encontro, a formação de uma comunidade com outras pessoas exige o compromisso individual. Aquilo que as plataformas das redes sociais descrevem como “amizade” começa simplesmente como uma conexão ou um conhecimento. No entanto, também neste caso é possível destacar um espírito comum de apoio e camaradagem. Para ser comunidade, é preciso um sentido de participação livre e mútuo, para se tornar uma almejada associação que reúne membros com base na proximidade. A liberdade e o apoio mútuo não se manifestam de maneira automática. Para formar comunidade, o trabalho de cura e reconciliação é muitas vezes o primeiro passo a dar ao longo do caminho.

 

52) Até nas redes mídias sociais, “enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo. E se estendermos o olhar à totalidade da nossa história e ao mundo no seu conjunto, reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estes personagens da parábola: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do Bom Samaritano”.[26]

 

Todos nós podemos ser viandantes nas rodovias digitais – simplesmente “conectados”[27] – ou podemos fazer algo como o samaritano, permitindo que as conexões evoluam em verdadeiros encontros. O viandante casual torna-se próximo quando cuida do homem ferido, tratando suas chagas. Cuidando do homem, tenciona sarar não apenas as feridas físicas, mas igualmente as divisões e a animosidade existentes entre seus grupos sociais.

 

53) Então, o que significa “curar” as feridas nas redes sociais? Como podemos “atar" uma divisão? Como podemos construir ambientes eclesiais capazes de aceitar e integrar as “periferias geográficas e existenciais” das culturas de hoje? Perguntas como estas são essenciais para discernir nossa presença cristã nas rodovias digitais.

 

“Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos de outras pessoas, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. Como o viandante ocasional da nossa história, é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, comunidade, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar e levantar quem está caído”.[28]   

 

“Vá e faça o mesmo”

54) Relação produz relação, comunidade constrói comunidade. A graça do relacionamento que se estabelece entre duas pessoas vai além da sua interação. A pessoa humana foi feita para o relacionamento e a comunidade. Ao mesmo tempo, a solidão e o isolamento afligem nossa realidade cultural, como pudemos experimentar de maneira aguda durante a pandemia de Covid-19. Quem procura companhia, especialmente os marginalizados, recorrem com frequência aos espaços digitais para encontrar uma comunidade, inclusão e solidariedade com os outros. Não obstante muitos tenham encontrado conforto conectando-se com outras pessoas no espaço digital, outros consideram que ele é inadequado. Talvez não consigamos oferecer espaço àqueles que procuram participar no diálogo e encontrar apoio, sem ser objeto de atitudes críticas ou defensivas.

 

55) O movimento do encontro para o relacionamento e depois para a comunidade refere-se tanto aos benefícios como aos desafios da cultura digital. Às vezes, as comunidades online formam-se quando as pessoas encontram um terreno comum, reunindo elementos contrários a “outro” externo, um inimigo ideológico comum. Este tipo de polarização cria um “tribalismo digital” em que os grupos são postos uns contra os outros, em espírito de rivalidade. Não podemos esquecer a presença dos outros, irmãos e irmãs, pessoas com dignidade, do outro lado destas linhas tribais. Nós “não devemos catalogar os outros, para decidir quem é meu próximo e quem não é. Depende de mim, ser ou não ser próximo — a decisão é minha — depende de mim, ser ou não ser próximo da pessoa com a qual me encontro e que tem necessidade de ajuda, mesmo que seja desconhecida, ou talvez até hostil”.[29] Infelizmente, relacionamentos rompidos, conflitos e divisões não são alheios à Igreja. Por exemplo, quando grupos que se apresentam como “católicos” usam sua presença nas redes sociais para fomentar a divisão, não se comportam como uma comunidade cristã d

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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