Missionários digitais reunidos em Alfândega da Fé
Escutar quem sofre, criar relações e combater a indiferença foram desafios centrais do I Encontro Nacional dos Missionários Digitais, realizado a 26 de setembro, em Alfândega da Fé. A iniciativa reuniu comunicadores, responsáveis eclesiais e criadores de conteúdos, recebeu uma mensagem do Papa Leão XIV e terminou com o anúncio de uma segunda edição em Évora, em 2028.
Na Casa da Cultura Mestre José Rodrigues, a reflexão colocou no centro as pessoas que procuram companhia, sentido e respostas nos ambientes digitais. «Atrás de um ecrã há sempre uma pessoa», afirmou monsenhor Lucio Adrián Ruiz, em declarações à Agência Ecclesia. O responsável da Santa Sé defendeu uma missão que acompanhe a história concreta de quem está nas redes e favoreça a ligação a uma comunidade presencial.
O padre Borre, responsável pela pastoral digital da Arquidiocese de Monterrey, no México, abordou o isolamento vivido por muitos evangelizadores digitais e a necessidade de acompanhamento eclesial. «A pastoral digital respeita o carisma e o estilo do missionário digital», explicou à mesma agência, defendendo que a integração na Igreja preserve as diferentes linguagens e formas de comunicar.
Uma mensagem do Papa contra a polarização
A mensagem de Leão XIV, enviada através do cardeal Pietro Parolin e lida por D. Nuno Almeida, bispo de Bragança-Miranda, deu um horizonte a este trabalho. «O discípulo-missionário, sem se pregar a si mesmo nem ceder a polarizações, continua a deitar esta mesma rede», escreveu o Papa, segundo a Ecclesia. O texto convidou os participantes a colocar a sua presença digital ao serviço da dignidade e do desenvolvimento integral das pessoas.
Na abertura, D. Nuno Almeida chamou também a atenção para o desgaste da capacidade de sentir com os outros. «A super-exposição à dor alheia, em vez de fortalecer os laços humanos, destrói o silêncio interior necessário à escuta e à presença», afirmou, citado pela Renascença. Perante as guerras e outras formas de violência, o bispo desafiou os presentes a conservar a capacidade de rezar, agir e cuidar.
O programa incluiu um encontro de redações, testemunhos de projetos e criadores de conteúdos e uma oração ecuménica pela paz. Segundo a Voz de Trás-os-Montes, a Casa da Cultura esteve lotada durante uma jornada que reuniu mais de vinte oradores. À noite, mais de três mil pessoas assistiram à atuação do padre Guilherme no Recinto da Feira.
O sacerdote e DJ associou a sua participação à necessidade de transformar a convivência nas plataformas. A missão passa por «criar laços, criar encontros» e por «fazer com que as redes também sejam um lugar de paz», afirmou à Ecclesia.
Um caminho que continua em Évora
No balanço do encontro, o padre Manuel Ribeiro, presidente da Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa e dinamizador da iniciativa, destacou a aproximação entre redações, projetos, influenciadores e representantes da Santa Sé. À Renascença, expressou o desejo de que essa aproximação tenha continuidade: «Que haja um movimento de consciencialização, de compromisso, de decisão, de vontade conjunta».
O responsável pretende que a reflexão dê origem a um documento que contribua para o discernimento da Igreja portuguesa sobre a missão digital. D. Nuno Almeida comprometeu-se, por sua vez, a levar os contributos à Conferência Episcopal Portuguesa e às estruturas diocesanas, segundo a Ecclesia.
Com a próxima edição prevista para Évora, em 2028, o encontro abriu espaço a um trabalho continuado de colaboração. A escuta, o acompanhamento e a criação de comunidades ficaram no centro do caminho proposto a quem procura anunciar o Evangelho nas redes.