Quando Deus guarda o melhor vinho para o fim
Há uma forma de admiração que, sem darmos por isso, pode tornar-se injusta. Acontece quando esperamos que alguém seja sempre tão forte, tão generoso ou tão santo como a imagem que construímos dessa pessoa. Aos poucos, deixamos de escutar. Já sabemos o que queremos encontrar e tudo o que escapa a essa expectativa começa a incomodar-nos.
A entrevista de Enrico Petrillo ao Vatican News convida-nos a reconhecer esse risco. Catorze anos depois da morte de Chiara Corbella Petrillo, publicou Solo il vino migliore, um livro nascido também da necessidade de escrever sobre as suas dores. Pensou sobretudo no filho, Francesco, a quem queria dar a conhecer melhor a mãe e a história dos pais.
Entre as recordações que partilha, há uma particularmente difícil: Francesco encontrou num manual de Educação Religiosa a afirmação de que a mãe tinha recusado os tratamentos para que ele nascesse. Enrico corrige: Chiara adiou-os. A diferença, para aquela criança, estava longe de ser um pormenor.
O cuidado começa na verdade
Quem escreve sobre a vida dos outros tem responsabilidade pelas palavras que escolhe. Uma frase pode comover milhares de leitores e, ao mesmo tempo, ferir profundamente quem conhece a história por dentro. A intenção de transmitir uma mensagem bonita não nos dispensa de perguntar se estamos a contar o que realmente aconteceu.
Isto merece atenção também dentro da Igreja. Podemos estar tão empenhados em apresentar um exemplo de fé que acabamos por retirar espaço à pessoa concreta. Procuramos uma coragem sem hesitações, uma confiança sem perguntas, uma serenidade que nunca se desfaz. Depois, quem atravessa uma doença ou um luto olha para esse retrato e sente que a sua própria fé é insuficiente.
Talvez precisemos de aprender a contar as histórias de santidade com maior paciência. Deixar lugar ao que não sabemos, resistir à tentação de explicar cada sofrimento e aceitar que uma vida não cabe inteiramente na mensagem que desejamos transmitir através dela. A verdade também se guarda quando reconhecemos os limites do nosso olhar.
Uma fé que sabe aproximar-se
Na entrevista, Enrico recorda que, independentemente do desfecho do processo de beatificação, «Chiara continua a ser Chiara». A frase, aqui traduzida do italiano, devolve-nos à simplicidade de uma relação: antes da figura pública, houve uma mulher que ele conheceu e amou.
É fácil esquecer esta dimensão quando olhamos para alguém com devoção. Mas a proximidade cristã pede delicadeza. Pede que saibamos ouvir sem invadir, acompanhar sem exigir confidências e respeitar os silêncios que não nos pertencem. Nem tudo o que nos desperta curiosidade precisa de nos ser contado.
O Evangelho pode educar-nos precisamente nesse cuidado. Amar alguém implica reconhecer que essa pessoa tem uma história que nos ultrapassa. Mesmo quando o seu testemunho nos ajuda a rezar, continua a não nos pertencer. A gratidão pelo bem recebido deveria tornar-nos mais atentos à sua liberdade.
Também por isso, contar uma história de fé exige humildade. Podemos partilhar aquilo que nos ilumina sem transformar a experiência alheia numa resposta pronta para todas as dores. Há quem precise de palavras de esperança; há quem precise, primeiro, de tempo e de uma presença que não tente resolver tudo.
Ao falar de Chiara, Enrico recorda-nos que a fé se vive entre pessoas reais. A nossa maneira de as admirar, de escrever sobre elas e de nos aproximarmos de quem amam faz parte dessa mesma fé. Talvez a homenagem mais fiel comece aí: no cuidado com que pronunciamos os seus nomes e na atenção que damos a quem continua a viver a história.
[entrevista de Benedetta Capelli a Enrico Petrillo, publicada no Vatican News, a 21 de setembro de 2026.]