Amar para sempre ainda é possível?
Há uma pergunta que talvez atravesse muitas relações antes mesmo de ser formulada: é mesmo possível amar alguém para sempre?
Não apenas enquanto tudo parece novo. Não apenas quando o outro corresponde ao que esperávamos. Amar quando o tempo passa, aparecem diferenças, chegam dificuldades e a relação deixa de viver apenas do entusiasmo dos primeiros momentos. Leão XIV não foge a essa pergunta.
No prefácio do novo YOUCAT Amor para Sempre, apresentado em Roma a 6 de outubro, o Papa começa precisamente pelo desejo que habita cada pessoa: «O coração de vocês anseia por amor.» E acrescenta: esse desejo de um amor «profundo, apaixonado e duradouro» não acontece por acaso. É sinal de que fomos criados para amar. A questão deixa então de ser apenas saber se o amor para sempre é possível. Passa a ser outra: que amor consegue durar?
Quando amar é mais do que sentir
Leão XIV reconhece aquilo que qualquer pessoa apaixonada conhece. O amor pode chegar intensamente, quase de repente. O Papa compara-o a uma flecha que atinge o coração. Mas acrescenta imediatamente algo decisivo: «o amor verdadeiro não para por aí». Porque amar não é apenas experimentar uma emoção.
Nas palavras do Papa, o amor verdadeiro é «um “sim” profundo ao outro, uma decisão, um caminho e uma aliança para a vida toda». É uma definição exigente.
O sentimento faz parte do amor, mas não consegue carregar sozinho o peso de uma vida partilhada. Há momentos em que amar também significa decidir permanecer disponível, reconstruir confiança, perdoar, escutar ou recomeçar. Por isso, Leão XIV em vez de colocar no centro «O que recebo em troca?», propõe primeiro: «Como posso amar como Cristo amou?»
Aqui começa a diferença cristã. Não se trata apenas de procurar uma relação que me faça feliz. Trata-se de aprender uma forma de amar que também procura o bem do outro.
Um amor que não precisa de ser perfeito
Talvez uma das frases mais belas do prefácio seja também uma das mais realistas: «Não é perfeito, mas cresce à luz da fé.» O Papa não apresenta o matrimónio como uma história idealizada entre duas pessoas sem fragilidades. Fala de fidelidade. De perdão. De «luta diária pelo bem». Reconhece também que o amor humano pode ser marcado por desejos egoístas. É precisamente dentro dessa humanidade imperfeita que o amor pode amadurecer.
Leão XIV chega mesmo a dizer que, no matrimónio, «algo do próprio mistério de Deus se revela». Quando um homem e uma mulher se entregam um ao outro, a fidelidade, o perdão e a procura quotidiana do bem tornam-se reflexo do amor de Cristo pela Igreja.
A medida desse amor aparece depois na imagem mais radical do cristianismo: a cruz. Não como glorificação do sofrimento nem como justificação para suportar relações abusivas ou destrutivas. Mas como revelação de um amor capaz de sair de si e de se oferecer gratuitamente. Para Leão XIV, aí está o «ADN do cristianismo»: amar como Cristo amou.
«Não tenham medo da sua profundidade»
É neste contexto que surge talvez a frase central de todo o prefácio: «Não tenham medo da sua profundidade!» Não tenham medo de um amor grande. Não tenham medo de um compromisso que queira durar. Não tenham medo de descobrir que amar exige mais do que sentir.
O YOUCAT Amor para Sempre nasce precisamente para acompanhar esta descoberta. Segundo a Fundação YOUCAT, o projeto resultou de vários anos de trabalho e da colaboração de mais de 200 pessoas de 30 países. As perguntas recolhidas entre jovens dos cinco continentes deram origem a uma obra que aborda relações, namoro, sexualidade, comunicação, perdão, relações tóxicas e sacramento do matrimónio.
O livro não parece querer oferecer respostas a perguntas que os adultos imaginam que os jovens fazem. Parte de perguntas que eles próprios colocaram. E talvez seja também isso que torna significativo o prefácio de Leão XIV.
O Papa não responde ao medo da fragilidade das relações diminuindo a exigência do amor. Faz exatamente o contrário. Propõe aos jovens que descubram toda a sua profundidade. «Deus chama vocês, queridos jovens, a esse grande amor.» O “para sempre” cristão não significa acreditar ingenuamente que duas pessoas nunca vão mudar, falhar ou atravessar dificuldades. Significa acreditar que o amor também pode crescer.
Que precisa de liberdade, decisão, fidelidade, perdão e aprendizagem. Que não nasce acabado. E que, para um cristão, encontra em Cristo uma medida que ultrapassa aquilo que espontaneamente conseguimos oferecer. Talvez por isso amar para sempre não seja simplesmente sentir hoje aquilo que esperamos continuar a sentir amanhã. É aceitar que amanhã teremos de aprender novamente a amar.