IA e a fome: a tecnologia só é progresso quando serve a pessoa
A Inteligência Artificial está a transformar rapidamente a agricultura e os sistemas alimentares. Ferramentas capazes de analisar solos, prever fenómenos meteorológicos, identificar doenças nas culturas ou apoiar decisões de produção já começam a alterar a forma como se produz, distribui e gere alimento.
Este avanço tecnológico abre possibilidades relevantes, sobretudo num contexto global marcado por desigualdades persistentes no acesso à alimentação.
Foi neste horizonte que decorreu, em Genebra, a conferência «Human-Centered AI for Agrifood Systems: From Ethics to Implementation», promovida pela FAO e pela Missão Permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas.
No centro da reflexão esteve uma questão decisiva: como garantir que a Inteligência Artificial é utilizada ao serviço da dignidade humana, da justiça e do bem comum?
O potencial da tecnologia não elimina a responsabilidade humana
A Inteligência Artificial pode contribuir para aumentar a produtividade agrícola, melhorar a utilização de recursos, reduzir desperdícios e facilitar o acesso de pequenos produtores a informação técnica e mercados. No entanto, a inovação tecnológica não produz, por si só, sociedades mais justas.
D. Ettore Balestrero, Observador Permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas em Genebra, chamou precisamente a atenção para este risco. A tecnologia pode reduzir desigualdades, mas também pode aprofundá-las se os seus benefícios permanecerem concentrados em quem já dispõe de recursos, infraestruturas e capacidade tecnológica. Daí a importância de uma afirmação central da sua intervenção: «A escolha é nossa e não pode ser delegada às máquinas.»
A questão da Inteligência Artificial não é, portanto, apenas técnica. É política, social e ética. Quem define os objetivos dos sistemas? Quem controla os dados? Quem assume os riscos? Quem beneficia dos ganhos de eficiência?
Estas perguntas tornam-se particularmente importantes quando a tecnologia é aplicada a contextos de pobreza, insegurança alimentar ou vulnerabilidade social.
A fome continua a desafiar a ideia de progresso
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, centenas de milhões de pessoas continuam sem acesso regular a alimentação suficiente. Este contraste obriga a rever o próprio conceito de progresso. Uma sociedade tecnologicamente avançada não pode considerar-se plenamente desenvolvida se uma parte significativa da humanidade continuar privada de necessidades básicas.
A Inteligência Artificial pode ajudar a prever secas, otimizar cadeias de distribuição, melhorar colheitas ou apoiar agricultores em regiões vulneráveis. Mas nenhuma tecnologia substitui a vontade política, a cooperação internacional, a justiça económica ou a responsabilidade social.
A inovação pode fornecer instrumentos. A decisão sobre a forma como esses instrumentos são utilizados continua a ser humana.
Colocar a pessoa no centro
A reflexão proposta pela Santa Sé não apresenta a tecnologia como uma ameaça a evitar, nem a inovação como um problema em si mesma. O desafio é outro: garantir que o desenvolvimento tecnológico permanece subordinado à dignidade da pessoa. Colocar a pessoa no centro significa assegurar que os sistemas de Inteligência Artificial sejam transparentes, acessíveis, inclusivos e orientados para necessidades reais.
Significa também evitar que comunidades vulneráveis sejam reduzidas a meras fontes de dados ou que os pequenos produtores sejam excluídos dos benefícios da transformação digital. Como recordou D. Ettore Balestrero, «a tecnologia deve servir a pessoa humana, nunca o contrário». É neste princípio que se joga uma parte importante do futuro da Inteligência Artificial. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer.
É necessário perguntar para quem trabalha, que problemas resolve e que tipo de sociedade ajuda a construir. Se a Inteligência Artificial contribuir para reduzir a fome, fortalecer comunidades frágeis e ampliar o acesso a recursos e conhecimento, então a inovação tecnológica poderá representar um verdadeiro progresso. Caso contrário, poderemos ter sistemas cada vez mais inteligentes dentro de sociedades que continuam incapazes de responder às necessidades mais elementares da pessoa humana.