Liderança cristã: ser sacerdote, profeta e rei
No mês passado falámos genericamente de liderança e de como um bom líder necessita de ter bons valores, capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor, que é como quem diz, mais feliz para quem nele vive.
Muitos de nós, líderes empresariais, assumimos Jesus Cristo como nosso modelo de vida. Confiamos que os seus ensinamentos nos fazem crescer em Amor e que, se conseguíssemos discernir bem acerca da forma como Ele próprio decidiria ou geriria determinada situação, certamente essa seria a boa solução para as nossas dúvidas pessoais/profissionais. Reconhecemos também a nossa limitação humana em, tantas vezes, não conseguirmos ainda perceber aquilo a que somos chamados, tentando manter assim a humildade e perseverança de quem sabe que o caminho se faz caminhando e que os tempos de Deus nem sempre se compaginam com as nossas urgências, agendas, planos estratégicos, deadlines ou objetivos de performance empresarial que tantas vezes parecem colocar o lucro como um fim em si mesmo em vez de o colocar como um meio para o verdadeiro fim que é a felicidade e realização plena de cada Pessoa Humana e da Humanidade Inteira.
Para aqueles que, como eu, são baptizados e confirmaram esse compromisso perante Deus e a sociedade, o ser cristão passa por seguir a Cristo, em unidade de vida, ou seja, também no trabalho.
O sacerdócio comum a que todos somos chamados pelo Batismo é um dos conceitos fundamentais da eclesiologia católica, particularmente valorizado pelo Concílio Vaticano II. Para o compreender, é necessário partir de uma ideia central: todos os batizados participam na missão de Jesus Cristo, que é Sacerdote, Profeta e Rei. A nossa vida pode tornar-se uma oferta a Deus, através da oração, do trabalho, da família, da dedicação aos outros, do sofrimento vivido na fé e das ações plenas de amor. Por exemplo, um professor que procura educar com justiça, respeita a dignidade dos alunos e dedica particular atenção aos mais vulneráveis pode viver essa missão como uma expressão do seu sacerdócio comum.
A palavra latina munus significa função, missão, encargo ou responsabilidade. Na teologia católica, o tríplice múnus de Cristo designa as três dimensões inseparáveis da sua missão:
- Sacerdote: santifica e oferece a sua vida ao Pai.
- Profeta: anuncia e testemunha a verdade de Deus.
- Rei: conduz, serve e instaura o Reino de Deus.
Jesus exerce estas três dimensões de forma perfeita e inseparável. Pelo Batismo, também nós recebemos a vocação de participar nelas, cada um segundo a sua condição e missão na Igreja. O Catecismo da Igreja Católica, nos números 783 a 786, explica expressamente esta participação de todo o Povo de Deus.
Deixo aqui o desafio para cada um de nós pensar como tem sido sacerdote, profeta e rei na sua vida, particularmente no seu trabalho e, se for o caso, enquanto líder empresarial.
No meu caso, tendo sempre a achar que a função sacerdotal, estando relacionada com a santificação, ou seja, com o tornar sagrado, passa por tornar amoroso aquilo que carece ainda de amor, porque estou certa de que Deus é Amor. Sou muito contemplativa e sempre achei que exercia esta função em todos os momentos em que contemplava colegas e pessoas das minhas equipas a trabalhar dedicadamente, agradecendo a Deus pelo seu esforço e passando por elas com um sorriso e olhar de reconhecimento e gratidão. Na função profética, esforço-me por ser positiva, farol de esperança, alegre e confiante de que nada temos a temer porque Cristo, no “não tempo” de Deus que está na eternidade, já venceu a morte e, por isso, estamos juntos, com Ele, a construir essa vitória no nosso ainda limitado tempo humano, até que ela se torne plena e definitiva para todos. Por último na função real, talvez a mais fácil de reconhecer para um gestor, por ser aquela que tenta otimizar a utilização de recursos que são escassos em prol da maioria das pessoas, tento sempre servir e ajudar a uma tomada de decisão que seja justa, equitativa, sustentável e que responda às questões mais prioritárias do nosso tempo, atenta sobretudo aos que parecem ter menos voz e aos vivem com mais dificuldades e carências.
E tu, como tens sido sacerdote, profeta e rei?