Ouvimos, mas não escutamos!
A capacidade de ouvir atravessa uma profunda crise. Em muitas situações concretas demonstramos uma falta de abertura ao diálogo e à discussão fraterna. Estamos cada vez mais polarizados. Se observarmos com atenção, perceberemos como se insinua a preocupação em dominar o outro e como gritar se tornou, muitas vezes, a única forma de comunicação. Iludimo-nos de que, falando mais alto, e por vezes até berrando, podemos sair vitoriosos.
O provérbio "A palavra é de prata, o silêncio é de ouro" está realmente fora de moda. Não me refiro ao silêncio pelo silêncio, que muitas vezes é sinal de afastamento do outro ou sinal de ressentimento, mas sim ao silêncio que nos permite ouvir e refletir antes de responder.
Na era das redes sociais, onde tudo precisa de ser dito de imediato e onde ganha quem grita mais alto, o discurso assemelha-se muitas vezes a um rio caudaloso, que provoca um desastre generalizado, privando-nos da oportunidade de construir relações e pontes.
Além disso, ouvimos frequentemente o outro, preocupados em lhe responder, ou ouvimos agarrados a preconceitos mentais ou emocionais. Ou fazemo-lo a partir da nossa própria perspetiva, demasiado rígidos nas nossas posições, incapazes de admitir que a verdade precisa de ser procurada em conjunto.
No Simpósio que participei em Fátima, nos passados dias 2 e 3, «A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnifica Humanização», o professor Pedro Valinho Gomes, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lille, disse: «Precisamos de inventar uma oftalmosofia, isto é uma sabedoria do olhar capaz de ver para além das evidências e de forjar uma amizade social com o desconhecido, e até com o inimigo».
Ouvimos, mas não escutamos!
Para dialogarmos de forma adequada, precisamos de ter consciência de que ninguém detém a verdade absoluta e que cada um vê a realidade de uma perspetiva diferente. É essencial olhar para os outros como irmãos, e não como inimigos, despojando-nos das nossas expectativas e abrindo-nos à novidade que partilham connosco.
O diálogo exige virtudes específicas, como a pobreza de espírito, a humildade, a mansidão, a compreensão e a coragem. Sem elas, a comunicação torna-se um monólogo, gerando mal-entendidos e provocando divisão. Estas atitudes interiores, são dom do Espírito Santo.
São Francisco de Assis, que celebramos no domingo passado, e Santa Clara compreenderam muito bem que, para dialogar, é preciso ser interiormente pobre e desarmado. Quando não se tem nada a defender — nem a própria imagem, nem o próprio eu, nem as próprias ideias, nem mesmo o próprio Deus —, está-se disponível para acolher qualquer pessoa, mesmo quando são diferente em caráter, sensibilidade, língua, estilo de vida e religião.