Paradez

Crónicas 9 junho 2022  •  Tempo de Leitura: 6

Numa das suas visitas em campanha presidencial, John F. Kennedy apertava as mãos dos mineiros que saíam da mina com as caras sujas de carvão. Um dos mineiros parou em frente a Kennedy e disse — «Percebi que você nunca teve de trabalhar um dia na sua vida.» — ao que Kennedy admitiu ser verdade. Mas o mineiro continua — «Não perdeu nada.» Esta história contada por Jack Graham no seu livro “A Man of God” aponta para uma característica da vida humana que está a perder-se.



A palavra inglesa idle significa parado. Por isso, idleness traduziria por “paradez”. Se trabalho a mais esgota-nos, um pouco de “paradez” é saudável para o corpo-mente-espírito de cada ser humano. Na Teoria da Paradez, como foi proposta por Chris Davis, sobrevivem aqueles que satisfazem as suas necessidades com a menor quantidade de trabalho possível. Esses parecem ser os preguiçosos, mas só aparentemente. Em 1947, Clarence Bleicher estava diante de um comité do Senado americano como executivo da Chrysler, uma grande empresa de automóveis, e disse — «o homem preguiçoso encontrará um modo fácil de fazer o que tiver para fazer. Pode não fazer muito, mas encontrará um modo fácil de fazer as coisas … Essa tem sido a minha experiência.» Foi a partir desta impressão que surge a ideia que paira entre muitos CEO de empresas de que se existe um trabalho duro para fazer, o melhor é encontrar a pessoa mais preguiçosa de entre os trabalhadores. Pois, essa encontrará a maneira mais fácil de fazer esse trabalho. Em última análise, quer dizer que “paradez” não é sinónimo de inactividade.



Nos últimos tempos tem-se falado muito de sobrecarga de trabalho, falta de tempo para coisas mais profundas porque andamos assoberbados de uma lista infindável de tarefas a cumprir. Depois, alguns casos resultam em burnout, uma palavra da moda para esgotamento e para quê? Mais uns trocos ou garantir ter uns trocos a mais? Muitas vezes esquecemo-nos que o lazer é uma actividade e a “paradez” é o tempo em que não estamos activamente a meter todos os esforço em algo que dá lucro, mas em algo que dá vida: o descanso.



Vários cientistas, como por exemplo Charles Darwin, não eram bem sucedidos apesar do tempo que dispendiam com lazer, mas seria antes através do lazer que desenvolviam a sua criatividade. Pois, o lazer proveniente dos espaços de tédio leva a mente a vaguear pelos pensamentos. Ao fazê-lo, aumenta a possibilidade de se cruzarem ideias inesperadamente que produzem as soluções para os problemas que nos intrigam. Porém, hoje sabemos como o primeiro amigo abatido pelos smartphones foi o tédio.
Ninguém gosta do tédio e, por isso, a primeira coisa que faz quando o sente é tirar o smartphone do bolso, verdade? Mas não são os momentos de tédio que mais nos fazem sentir a necessidade de manter o cérebro ocupado? Diz Celeste Headlee no seu livro ”Do nothing - Break away from overworking, overdoing e underliving” — «quando permitimos às nossas mentes que relaxem e descansem, essas voltam ao que chamamos de “rede por defeito” (“default network”). Esta é a parte do cérebro que vasculha por toda a informação nova que recebemos recentemente e tenta colocá-la num contexto que conhecemos. A “rede por defeito” é integrada na aprendizagem, intelecções e na imaginação. Se as nossas mentes nunca descansarem, não haverá oportunidade de vaguearem em novas direcções.»A paradez dá uma nova percepção sobre as coisas, uma nova consciência.



Porém, ainda que nos apresentem todos os estudos científicos que demonstram a importância de equilibrar o trabalho com os momentos de lazer, muitas pessoas têm dificuldade em compreender este equilíbrio e convencem-se da moral inerente à famosa história da Cigarra e da Formiga: se não trabalharmos, não nos preparamos para os tempos de adversidade. E estou plenamente de acordo com a importância de não entrar no extremo de nada fazer aplicando sistematicamente a “Lei do Menor Esforço”. O problema é que se o excesso de lazer é perigoso, o excesso de trabalho pode ser pior. E nem todos estamos sensíveis para o limiar que indica vivermos em permanente excesso de trabalho e da mente estar sempre a trabalhar. É que se a mente não pára de vez em quando, um dia paramos de vez, e tudo o que trabalhámos para ter e dar uma vida melhor aos que mais amamos fica comprometido.



Quando paramos a mente para viver um momento de lazer cognitivo, damos a nós próprios a oportunidade de nos reconectarmos com a criatividade e voltar a pensar reflexivamente. Estas são duas actividades essenciais na “paradez” que nos fazem progredir na busca das coisas profundas que desenvolvem em nós uma vida plena. Não custa experimentar. Basta parar.

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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