Escolhas

Crónicas 20 maio 2021  •  Tempo de Leitura: 6
Quanto mais hipóteses tens para escolher, menos capacidade de escolha tens. A ideia que temos de liberdade confunde-se muitas vezes com o número de opções que temos à nossa escolha, mas alguém ponderou a possibilidade de ficar bloqueado por não saber o que escolher? Saber escolher é uma arte, mas viver com menos escolhas é sabedoria.

No ensino, muitos estudos apontam para a importância dos alunos escolherem o que querem aprender. Mas como a cultura da aprendizagem está formatada para dizermos aos alunos o que eles têm de aprender, a pergunta mais comum que perdura na vida académica até ao fim do ensino universitário é — «o que sai para o exame?» — ao que respondo — «Tudo.» Quer isso dizer que há muito por onde “eu” posso escolher para avaliá-los, mas eles não vêem essa escolha com bons olhos porque o esforço exigido na preparação para uma avaliação é proporcional à quantidade de “opções” que fazem parte da matéria. Será que consegues, agora, entender que apesar de haver muito por onde escolher, em vez de nos sentirmos livres, podemo-nos sentir aprisionados a fazer escolhas que preferíamos não fazer? Afinal, haver escolha é bom ou mau? O mundo não é bi-color, mas entre o branco e o preto há uma infinidade de graus de cinzento.

Penso que a sabedoria da escolha está em ter uma vida simples. Por exemplo, se escolher um telemóvel antigo que faz chamadas, não havendo capas para esse tipo de equipamento, reduzo as escolhas e deixo de me preocupar com isso. Se optar por comer pão ao pequeno-almoço em vez de cereais, os tipos de pão são menos e acabo por acertar num que gosto mais, sendo fácil escolher a partir desse momento. Quanto mais produtos personalizados possuímos, mais alargamos o leque de escolhas que temos à disposição. E o tempo que podemos gastar com isso, é tempo que poderíamos usar para criar coisas novas, ler ou pensar nos valores da vida. Aliás, a relação entre as escolhas e os valores é fortíssima.

Quando li sobre a filosofia do minimalismo digital percebi que não se tratava de recusar a tecnologia, mas de orientar as minhas escolhas para o que realmente dou valor. Por exemplo, se valorizo o tempo de trabalho em modo de concentração máxima, e a possibilidade de consultar o email no telemóvel é viciante, simples, apago a aplicação. Foi essa a minha escolha há uns largos meses e não só reduzi o número de opções para poder consultar o email, mas ampliei o tempo para fazer muitas outras coisas. E não foi por isso que deixei de responder a emails, mas escolho o tempo certo para o fazer.

Esta ideia da sobrecarga psicológica de termos muito por onde escolher vem do escritor Alvin Toffler no seu livro de 1971, “Choque do Futuro”, onde diz que este problema acontece quando — «as vantagens da diversidade e individualização são canceladas pela complexidade do processo de tomada de decisão.» Barry Schwartz no seu livro “O Paradoxo da Escolha” mostra a partir das ciências sociais como eliminar as escolhas reduz os níveis de stress, ansiedade, e da quantidade de coisas que temos para fazer. Podemos sempre escolher ter menos escolhas.

A personalização do consumo tem crescido nos últimos anos sob o impulso das tecnologias da informação (telemóveis, tablets, portáteis, etc.). E a diversidade de produtos sempre foi considerada como um valor para o consumidor. Mas sabemos como o impacte das nossas escolhas vai para além das nossas opções de consumo. Penso nas escolhas que fazemos quando existem duas hipóteses. Por exemplo, há quem pense que ter fé é uma escolha. Será?

Ninguém tem fé porque a fé não se possui. Na sua essência, a fé é um acto de confiança. E se é um acto, então, é uma escolha. Por exemplo, posso escolher não confiar em Deus e, por isso, a fé em Deus diz-me pouco. Mas também posso escolher não confiar no meu vizinho e, por isso a fé no vizinho diz-me pouco. Mas uns pensam ser mais fácil experimentar a fé no vizinho que vejo do que em Deus que não vejo. Mas não quer isso dizer que reduzo o que vejo a uma escolha de experimentar apenas como real o que os meus olhos enxergam? 

O ar não vejo, mas respiro. Não tenho escolha. Se não respirar, morro. Deus é como o ar. Não vês, mas respiras. Porém, curiosamente, se não O respirares, não morres porque Ele dá-te essa escolha. Haverá maior acto de confiança nas nossas escolhas do que este?

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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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