Sopro

Crónicas 23 julho 2020  •  Tempo de Leitura: 3
Com o mar imenso de informação na ponta dos dedos, o que fica retido na nossa memória e transforma-nos, quando tanta coisa acontece ao mesmo tempo? Antes dizia-se que a novidade de hoje pode já não sê-lo amanhã, mas, de momento, a novidade desta hora pode já não o ser no minuto seguinte. O tempo encurta e com esse a nossa capacidade de saborear pensamentos.

Quando publiquei o meu primeiro contributo no jornal Observador fiquei surpreendido como um artigo de opinião que estava no topo quando foi lançado podia ficar tão longe no mural de notícias, umas horas depois. 

Os pensamentos partilhados no mar de informação, facilmente, tornam-se passageiros. São tantos para tantos e tão pouco o tempo e atenção que podemos dar a cada um. 

Outrora, levaríamos mais ou menos tempo para formular pensamentos mais elaborados? Talvez demorássemos o mesmo, mas a solenidade com que eram acolhidos requeria mais tempo e atenção. Deste modo, também a sua durabilidade aumentava porque, sendo raros, possuíam um grande valor. Um valor tal que ainda hoje nos influenciam. 

Hoje, os pensamentos dificilmente encontram o seu espaço de atenção no meio de tantos que são efémeros, mas nos entretêm. Existem poucas razões para que um pensamento se torne perene como noutros tempos. Pois, quando são tantos os pensamentos à nossa disposição, como este que agora lês, nada garante que permaneça. É passageiro ainda que a sua intenção seja marcar-te.

Como pode um pensamento passar de passageiro a perene?

Não sei.

Penso que o pensamento profundo pode transformar. Mas só continua a transformar pelos tempos se for partilhado e acolhido. E, quando acolhido, apenas se torna perene quando gera uma mudança cultural.

O pensamento profundo é como um soprosuave, sentido, interiorizado e retido. Intriga-nos. Deslumbra-nos. Dá sentido ao nosso respirar e estimula-nos a soprá-lo para os que estão à nossa volta. Procura o seu espaço num mar de sopros atrás de sopros que nos levam a viver imersos num turbilhão. Flutuamos de um lado para o outro, sem apreciar cada sopro como merece ser apreciado.

Talvez não seja o caso de apreciar cada sopro. 

Talvez não seja necessário apreciar todosos pensamentos profundos soprados. 

Talvez pudesse dedicar o pouco tempo que tenho a um só sopro, dedicando-lhe um momento de pausa e saboreando-o como se fosse único.

Um sopro pode transformar se ocorrer no momento certo. Basta fechar os olhos, “olhar dentro” e deixar-se transformar. Permite-me oferecer um pensamento que pode ser (ou não) profundo.

Se queres mudar o mundo, começa por partilhar o que pensas.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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