Conto: «A justiça da aldeia da montanha»

Conto 15 junho 2022  •  Tempo de Leitura: 6

Era uma vez uma aldeia onde todas as famílias partilhavam tudo quanto produziam na agricultura e apanhavam na caça. Um dia um homem foi queixar-se ao ancião da povoação pois julgava não ser justo que a sua parte da produção da terra e da caça fosse a mesma que a dos demais habitantes quando ele era a pessoa mais inteligente e com mais maquinaria e melhores armas da aldeia. Então, o ancião disse-lhe:

 

- Amigo, desde tempos imemoriais, temos entre nós a tradição de dividir tudo em partes iguais. A nossa consciência coletiva levou-nos a achar que isso é o mais justo pois promove a fraternidade, a igualdade e a união entre todos. Justiça é consciência, não uma consciência pessoal, mas a consciência de toda a comunidade. A justiça não é ser neutro entre o certo e o errado, mas em ter consciência do certo e defendê-lo incondicionalmente contra o errado. Quando acontece alguma injustiça num lugar concreto, isso é uma ameaça à justiça em todos os lugares.

 

O homem lá foi, vencido, mas não convencido. Passadas umas semanas, o dia de caça foi muito generoso e todas as casas da aldeia tiveram direito a um javali, uma raposa e três lebres. No entanto, durante a noite, o homem que se tinha queixado de injustiça foi a casa de um vizinho e roubou-lhe todos os animais a que tivera direito. No dia seguinte, o homem assaltado foi denunciar a situação ao ancião da aldeia que, imediatamente, chamou todas as pessoas à praça central e disse:

 

- Nunca esperei que acontecesse o que teve lugar esta noite na nossa aldeia. Espero que quem cometeu tal afronta reconheça o seu erro ou, então, se alguém souber quem é o autor desta atrocidade, o denuncie. Qualquer injustiça cometida contra alguém é um ato de covardia de quem a faz e de quem a vê e fica calado, pois assistir a uma injustiça e nada fazer para a impedir, faz de nós tão culpados como quem a comete. A justiça no mundo começa em cada um de nós, já que é um valor que nasce no coração e se revela na coragem das nossas ações. Pode acontecer sermos impotentes para evitar uma injustiça, mas nunca nos devemos escusar nem cansar de protestar.

 

Uns dias mais tarde, durante uma caçada, o aldeão que se tinha queixado ao ancião da distribuição injusta dos bens, caiu, partiu um braço e viu-se obrigado a ficar em casa por longo tempo. Então, o homem que tinha sido roubado disse a todos que era de justiça que o vizinho continuasse a receber a sua parte, mesmo sem trabalhar na terra nem ir à caça.  Foi então que uma mulher revelou a todos que, por acaso, o ladrão tinha sido o homem que se machucara e elogiou o bom coração do vizinho roubado que até deveria receber mais que os outros aldeões pois era pobre e tinha mais filhos que os demais. Depois, a mulher disse a todos:

 

- O mais belo fruto da justiça é a paz interior. Ser bom não é propriamente difícil. O difícil é ser justo. Mas ser justo não é ser bondoso, mas, sim, ser correto. A justiça é a verdade, a liberdade e a igualdade em ação. Não há verdadeira justiça sem misericórdia, pois onde não há caridade não pode haver justiça. Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão e não há perdão sem amor. Ser justo não é dar a todos por igual, mas a cada um o que merece e precisa.

 

Então, o homem que tinha sido arrogante e injusto para com todos e agora beneficiava da bondade dos demais pediu perdão, prometeu compensar o vizinho que roubara e abraçou-o com lágrimas nos olhos. De seguida, o ancião disse a toda a aldeia:

 

- Estou orgulhoso do nosso povo. Sim, é justo que o nosso amigo que foi roubado receba mais que os outros habitantes pois tem uma família maior, assim como é justo que o nosso amigo que se magoou continue a receber a sua parte enquanto estiver limitado. Deus é justo e se a justiça dos homens falhar, a dele nunca falhará. Deus é tão generoso que nos dá a liberdade de plantar o que quisermos, mas Ele é tão justo que colheremos exatamente o que plantámos. O mundo dá voltas e voltas, e nelas Deus faz a justiça acontecer. O tempo é justiceiro e, mais cedo ou mais tarde, de forma sábia, discreta e subtil, põe as coisas todas no devido lugar. Sejamos sempre justos com todos!

Paulo Costa

Conto

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