Simpósio 2026: Há qualquer coisa de sedutor numa resposta em segundos.
Uma pergunta, um clique e, quase de imediato, surge uma explicação, um resumo ou uma solução. Nunca tivemos tanta informação tão acessível. E talvez por isso seja hoje ainda mais importante distinguir informação de conhecimento. Foi precisamente uma das ideias sublinhadas por Eduardo Marçal Grilo, ex-Ministro da Educação, na conferência “A educação, nestes 40 anos: os agentes, os sujeitos, as reformas educativas, os sonhos e os seus limites”, integrada no Simpósio «Traçar Mapas Educativos para uma Magnífica Humanização»: ter acesso à informação não significa, necessariamente, compreender, assimilar ou conhecer.
A educação continua a precisar de tempo.
Tempo para ler. Para relacionar ideias. Para errar. Para voltar atrás. Para perguntar novamente. Para deixar que aquilo que aprendemos encontre lugar dentro de nós.
Num mundo marcado, segundo Marçal Grilo, pela turbulência, pela imprevisibilidade e pela fragmentação, esta pode parecer uma exigência pouco compatível com a velocidade do presente. Mas talvez seja precisamente por isso que se torna tão necessária.
Saber para poder perguntar
Habituámo-nos a ouvir que, perante a inteligência artificial, já não será tão importante saber, mas sobretudo saber perguntar. Marçal Grilo introduz aqui uma correção importante: só consegue fazer boas perguntas quem possui conhecimento suficiente para compreender as respostas.
Podemos pedir a uma máquina que explique um princípio da física, um acontecimento histórico ou um problema matemático. Mas, sem uma formação de base, faltam-nos critérios para perceber se a resposta é adequada, incompleta ou simplesmente errada.
O pensamento crítico não nasce do vazio. Precisa de língua, matemática, história, geografia, ciência e cultura. Precisa de referências que permitam situar o que recebemos, estabelecer relações e reconhecer incoerências. Por isso, a inteligência artificial não torna o conhecimento menos importante. Pode torná-lo ainda mais necessário.
Quanto mais fácil é obter uma resposta, mais importante se torna saber avaliá-la.
O conhecimento tem um ritmo humano
Talvez uma das ideias mais provocadoras da conferência tenha sido também uma das mais simples: aprender demora tempo. A cultura digital habituou-nos à rapidez. Saltamos entre mensagens, vídeos, notificações e pesquisas. A resposta chega antes de a pergunta ter tido tempo de amadurecer. Mas o conhecimento funciona de outra maneira.
Ler exige paciência. Obriga-nos a permanecer. A acompanhar um raciocínio. A imaginar. A relacionar aquilo que estamos a ler com aquilo que já sabemos. Um livro não nos entrega apenas informação. Pede-nos presença.
É por isso que o apelo de Marçal Grilo aos professores foi tão direto: ponham os jovens a ler. Não por nostalgia de um mundo anterior aos ecrãs. Nem porque os dispositivos digitais sejam inimigos da aprendizagem. O próprio reconhece o enorme potencial das novas tecnologias e da inteligência artificial.
A questão é outra.
Há aprendizagens que não podem ser aceleradas sem perder alguma coisa pelo caminho. Também a formação da pessoa precisa desse tempo. Responsabilidade, rigor, persistência, capacidade de trabalhar com outros, iniciativa, sentido crítico, solidariedade, respeito e cultura da verdade não se descarregam de uma plataforma. Constroem-se lentamente, na relação com os outros e na experiência concreta da vida.
Educar para usar. E para saber parar.
A inteligência artificial fará parte da educação. Ignorá-la seria tão pouco sensato como acreditar que ela resolverá, por si só, os problemas educativos.
Marçal Grilo recupera aqui uma ideia particularmente importante da reflexão cristã sobre a tecnologia: educar para a sobriedade, para o limite, para a responsabilidade e para o bem comum.
Isto significa ensinar a utilizar as ferramentas, mas também formar pessoas capazes de reconhecer quando não precisam delas.
Talvez uma das competências mais humanas do futuro seja precisamente essa: conseguir parar. Fechar o ecrã. Ler devagar. Escutar alguém até ao fim. Pensar antes de responder. Aceitar que nem tudo tem de ser imediato. Porque a educação nunca foi apenas preparação para usar os instrumentos do seu tempo.
E é aqui que a questão tecnológica se torna profundamente humana e também profundamente cristã. A dignidade da pessoa não depende da velocidade com que processa informação, da quantidade de respostas que produz ou da eficiência com que realiza uma tarefa.
Há vida para além das máquinas. Há interioridade. Há relação. Há liberdade. Há responsabilidade. Há o outro.
E talvez seja esta uma das missões mais importantes da escola no tempo da inteligência artificial: não impedir os jovens de entrar no futuro, mas ajudá-los a chegar lá sem perder aquilo que os torna humanos.