Deus também está no trabalho de todos os dias
Há dias em que chegamos a casa cansados, com a impressão de que ficou tudo a meio. Uma conversa interrompida, uma tarefa por terminar, alguém a quem devíamos ter dado mais atenção. Fizemos muita coisa, mas nem sempre conseguimos reconhecer o valor do que fizemos. E, se pensamos em Deus, talvez sintamos que também para Ele faltou tempo.
Na audiência geral de 23 de setembro, Leão XIV ajuda-nos a olhar de outra maneira para estes dias: «Para encontrar Deus, o ser humano não deve abandonar as ocupações terrenas, mas pode viver plenamente a sua vocação, desempenhando bem o trabalho diário e santificando-o.»
Estas palavras aproximam a fé da vida que efetivamente temos. Deus pode ser encontrado entre as responsabilidades, os problemas e as pessoas que esperam alguma coisa de nós. A relação com Ele atravessa também a maneira como trabalhamos.
A fé no meio do que fazemos
Um professor procura outra explicação para o aluno que ainda não compreendeu. Uma enfermeira escuta uma preocupação que não aparece no processo clínico. Um colega ensina, com paciência, aquilo que já domina. São gestos comuns, mas neles alguém coloca o seu saber ao serviço de outra pessoa.
Ao recordar o mistério da Encarnação, o Papa afirma que a humanidade, com o seu trabalho e a sua autonomia, «não é absorvida nem anulada pelo encontro com Deus, mas sim acolhida na sua integralidade». A proximidade de Deus permite-nos habitar mais profundamente aquilo que somos e fazemos.
Leão XIV encontra na Eucaristia uma expressão concreta desta ligação: «O fruto da labuta humana, representado pelo pão e o vinho, é colocado todos os dias sobre o altar, para ser transformado no Corpo e Sangue de Cristo.»
Sobre o altar chega, portanto, algo do trabalho humano. Esta imagem pode ajudar-nos a reconhecer valor em tarefas que parecem pequenas ou repetitivas. Preparar, cultivar, ensinar, reparar, cuidar: há uma dimensão de entrega que nem sempre aparece nos resultados, mas que transforma a maneira como uma pessoa é tratada.
Isso também exige condições dignas e respeito pelos limites de quem trabalha. A dedicação perde o sentido quando serve de desculpa para o esgotamento ou para esquecer a pessoa que a sustenta.
Deus não perde quando o ser humano avança
A catequese enfrenta ainda a ideia de que o conhecimento humano tornaria Deus dispensável. Leão XIV identifica o equívoco: «O ser humano e Deus são erroneamente apresentados como rivais.»
Nesta leitura, quanto mais a humanidade soubesse e conseguisse realizar, menos espaço restaria para Deus. O Papa recupera outra perspetiva, citando a Gaudium et spes: «As vitórias do género humano manifestam a grandeza de Deus e são fruto do seu desígnio inefável.»
A fé pode acolher com gratidão uma descoberta, um tratamento ou uma solução que melhore a vida das pessoas. Como explica Leão XIV, Deus confiou à humanidade uma criação «a caminho, em crescimento», para que participe no seu desenvolvimento através de uma atividade sábia.
A palavra “sábia” merece atenção. Ter capacidade para fazer alguma coisa exige que pensemos nas suas consequências. Uma ferramenta pode libertar tempo para acompanhar melhor alguém, mas esse tempo também pode ser imediatamente ocupado por novas exigências. A inovação abre possibilidades; cabe-nos decidir o que fazemos com elas.
Por isso, o Papa afirma que «o progresso técnico e científico deve ser animado e orientado pela caridade». E esclarece a finalidade: defender a dignidade humana e melhorar as condições de vida de todos, «especialmente dos mais desfavorecidos».
Este critério aproxima a reflexão das nossas escolhas. Quem beneficia daquilo que sabemos? A quem chega o tempo que conseguimos ganhar? Quem continua sem acesso às oportunidades que celebramos?
No final, Leão XIV convida a «partilhar o pão do conhecimento e do saber-fazer». Podemos começar por ensinar sem humilhar, tornar uma tarefa mais acessível ou ajudar alguém a ganhar autonomia.
Ao fim do dia, talvez continue a haver trabalho por terminar. Mas alguém poderá ter saído da nossa presença menos perdido, mais capaz ou mais respeitado. Também nesse bem concreto podemos reconhecer um lugar de encontro com Deus.
[Leão XIV, audiência geral de 23 de setembro de 2026.]