AIS: «Escravidão de que não se fala»

Notícias 6 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 5

A região leste da República Democrática do Congo tem sido palco de enorme sofrimento para as populações civis, nomeadamente as mulheres e as crianças. O Padre Marcelo Oliveira, missionário comboniano a viver há vários anos neste país africano, denuncia, em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, a situação complicada que se vive por ali, “em que as mulheres são usadas para violências sexuais, e mesmo para escravidão”.

 

A guerra, a rapina das riquezas naturais, os ataques contra as populações, a violência sexual. Tudo isto faz parte, infelizmente, do dia-a-dia da região leste na República Democrática do Congo. Às vezes fala-se disto. Normalmente há apenas um enorme manto de silêncio. Mas o facto de não haver notícias, de não se falar da guerra na região do Kivu Norte e do Kivu Sul da RD Congo não significa menos violência, menos atrocidades, menos sofrimento. Pelo contrário. O que há é um sofrimento ainda maior, pois estas populações estão sozinhas, estão como que abandonadas à sua sorte. E isso é trágico. O Padre Marcelo Oliveira, um missionário comboniano a viver há vários anos neste país de África, enviou uma mensagem para a Fundação AIS em Lisboa a denunciar tudo isto, e muito concretamente a violência sexual. “Os grupos armados” – diz o padre – continuam a usar mulheres, seja para violências sexuais, e mesmo para escravidão, e com a consequência de [haver] crianças que nascem fruto das violações. Esta é uma realidade triste, com pessoas que sofrem, com mulheres que são obrigadas a gerar crianças e que não optam pelo aborto, mesmo que sejam de uma gravidez forçada”, diz, acrescentando que ficam com traumas para o resto das suas vidas. “Vão continuar a sofrer por falta de apoio, por falta de atenção, e o silêncio é aquilo que reina.” A mensagem é curta, mas as palavras que este sacerdote utiliza são poderosas. E inquietantes. As mulheres são usadas e escravizadas. E, importa acrescentar, toda esta violência é fruto da guerra e esta guerra, importa também dizê-lo, é fruto da ganância dos que estão a saquear as riquezas naturais, que são abundantes, nesta zona deste país de África. São as famosas terras raras, o coltan, essencial para os smartphones e a informática, mas também o ouro, os diamantes, as madeiras preciosas…

 

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Lista de horrores

Esta não é uma realidade desconhecida pela ONU. Em Março, o portal de notícias das Nações Unidas falava no “uso persistente da violência sexual como táctica de guerra”, e do “sofrimento indescritível” que provoca às mulheres e meninas congolesas. E é referido ainda que desde Outubro do ano passado houve mesmo “uma escalada de casos contra crianças”. Também o Vaticano já denunciou o que se passa na região leste da República Democrática do Congo. O Vatican News denunciava, no final de Março, “violações durante os ataques a aldeias, estupros colectivos, por vezes públicos, actos de violência cometidos na presença de familiares, sequestros nas estradas ou nos campos, cativeiro e escravidão sexual, invasões nocturnas de residências, abusos durante a detenção”. Tudo isto está num artigo intitulado precisamente “o estupro como arma de guerra”. Um artigo em que se escreve que “a lista de horrores” não pára de crescer e em que são referidas concretamente as províncias de Kivu do Sul e do Norte e de Ituri, como estando no epicentro dos confrontos entre o exército congolês e os grupos paramilitares. Grupos, na sua maioria, ligados ao movimento armado M23. É só por ser rica que esta região está a saque por estas milícias, tantas vezes às ordens de outros países, como o Ruanda, numa disputa despudorada pelo que se esconde ali no subsolo. As mulheres e as raparigas são apenas uma espécie de troféu destes criminosos que por ali usam também muitas vezes a bandeira do Islão radical. “Continuemos a rezar por estas mulheres, tantas vezes perseguidas, sofredoras, mas que continuam a acreditar num valor fundamental, que é o valor da vida humana”, diz o Padre Marcelo Oliveira a concluir a mensagem enviada para Lisboa, para a Fundação AIS.

Fundação de direito pontifício, a AIS ajuda os cristãos perseguidos e necessitados.

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