AIS: «Ninguém merece isto…»

Notícias 5 março 2026  •  Tempo de Leitura: 7

A beleza da região, exuberante de verde, esconde a tragédia da pobreza dos que trabalham nas plantações de chá no Bangladesh. Formalmente, são pessoas livres, mas na verdade são autênticos escravos que recebem uma miséria por cada dia extenuante de trabalho. Para o Irmão Eugenio Sanchez, isto é inqualificável. “Nenhum ser humano merece isto”, diz à Fundação AIS. A presença de uma pequena comunidade de Irmãos Maristas nesta esquina no mundo é um sinal de que esta população pobre e miserável não foi abandonada…

 

Tudo por ali parece desmesurado. O verde é denso, tem matizes, está presente em todo o lado. Quem chega não compreende logo que por ali vivem pessoas. São trabalhadores do chá, um resquício ainda dos tempos coloniais, quando os Britânicos compreenderam que aquelas terras seriam propícias para as plantações que exigem um labor constante, árduo e que é mal pago. Sempre foi muito mal pago. A tal ponto que os trabalhadores das plantações são mais escravos do que homens livres, apesar de terem ordenado, apesar de serem pagos pelo que fazem. Mas o que recebem é miserável, não os retira da indigência, não lhes oferece nenhum futuro. Estão presos a uma realidade que os arrasta para a mais profunda pobreza. Quem chega a Giasnogor não compreende logo que por ali, no meio de todas as tragédias que se acumulam desde há quase anos sem fim, há também uma semente teimosa de amor que foi plantada por um punhado de religiosos, de Irmãos Maristas.

 

Um espanhol enamorado pelo Bangladesh

Eugenio Sanz Sanchez é espanhol, mas há muito que se deixou enamorar pelas gentes do Bangladesh, em especial os trabalhadores das plantações de chá. Eugenio não desiste de transformar aquela terra transformando os corações. Só isso poderá ter a força suficiente para mudar décadas de exploração, de subserviência, de pobreza. “Sou um irmão marista. Queremos dignificar as pessoas daqui porque todas as pessoas, pelo simples facto de serem seres humanos, têm direitos. O alvo da nossa acção aqui são as pessoas que trabalham nas plantações de chá, uma minoria muito carenciada no Bangladesh. Há 150 anos, os Britânicos estabeleceram plantações de chá nesta região. As condições em que vivem são muito, muito precárias”, explica à Fundação AIS. Para se deslocar de povoações em povoação, o Irmão Eugenio vai de Land Rover. Só um jipe assim, robusto, é capaz de ultrapassar os caminhos de terra batida esburacados por chuvas que por vezes, ali, parecem dilúvios. Por ali não se pode andar depressa, mas também não há nenhuma urgência.

 

Uma região que parece ter parado no tempo

A vida nas plantações de chá parece ter parado no tempo. As famílias continuam presas a uma miséria sufocante, que vai passando de geração em geração como se fosse uma inevitabilidade. “Não têm dinheiro para mandar os seus filhos para a escola”, explica, num evidente desalento, o Irmão Eugenio Sanchez. “Não têm dinheiro para pagar medicamentos adequados. Por isso, ficam aqui, presos à sua terra. Nenhum ser humano merece isso. Nenhum ser humano merece isso.”, diz, uma e outra vez, a sublinhar o drama que tem em mãos e que ainda não conseguiu resolver. Não conseguiu resolver, mas não desiste de o fazer. Todos os dias, quando sai da casa onde os Maristas vivem em Giasnogor, Eugenio sabe que transporta consigo uma luz de esperança. A esperança que vem de Deus. A vida ali nas plantações não é fácil. Há por ali milhares de trabalhadores que vivem em condições de extrema pobreza e que recebem miseravelmente a troco de um trabalho árduo e diário de 10 a 12 horas. São milhares que vivem assim. As casas onde moram são construídas sob estacas, têm paredes de barro e telhados de palha, quase não têm mobília, quase não têm nada. No entanto, estas plantações de chá, que são o centro da vida em toda a região, alimentam o negócio bem lucrativo de algumas empresas multinacionais.

 

Transformar esta terra num pedaço de Céu

Mas, para os Irmãos Maristas, esta história ainda não chegou ao fim. É preciso mudar este paradigma. É possível mudar esta prisão a céu aberto em que vivem estas populações. E o caminho mais curto para essa mudança é a educação. “Queremos dar a nossa pequena contribuição e ajudá-los a sair desse ciclo de miséria”, diz o Irmão Eugenio, lembrando os projectos que lhe alimentam esse sonho. “Haverá uma escola secundária, uma escola preparatória e também albergues para meninas e meninos. Eles poderão sair, poderão ampliar a sua visão. Poderão ver o que há por trás das paredes da plantação de chá. E, talvez um dia, quem sabe…” Talvez um dia, aquela terra seja mesmo um pedaço de Céu. Beleza não falta por ali. É só preciso acabar com o sofrimento dos que trabalham nas plantações. O exemplo destes Irmãos Maristas é extraordinário. A presença de uma pequena comunidade de Irmãos Maristas nesta esquina do mundo no Bangladesh é um sinal de que esta população pobre e miserável não foi abandonada… 

Fundação de direito pontifício, a AIS ajuda os cristãos perseguidos e necessitados.

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