O luto de quem não quer perder

Crónicas 15 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 2

A vida é uma quase infinita sequência de perdas. Estamos condenados a perder quase tudo o que julgamos importante. O que é mesmo nosso, e que não perdemos nunca, é a nossa identidade. O que somos, apesar de tudo.

 

Posso negar que perdi, convencendo-me de que não perdi aquilo que já não tenho, mas que continuo a sentir como parte de mim. A verdade, porém, é que o perdi, embora continue a fazer parte de mim.

 

Posso indignar-me e tentar com violência reaver o que sinto que com injustiça me foi roubado. Nada consigo de volta a não ser perder as forças com que bato e grito. Preciso de força, muita, mas para encontrar em mim o sentido do caminho daqui para diante.

 

Posso tentar compreender o incompreensível, mas sem qualquer sucesso. Por mais que me esforce, jamais o meu entendimento descobrirá os porquês de tudo o que me acontece. Não é a razão que me levará para a frente.

 

Posso deixar-me cair e ficar, esgotado por tantas batalhas perdidas desta revolta profunda, mas também não será assim que terei de volta o que perdi e tanto desejo.

 

O passado é história e o futuro é mistério. Cada um de nós é uma espécie de ponte em movimento entre esses dois tempos.

 

O luto é um processo essencial e passa por aceitar que o passado é irrecuperável, por melhor ou pior que tenha sido, aceitando tanto o que recebemos como o que nos foi tirado.

 

A felicidade nasce das escolhas mais difíceis. Uma delas talvez seja decidir ser feliz apesar de todo o sofrimento passado, presente e o que ainda virá. Lutando todos os dias.

 

Quem não faz os seus lutos perde mais do que perdeu, porque, ao não aceitar as perdas como parte da sua história, arrisca-se a esquecer-se de quem é e a perder-se a si mesmo.

 

A fé, a esperança e o amor ensinam-nos a nunca desesperar, apesar de tudo.

Artigos de opinião publicados no site da Agência Ecclesia e Rádio Renascença.

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