E se a morte nos desse vida?

Crónicas 4 novembro 2022  •  Tempo de Leitura: 5

E se a morte nos desse vida? É esta a novidade que o cristianismo nos oferece. E é através desta mesma novidade que, em vida terrena, surge a possibilidade de podermos recomeçar. Não nos é dada a possibilidade de recomeçar para esquecermos o nosso passado, ou para fugirmos às consequências dos nossos atos, mas sim para que nos saibamos inacabados. Somos imperfeitos, porque aqui seremos sempre inacabados. Conseguirmos entender o recomeço como oportunidade de nos aproximarmos do que efetivamente podemos ser, permite olhar para as quedas como um desafio e não como uma catástrofe, isto é, não é o fim, talvez possa ser a sua finalidade. E é nesta perspetiva que a morte pode dar vida. É nesta perspetiva que a ressurreição pode encarnar nas nossas vidas sem termos que vivenciar a morte na sua literalidade.

 

E se a morte nos desse vida? Parece descabida esta questão quando realmente já vivenciamos a dor e a saudade da perda dos/as nossos/as amados/as. Ficamos, inclusive, frustrados quando ouvimos relatos de cura e de ressurreição realizados por Jesus e depois no nosso quotidiano acabamos por experienciar o contrário. No entanto, o cristianismo continua a não abandonar esta ideia. E, para além de não a abandonar, ainda é capaz de enveredar na loucura de a anunciar alegremente de porta em porta. Mas como podemos nos dias de hoje continuar a acreditar nesta novidade? Como é que os outros podem, pelo menos, ficar na dúvida de que talvez a morte nos possa dar vida?

 

Em primeiro lugar, talvez fosse benéfico termos bem presente a morte nas nossas vidas. Não quero com isto dizer que devemos ter a toda a hora a morte no nosso pensamento, nem muito menos presenciarmos a morte a todo o instante (para isso já basta aqueles que trabalham em funerárias). O que acredito é que seria bom que a morte não fosse um tabu. Seria saudável que desde pequenos pudéssemos desconstruir a morte e trazê-la para a nossa vida independentemente das crenças de cada um. Viver saudavelmente com a morte sabendo que é a nossa maior certeza.

 

Depois, em segundo lugar e de já a termos presente na nossa vida, talvez o testemunho que damos da fé possa fazer a diferença para que, pelo menos, muitos possam ficar com a dúvida de que talvez a morte possa não ser o fim. E para eu testemunhar que acredito que a morte me dá vida, não a posso transmitir com cara de missa de sétimo dia. E com isto também não quero dizer que não possamos ter dúvidas, é bom que as tenhamos, porque só dessa forma poderemos testemunhar verdadeiramente. Devemos, isso sim, dar a conhecer como testemunhas da esperança e não como quem já perdeu tudo e não tem a oportunidade de voltar a vir a conquistar mais.

 

Por último, talvez fosse importante desconstruirmos a ideia do juízo final e colocarmos um pouco mais de empatia na dor de cada um/a. E, se calhar, neste ponto confesso, assumidamente, que me afasto um pouco daquilo que é apresentado pela Igreja Católica. Se reconheço Deus como Pai-Mãe e se o reconheço como Pai-Mãe da parábola do filho Pródigo, como será então este juízo final? Terei um Deus que medirá a minha vida e os meus pecados? Ou terei um Deus que me abraçará calorosamente para que possa sentir o Seu amor e a Sua misericórdia? Terei um Deus que me infligirá dor ou um Deus que me permitirá que Ele seja tudo em mim?


Mas se este Deus for semelhante à imagem apresentada na parábola do filho Pródigo isso significará que tudo é aceite? Acredito que não será tudo aceite, mas que tudo será permitido renovar. Sem dor, sem juízo, mas baseado no amor que consegue fazer criar vida na morte.

 

E se a morte nos desse vida? Talvez precisemos de acreditar novamente nisto, para que cada um possa recomeçar e para que em conjunto, como Igreja, possamos dar a oportunidade dos outros recomeçar. Da morte, do nada pode surgir tudo. É esta a maravilha oferecida por Jesus: um túmulo vazio onde cabem todos os nossos recomeços!

Nasceu em 1994. É estudante do Mestrado Integrado em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. É acólito e catequista. Adora pensar e pôr os outros a pensar. “Porque nem tudo faz sentido...” é o nome do seu blog e da sua primeira obra literária lançada em 2014. Desbrava um caminho de encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. “Minh'alma anseia por mais de Ti. Meu coração só deseja a Ti. Lembro do dia em que Te conheci. A minha vida mudou. A minha vida mudou.”.

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