Ainda não percebemos nada

Crónicas 5 junho 2020  •  Tempo de Leitura: 2

Ainda não percebemos nada. Estamos muito longe disso. Vivemos tão cegamente e tão convictos de que sabemos tudo que acabamos por não conseguir ver que a nossa igualdade acontece na diferença. Queremos sentido de superioridade. Necessitamos de ser senhores e senhoras da razão, nem que isso sirva para coisa nenhuma.

 

Ainda não percebemos nada. E continuaremos a não perceber mesmo que o mundo esteja confinado. Mesmo que sintamos a injustiça na pele. Preferimos sempre desvirtuar todas as questões. Alinhando-nos num constante ataque a tudo e a todos, porque só assim se faz justiça. Só assim se alcança a liberdade. Na verdade, vivemos completamente enganados.

 

Ainda não percebemos nada. Nem queremos perceber. Queremos, isso sim, salvaguardar o nosso bem-estar. Queremos salvar somente os "nossos" como se a nossa humanidade fosse sinónimo de rivalidade. Queremos que nos olhem, mas não queremos olhar. Queremos que nos escutem, mas não queremos dar ouvidos aos outros. Anda sempre tudo à volta de um egocentrismo disfarçado de preocupação ingénua.

 

Ainda não percebemos nada. E para nos irmos enganando ainda achamos que um simples vírus poderá mudar aquilo que não queremos que mude. A nossa mesquinhez não se altera com vírus, mas com carácter. A nossa ignorância não muda com um vírus, mas com conhecimento e informação. A nossa discriminação não deixa de acontecer por um vírus, mas sim quando somos capazes de respeitar.

 

Ainda não percebemos nada. Desconfio até que nunca iremos perceber. Necessitamos mais do que empatia. Necessitamos da compaixão, desta capacidade de sofrer com. Não para cairmos numa piedade moralista ou num pensamento de que somos "coitadinhos", mas para efetivamente sentirmos que todas as vidas contam por usufruírem do mesmo dom.

 

Ainda não percebemos nada. Tão avançados. Tão evoluídos cientificamente e tecnologicamente, mas ainda tão ignorantes com a nossa humanidade. Talvez seja o tempo de mergulharmos sobre ela, a sério.

Nasceu em 1994. É estudante do Mestrado Integrado em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. É acólito e catequista. Adora pensar e pôr os outros a pensar. “Porque nem tudo faz sentido...” é o nome do seu blog e da sua primeira obra literária lançada em 2014. Desbrava um caminho de encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. “Minh'alma anseia por mais de Ti. Meu coração só deseja a Ti. Lembro do dia em que Te conheci. A minha vida mudou. A minha vida mudou.”.

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