O difícil não é falar. É continuar a escutar
Há conversas que são fáceis enquanto ninguém tem verdadeiramente de ceder. Escutamos, apresentamos argumentos, talvez até concordemos em alguns pontos, e cada um regressa a casa praticamente no mesmo lugar de onde partiu.
O problema começa quando a diferença deixa de ser apenas uma opinião. Quando implica escolhas. Quando alguém tem de abdicar de alguma coisa, repartir poder ou aceitar que a sua solução talvez não seja a única possível.
Foi precisamente nesse terreno que Leão XIV colocou o diálogo, ao receber, no dia 12 de setembro, os participantes no encontro «Fratelli tutti: Diálogo socioambiental Norte-Sul». Perante representantes de instituições, empresas, trabalhadores, universidades e organizações sociais, o Papa recuperou uma expressão bem conhecida: «Não tenham medo».
Não falava apenas do medo do conflito. Falava também da possibilidade de fazer alguma coisa com ele.
As tensões e as diferenças, dizia, não têm necessariamente de nos separar. Podem tornar-se fecundas. Mas isso só acontece quando existe disponibilidade para assumir responsabilidades em conjunto.
Ficar quando seria mais fácil sair
Não é preciso olhar muito longe para perceber como uma diferença se transforma rapidamente numa divisão.
Acontece na política, nas redes sociais, no trabalho, nas comunidades e também dentro da Igreja. Enquanto o outro confirma aquilo que pensamos, escutá-lo é relativamente simples. Quando começa a pôr em causa as nossas certezas, tudo se torna mais difícil.
É aí que aparecem os rótulos. Simplificamos a posição do outro, colocamo-lo numa caixa e, muitas vezes, deixamos de o escutar antes mesmo de ele terminar de falar.
Leão XIV aponta para outro caminho.
A experiência sinodal da Igreja, recordou, ensinou precisamente isso: é possível escutar as diferenças sem ter de as apagar. Discernir não significa fingir que todos pensamos da mesma maneira. Significa procurar, mesmo no meio da discordância, aquilo que pode ajudar a construir o bem comum.
E isso dá trabalho.
O verdadeiro diálogo começa, muitas vezes, no momento em que a conversa deixa de ser confortável. Quando surgem interesses diferentes, decisões difíceis ou consequências que ninguém gostaria de assumir.
Permanecer à mesa nessas circunstâncias é muito mais exigente do que simplesmente ser cordial.
Para os cristãos há ainda uma razão mais funda para não desistir facilmente dessa relação. A fraternidade não depende de termos chegado a acordo. Nasce da convicção de que reconhecemos um mesmo Pai.
O outro não passa a ser nosso irmão quando concorda connosco. Já o era antes.
Quem fica a pagar a conta?
Há acordos que parecem bons porque conseguiram pôr fim à discussão.
Mas isso não significa necessariamente que sejam justos.
Por vezes, a paz de um acordo resulta apenas do facto de alguém não ter força suficiente para continuar a contestá-lo. Ou de algumas pessoas nem sequer terem tido lugar à mesa.
Leão XIV propõe, por isso, um critério particularmente importante: olhar para as consequências das decisões sobre aqueles que têm menos possibilidades de se defender.
Uma maioria não torna automaticamente uma decisão justa. Nem um compromisso entre pessoas com poder garante que o bem comum tenha sido respeitado.
É neste ponto que a Doutrina Social da Igreja deixa de ser apenas um conjunto de princípios e se torna uma forma concreta de olhar para as escolhas que fazemos.
O Papa recorda que ela não substitui as decisões políticas, económicas ou tecnológicas. Ajuda, porém, a avaliá-las a partir de duas referências fundamentais: a dignidade humana e o bem comum.
E isso obriga a mudar algumas perguntas. Não basta perguntar se uma decisão funciona. É preciso perguntar para quem funciona.
Não basta saber se produz crescimento ou se reúne consenso. É necessário perceber quem beneficia, quem suporta os custos e quem corre o risco de desaparecer da nossa atenção.
Esta pergunta não vale apenas para grandes decisões políticas ou económicas. Também serve para as nossas comunidades, escolas, instituições, grupos e famílias.
Às vezes conseguimos chegar a um compromisso que parece equilibrado, mas alguém continua sem voz.
E uma comunidade pode parecer muito pacífica simplesmente porque algumas pessoas já desistiram de falar.
Construir sem deixar novas ruínas
No final do discurso, Leão XIV foi buscar uma imagem bíblica muito concreta: Neemias diante de Jerusalém destruída.
Neemias não começou simplesmente a levantar muros.
Primeiro escutou o sofrimento do povo. Depois procurou compreender o que precisava de ser feito, reuniu recursos e envolveu outras pessoas na reconstrução.
Talvez seja uma boa imagem para o nosso tempo.
Também nós estamos constantemente a construir. Construímos tecnologias, empresas, escolas, instituições, meios de comunicação e comunidades. E tudo aquilo que construímos pode abrir possibilidades extraordinárias.
Mas também pode deixar pessoas para trás.
O progresso não deixa de ser progresso apenas porque tem custos. Mas torna-se difícil chamar-lhe progresso quando os seus custos são sempre pagos pelos mesmos.
Talvez seja por isso que a coragem de que hoje precisamos não seja apenas a coragem de defender aquilo em que acreditamos.
Pode ser também a coragem de ficar.
Ficar à mesa quando discordamos. Escutar quando seria mais fácil responder. Aceitar que o outro possa ver alguma coisa que nos escapou. E perguntar, antes de decidir, quem poderá ficar ferido pela escolha que estamos prestes a fazer.
As diferenças não vão desaparecer. Talvez nem seja desejável que desapareçam.
Mas podem deixar de ser muros que nos separam e tornar-se lugares onde aprendemos, finalmente, a construir uns com os outros.