Corrigir sem humilhar: a coragem de falar com o outro

Razões para Acreditar 6 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Quando alguém nos magoa ou erra, há uma tentação muito humana: escolher uma terceira pessoa antes da primeira. Contamos o que aconteceu, procuramos confirmação, repetimos a história. Às vezes chamamos-lhe desabafo; outras vezes, preocupação. Mas a pessoa de quem falamos continua fora da conversa.

 

No Evangelho segundo São Mateus, Jesus propõe outro caminho: começar pelo encontro. «vai ter com ele e repreende-o a sós.» (cf. Mt 18,15). No Angelus deste domingo, 6 de setembro, o Papa Leão XIV voltou a apresentar a correção fraterna como uma «arte delicada» que exige franqueza e gradualidade. Primeiro, a sós; depois, se for necessário, com a ajuda de outros; só então com a comunidade. O objetivo não é aumentar a exposição, mas criar possibilidades de verdade e reconciliação.

 

A coragem de dizer e a delicadeza de preservar

Falar diretamente parece simples até chegar a nossa vez. Há o medo de ferir, de perder a relação, de sermos mal interpretados. E há também uma razão menos nobre: falar sobre alguém pode ser mais confortável do que assumir a vulnerabilidade de falar com essa pessoa.

 

O saudoso Papa Francisco, a 10 de setembro de 2023,  apontava precisamente o perigo da coscuvilhice: o erro torna-se conhecido por todos, menos por quem precisaria de ser confrontado com ele. A correção fraterna segue a direção contrária. Procura a lealdade do encontro e uma coragem que não precisa de humilhar para dizer a verdade.

 

Enzo Bianchi acrescenta um critério importante: quem corrige deve fazê-lo com humildade, clareza e no momento oportuno, protegendo a vergonha do outro em vez de a expor. Isto muda profundamente a lógica da correção. Já não se trata de provar que temos razão, de descarregar irritação ou de marcar uma fronteira entre os certos e os errados. Trata-se de assumir responsabilidade por uma relação ferida.

 

Uma dívida que nunca fica liquidada

Leão XIV começa a sua reflexão por uma expressão de São Paulo: «Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros» (Rm 13,8). A imagem desloca a correção fraterna para um lugar exigente. Corrigir pode ser uma forma de amor quando nasce do desejo de bem do outro e da comunidade; pode deixar de o ser quando serve a superioridade, a vingança ou a exposição.

 

Por isso, nem toda a crítica é correção fraterna. A pergunta cristã não é apenas se aquilo que dizemos é verdade. Importa também por que o dizemos, como o dizemos e o que esperamos que aconteça depois. A verdade pode ser usada como arma. O Evangelho pede que ela seja colocada ao serviço da comunhão.

 

Isto não significa fingir que nada aconteceu, evitar conflitos ou confundir misericórdia com permissividade. As três leituras insistem num caminho concreto e gradual. Há erros que precisam de ser nomeados; há situações em que é necessária a intervenção de outras pessoas ou da própria comunidade. Mas mesmo aí o horizonte não é o pelourinho. É procurar, tanto quanto for possível, que quem errou reconheça o mal, possa mudar e não seja reduzido para sempre ao seu erro.

 

Talvez por isso a correção fraterna seja tão difícil: obriga-nos a permanecer próximos quando seria mais fácil afastar, comentar ou condenar. E recorda-nos que ninguém ocupa definitivamente o lugar de quem corrige. Hoje podemos ajudar alguém a ver melhor; amanhã seremos nós a precisar de uma palavra dita com verdade e misericórdia.

 

Uma comunidade cristã não se mede pela ausência de conflitos. Mede-se também pelo modo como os atravessa: se transforma o erro em espetáculo ou em ocasião de conversão; se acumula versões sobre uma pessoa ou encontra coragem para ir ao seu encontro; se usa a verdade para vencer ou para reconstruir.

 

Falar com o outro, antes de falar sobre o outro, pode ser um dos gestos mais discretos — e mais exigentes — da caridade.

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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