A arte da correção fraterna

Liturgia 10 setembro 2017  •  Tempo de Leitura: 13 min

No capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, lemos diversos ensinamentos de Jesus sobre a vida da sua comunidade, a comunidade cristã. O evangelista os recolhe e os reúne aqui para dar aos cristãos orientações em uma hora já marcada pela fadiga da vida eclesial entre irmãos e irmãs em conflito, por rivalidades e patologias de relações entre autoridades e crentes. A mensagem central dessa página indica a misericórdia como decisiva, absolutamente necessária nas relações entre irmãos e irmãs.

 

Os poucos versículos proclamados neste domingo querem indicar a necessidade da reconciliação tanto na vida cotidiana, quanto na oração dirigida ao Senhor vivo. Eis, então, a primeira palavra de Jesus: “Se o teu irmão pecar (contra ti), vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”.

 

Na verdade, essa sentença de Jesus é atestada nos manuscritos em duas formas: a curta, que fala de um irmão que peca (isto é, que comete um pecado contra as exigências cristãs), e a longa, que especifica “contra ti”, levantando a hipótese de uma ofensa pessoal. No primeiro caso, a diretriz seria eclesial e, portanto, se trataria de um comportamento específico a ser vivido como Igreja; no segundo caso, Jesus se referiria à reconciliação fraterna em caso de dissídio ou ofensa. A tradução italiana oficial [e também a brasileira] opta por esta segunda leitura, mas tanto uma versão quanto a outra são acentuações diferentes de uma única verdade, porque o pecado entrevisto, mesmo assim, é um pecado grave que impede a comunhão fraterna.

 

Jesus pede a correção e a reconciliação entre aqueles que estão em conflito, entre o ofendido e o ofensor, mas também as pede em nível comunitário, quando um membro da comunidade, mediante o seu pecado, contamina todo o corpo, torna-se sujeito de escândalo, de obstáculo para a vida cristã, que é e deve ser sempre comunhão entre diversidades reconciliadas e, portanto, sinfônicas.

 

A comunhão exige um compromisso sério, até mesmo um esforço, e é uma questão de ser responsável e guardião também do outro. É preciso prestar atenção para não ler nessas palavras de Jesus um procedimento jurídico cristão, a ser observado como uma lei! Certamente, Jesus se inspira naquilo que se lê no Levítico: “Não guarde no teu coração ódio contra o seu irmão. Repreenda abertamente o seu próximo, e assim você não carregará o pecado dele” (Lv 19, 17; cf. também Eclo 19, 13-17).

 

Mas ele não dá uma nova lei capaz de resolver os conflitos e de eliminar os pecados, mas pede que, no meio das tensões, dos conflitos, das controvérsias e das ofensas que inevitavelmente ocorrem em toda comunidade, permaneça o desejo de comunhão, a vontade de edificação comum, a responsabilidade inteligente de cada um para com todos. Quando ocorre o pecado grave e manifesto na comunidade cristã é preciso agir com criatividade, sabedoria, paciência e, acima de tudo, misericórdia.

 

Então, o que o cristão maduro deve fazer? Admoestar o pecador, certamente, mas com muita caridade. Admoeste-o no momento oportuno, admoeste-o com humildade e clareza, admoeste-o cobrindo a sua vergonha, não a revelando aos outros, portanto, sozinho. Quem faz a correção deve ter o coração de Jesus que perdoa, não despreza e não se alimenta de preconceitos. Deve fazê-lo com o espírito do bom pastor, que, na parábola contada imediatamente antes por Jesus, vai buscar a ovelha que se perdeu (cf. Mt 18, 12-14). Deve fazê-lo não porque a lei foi quebrada, mas porque aquele que pecou fez mal a si mesmo, escolheu o caminho da morte e não o da vida.

 

Em todo o caso, quem corrige não pode pensar que deve erradicar o joio e salvar o trigo bom (Mt 13, 24-30)! Portanto, todo o possível deve ser tentado para que aquele que se perdeu reencontre o caminho da vida e que aquele que ofendeu o irmão reencontre o caminho da reconciliação.

 

Jesus pede simplesmente isso, mas constatamos como é difícil, nas comunidades cristãs, esse simples passo rumo à comunhão. Parece que a arte de admoestar e corrigir o outro, arte certamente delicada e difícil, não é possível e, em vez disso, dá lugar à indiferença por parte daqueles que estão preocupados demais consigo mesmos e com a própria salvação para pensar nos outros.

 

Mas, no Evangelho, testemunha-se também a possibilidade de que a correção fraterna tenha um resultado negativo: o irmão que pecou pode não querer ser corrigido, muito menos mudar de atitude, convertendo-se do caminho tomado em contradição com o Evangelho. O que fazer nesse caso?

 

Aceitando sem rancor a rejeição oposta pelo irmão, será preciso buscar um caminho ulterior em relação ao percorrido, talvez recorrendo à ajuda de outros irmãos e irmãs da comunidade: “Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que ‘toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas’” (Dt 19, 15).

 

Também nessa opção, não se deve ler um procedimento jurídico rígido por parte de Jesus! Em vez disso, é preciso captar o espírito de tais injunções, que querem salvar o irmão ou a irmã, não tornar a comunidade pura, percorrendo caminhos de exclusão. Pedir a ajuda de outros irmãos significa buscar o terceiro que ajude na reconciliação quando não há possibilidade de acordo no face a face, significa buscar a palavra de autoridade de outros, que ajude a discernir melhor qual é o caminho da conversão.

 

Depois, se esse caminho também for insuficiente, então – diz Jesus – pode-se pedir à assembleia, à Igreja (ekklesía) que intervenha para que o conflito seja resolvido e o apelo à conversão seja expressado com a máxima autoridade. Mas mesmo essa última tentativa pode não ter sucesso, e então?

 

Não se esqueça de que a assembleia não é um tribunal de última instância, mas uma oportunidade para ouvir a voz dos irmãos e das irmãs no corpo de Cristo, a Igreja: “Se nem mesmo à comunidade, à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público (ho ethnikòs kaì ho telónes)”.

 

Essa atitude, assumida por quem foi ofendido ou viu o pecado, corrigiu e não foi ouvido, não é a excomunhão, palavra usada com acepções ou interpretações fantasiosas. Não! Jesus diz que, se forem esgotadas todas as tentativas de correção fraterna e de reconciliação, então é preciso se distanciar para conservar a paz e não irritar o irmão, é preciso considerá-lo como se fosse pertencente aos gentios (um pagão) ou como um publicano. Ou seja, alguém a quem Jesus amava e estava disponível para se encontrar (cf. Mt 9, 11; 11, 19), um doente que precisa ser curado, um pecador que precisa de perdão.

 

Neste ponto, o cristão assume sobre si duas responsabilidades, a de perdoar o pecado ou de não lhe perdoar: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.

 

O poder de ligar e de desligar, conferido por Jesus a Pedro (cf. Mt 16, 19) também é dado a cada cristão, para que exerça o ministério da reconciliação, sempre e com autoridade. Esse poder é dado aos discípulos como o próprio Jesus o teve, “não para julgar, mas para salvar o mundo” (cf. Jo 3, 17).

 

Na sua Regra, São Bento legisla sobre essas patologias vividas às vezes pela comunidade e sabe que, esgotada toda possibilidade de correção de um irmão que continua habitando no pecado grave, só resta rezar, devolvendo o outro à misericórdia do Senhor e ao poder da graça, o amor que nunca deve ser merecido (cf. RBen 23-28). A excomunhão monástica prevista por Bento para o irmão pecador que não se arrepende também é apenas remédio: exclusão da mesa e da oração comum, mas nunca exclusão total do irmão.

 

O “resgate” de um irmão, de uma irmã é obra delicada, cansativa, que requer paciência e deve ser inspirada apenas pela misericórdia. Porque todos somos fracos, todos caímos e precisamos ser ajudados e perdoados: na comunidade cristã, não há puros que ajudam os impuros ou sãos que cuidam dos doentes! Mais cedo ou mais tarde, conhecemos o pecado e precisamos de uma ajuda inteligente e verdadeiramente misericordiosa, a ajuda que viria de Deus. De fato, é preciso se salvar juntos, como Bento escreve ainda na Regra: “Cristo nos conduza todos juntos à vida eterna (nos pariter ad vitam aeternam perducat)” (RBen 72, 12). Ninguém se salva sozinho: que salvação seria essa que diz respeito apenas a mim mesmo, sem os outros? Que reino de Deus seria aquele em que se entra sozinho, enquanto os outros ficam de fora? Que solidão, que tristeza...

 

Precisamente por isso, Jesus pede aos seus discípulos que, quando rezem, estejam em comunhão. Não basta rezar uns ao lado dos outros, justapostos, não basta rezar com as mesmas fórmulas ou fazer os mesmos gestos. Para que a oração seja autêntica e a liturgia, agradável a Deus, é preciso sobretudo concordar (verbo sýn-phonéo) na caridade, ser comunhão. Então, a oração é ouvida, porque, onde há sinfonia dos corações, lá está o Espírito Santo, o dom dos dons, sempre concedido a quem o invoca (cf. Lc 11, 13). E bastam poucos, dois ou três que rezam na fé de Cristo Senhor, para que o próprio Cristo esteja presente.

 

Diziam os rabinos: “Quando dois ou três estão juntos, e entre eles ressoam as palavras da Torá, então a Shekinah, a Presença de Deus, está no meio deles” (Pirqé Abot 3, 3). Analogamente, Jesus diz que, quando mesmo apenas dois ou três irmãos ou irmãs se reúnem no seu Nome, na caridade recíproca, então ele está presente. Sim, Jesus está presente lá onde se vive o amor, a caridade entre os irmãos, entre as irmãs.

Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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