Para o cristianismo, mesmo quando vivido como experiência espiritual pessoal e íntima, o mundo nunca é um ruído
Há tempos litúrgicos que entraram de tal maneira na órbita da chamada “religião secularizada”, que as nossas sociedades ocidentais praticam em larga escala, que quase se omite a sua componente religiosa. O Natal é talvez o exemplo mais extremo. É um acontecimento mobilizador, não há dúvida, mas com entendimentos e expressões tão díspares, num acelerado processo cultural de reinterpretação, que quem vive o Natal de uma maneira dificilmente reconhece que seja o mesmo facto que os outros celebram de outra. Mais do que declarar uma guerra entre as catedrais e os centros de comércio, só para tomar dois representantes do contraste, importa reconhecer a necessidade de uma reflexão sobre o hodierno fenómeno de “bricolage do religioso”, que não tem obrigatoriamente de ser lido como uma subtração da religiosidade, mas como referente de uma complexa reconfiguração que ganha em ser pensada. No contexto português, há gente atenta a isso, e inscrita numa perspetiva de abordagem multidisciplinar: da teologia à sociologia ou à história contemporânea. O recente e interessantíssimo livro de António Araújo “Da direita à esquerda. Cultura e sociedade em Portugal, dos anos 80 à atualidade” (Saída de Emergência: 2016) assinala-o, mesmo que de passagem. A comemoração dos cem anos das aparições de Fátima será também, a esse nível, uma invulgar oportunidade: o boom editorial em torno do centenário, para lá de propósitos mais imediatos, constitui um curioso observatório sobre as identidades e práticas religiosas neste primeiro quartel do século XXI. Contudo, deve reconhecer-se, falta no nosso espaço académico e público algum pensamento sobre estas matérias.
Dou comigo a remoer estas ideias agora que se avizinha, com a chamada quarta-feira de cinzas, um tempo litúrgico, o da quaresma, cuja perceção cultural, ao contrário do que se passa com a festividade natalícia, se vem tornando clandestina, sem nada já a dizer à cidade, como se de um assunto extra muros se tratasse. É verdade que poder-se-ia ler esta crescente indiferença como uma devolução de liberdade aos ritos cristãos, que sem interferências externas e sem o ruído do mundo poderiam porventura ser celebrados com uma reencontrada inteireza. Mas, para o cristianismo, mesmo quando vivido como experiência espiritual pessoal e íntima, o mundo nunca é um ruído: o mundo é uma morada. Morada precária, é verdade, mas para os cristãos da mesma maneira que o é para todos os outros homens sobre a terra. Se ignorarmos a quaresma, este conjunto de quarenta dias rituais dedicados à peregrinação interior, como é que havemos de compreender os magníficos sermões de Vieira sobre o que ele designa, na barroca operação do seu falar, como as “domingas” em vez de “domingos”? Como haveremos de dialogar com as tentações de Cristo pintadas por Ivan Nikolaevič Kramskoj, filmadas por Pasolini ou reescritas por Clarice Lispector, sabendo no mais extreme da nossa humanidade que as tentações de Cristo representam as nossas? Como escutaremos “as últimas sete palavras de Jesus Cristo”, de Joseph Haydn, a oratória que António Pinho Vargas dedicou a Judas ou o reportório cristão de um irresistível pop como Samuel Úria? Inclusive, como compreenderemos o significado do Carnaval (que deriva etimologicamente do latino carnem levare, “eliminar a carne”, e que indicava o banquete que tinha lugar imediatamente antes do período de jejum e abstinência que a quaresma inicia)? O património das religiões tem muito a revelar à cultura sobre o que ela própria, cada vez mais anonimamente, transporta.
[Jornal Expresso SEMANÁRIO#2313, 25 de Fevereiro de 2017]