“Ser Voluntário é acreditar que é possível mudar o que está errado.”

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, foram-se embora deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquela estrada um Sacerdote que, ao vê-lo, passou pelo outro lado. Do mesmo modo, também um Levita, chegando ao lugar, e vendo, passou pelo outro lado. Mas um Samaritano, que ia de viagem, veio junto dele e, vendo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou das suas feridas derramando óleo e vinho, colocou-o na sua montada, levou-o para a hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: «Cuida dele, e o que gastares a mais, repor-to-ei quando voltar.” Lc 10, 25-37
Começo as minhas crónicas sobre o Voluntariado com esta parábola. É devido ao carácter “inspirador” desta, que muitos são hoje Voluntários, de uma forma consciente ou inconsciente.
D. António Couto tem um belo texto sobre a interpretação da parábola. (COUTO, D. António (2011) - Samaritano a historia hodierna. Uma leitura de Lucas 10, 25-37. Vida Consagrada. Nº 342, p. 43-58.)
Deixo aqui apenas algumas ideias fundamentais:
- O sacerdote e o levita veem-no, e, por o terem visto, afastam-se. Eles bem sabem que aquele «homem» desvalido em nada pode aumentar o poder deles e a importância deles. Só lhes traria complicações. Iriam perder tempo, manchar as mãos.
- O contraponto vem de «um samaritano». O samaritano chegou primeiro junto dele e, por ter chegado junto dele, é que o vê. O «ver» do samaritano vem depois do «chegar-se junto dele»: não é condição (aproximo-me de ti, porque te vi), mas consequência (vejo-te, porque me aproximei de ti), e teve compaixão dele, interrompeu a sua viagem, cuidou dele, perdeu tempo, perdeu dinheiro.
- Estamos perante dois paradigmas de comportamento: O paradigma de identidade marca os comportamentos dos assaltantes, do sacerdote e do levita. Embora de maneiras diferentes, todos vivem para si e a partir de si, pautando o seu comportamento pelo interesse e autossatisfação. Aquilo que são os nossos egoísmos em guerra uns contra os outros, todos contra todos.
- Ao contrário, no paradigma de alteridade, o samaritano não vive para si e a partir de si, debruçado sobre si mesmo, mas vive para o outro e a partir do outro, não com o objetivo da autorrealização e da autossatisfação, do proveito próprio ou do lucro, mas auto destituindo-se para servir incondicionalmente o outro, para dar a vida ao outro.
Voluntariado Humanizante
É evidente que a parábola não visa criticar os “sacerdotes” e os “levitas” enquanto classes sociais, mas evidenciar o papel que todos podemos ter na mudança do que está errado no nosso mundo. Essa mudança só é possível se formos capazes de “sairmos dos nossos mundos”. A partir do momento em que vivermos para o outro e não de nós e para nós, veremos os desvalidos a terem valor; a pobreza a diminuir; a fome a desaparecer.
O Voluntariado surge como essa resposta que é o ir ao encontro do outro; ver em que “estado” se encontra e ter compaixão. O Voluntário não deve ser aquele que pratica a “caridadezinha”, mas aquele que vê o outro como seu semelhante. Com os mesmos direitos: saúde; alimentação; habitação; emprego… Com as mesmas necessidades: amor; respeito; liberdade; humanidade…
O Voluntariado deverá ser humanizante, levando a projetos pessoais e comunitários que realizem, em cada tempo e lugar, a perene grandeza do Homem. A questão antropológica, isto é, a afirmação da dignidade do ser humano, é decisiva para o futuro da humanidade. Ao centro está o Ser Humano. Cabe a cada Voluntário respeitar o próximo como a si mesmo.
“Viver a partir de mim, seguindo espontaneamente ou dando livre curso aos meus desejos, projetos e instintos, buscando a autossatisfação, integrando e dominando o outro para o pôr ao meu serviço, ou viver a partir do outro, pondo-me eu ao seu serviço, são duas maneiras irreconciliáveis de viver, e está aqui o desafio que eu sou quotidianamente chamado a enfrentar. “ (António Couto)
Nas diversas histórias de Voluntariado que contactei, sejam elas pessoais ou institucionais, está sempre esta dinâmica de ir ao encontro do outro. O sair de nós mesmos, das “nossas” realidades, das nossas vidas. Mais do que um dar, é um “dar-se”! É esta verdade que procurarei relatar nas próximas crónicas sobre o que é Ser Voluntário.

Paulo Victória

Cronista

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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