Hoje celebramos mais um Carnaval. Quando nos questionamos sobre a sua origem e a sua história, chegamos à conclusão que estes festejos estão marcados pelo cristianismo. Talvez mais do que imaginaríamos.
Ao longo dos séculos, a Igreja cristianizou muitas festas pagãs. Havia em Roma as Saturnálias e as Lupercálias. As primeiras ocorriam no solstício de inverno, em dezembro, e as segundas, em fevereiro. Tais festas duravam vários dias com muita comida, bebida e dança. Com a criação da Quaresma, a Igreja conseguiu, manter uma data para as pessoas cometerem os seus excessos, antes do período penitencial de preparação para a Páscoa.
Vemos aqui que a alegria e a diversão, não são condenadas pela Igreja. Devem ser reguladas, reajustadas. Hoje, mais do que nunca, e talvez por este ser o "nosso tempo", temos que evangelizar a "diversão". Não podemos limitar-nos a condenar! Temos que ser "fermento" e "sal" na nossa sociedade. Com as nossas atitudes, o nosso testemunho de vida, temos que "dizer" ao mundo que há um tempo para a diversão e um tempo para a conversão. O caminho é feito com o equilíbrio destes dois momentos. Se o "mundo" oferece muitos momentos de diversão, a Igreja - isto é, todos e cada um de nós, cristãos -, tem que oferecer momentos de conversão.
Neste Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco, propõe-nos para a Quaresma «a misericórdia ao sacrifício», através das obras de misericórdia: «Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo.»
Muitas pessoas e muitas famílias, graças a dificuldades económicas, sociais ou de saúde, já vivem a sua Quaresma. Mas a Quaresma dos crentes é diferente. Enquanto a primeira é imposta, a segunda é querida, desejada. Nesta, ninguém é obrigado a jejuar ou a comer pouco. Muitos viverão a Quaresma com gestos e rituais muito pessoais: não bebendo café, não comendo doces, etc...
Além disso e também porque, livremente desejada, a Quaresma cristã, é substancialmente um "Acontecimento Alegre". É verdade que se fala de cinzas e de penitência, mas o "para quem" e o "porquê" transformam esta realidade um pouco depressiva, numa renovada esperança. É uma experiência que vivemos no nosso dia a dia: muitas vezes custa-nos fazer certas tarefas, mas vivemo-las com alegria porque as fazemos por alguém de quem gostamos muito. Desde sempre que a experiência de fé se compara com a experiência afetiva. Se se quer bem a Deus, não custa jejuar por Ele.
E é aqui que a Quaresma do crente, pode "iluminar" um pouco a "outra" quaresma: existe um Deus que sabe o que necessitámos. E Ele age através dos crentes com as obras de misericórdia corporais e espirituais.