O que a nova encíclica do Papa sobre a IA nos pede

Pastoral da Comunicação 27 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 10

Perto do final da sua nova encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV percebe que o leitor poderá estar a sentir-se sobrecarregado. “Neste ponto”, escreve o Santo Padre, “pode surgir uma tentação subtil: a ideia de que os problemas são demasiado grandes e nós demasiado pequenos, e que, por isso, as nossas escolhas não podem fazer diferença.”

 

E é aqui que ele recorre, surpreendentemente, a J. R. R. Tolkien e a O Senhor dos Anéis: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que vivemos, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois possam ter terra limpa para cultivar.”

 

O Santo Padre acabou de citar Gandalf numa encíclica. E foi absolutamente certeiro.

 

Uma nova era tecnológica, uma nova encíclica

Se ainda não compreende por que razão um Papa sentiria a necessidade de oferecer este tipo de tranquilização, então talvez não esteja a prestar atenção suficiente ao que a IA está a fazer — e poderá vir a fazer — ao nosso mundo.

 

Muitos já ouviram dizer que esta nova tecnologia ameaça substituir todo o tipo de trabalhadores, mas essa ameaça, tão real e profunda quanto é, está longe de ser a única. O Departamento da Guerra dos EUA processou uma empresa de IA para garantir que pode criar armas autónomas capazes de matar sem qualquer supervisão humana.

 

A pornografia infantil gerada por IA é hoje uma das categorias de depravação demoníaca online que mais cresce. A versão mais recente da IA da Anthropic, Claude Mythos, não só foi capaz de entrar em praticamente qualquer telemóvel ou computador do mundo durante testes de segurança, como também conseguiu, de forma regular, perceber que estava a ser observada e agir de maneira diferente.

 

Isto não é um problema do futuro. É um problema de agora.

 

Enfrentar os problemas existenciais de hoje

Ao longo dos últimos meses, tive o privilégio de conhecer várias pessoas da Anthropic, incluindo em dois encontros realizados na sede da empresa, em São Francisco, para académicos e líderes cristãos.

 

Durante esses meses, desenvolvi uma amizade com Chris Olah, um dos cofundadores da Anthropic, a mesma pessoa que esteve ao lado do Papa Leão na conferência de imprensa no Vaticano que marcou a publicação da encíclica, apelando a um diálogo crítico e à cooperação entre a Igreja e a indústria da IA.

 

Posso dizer com confiança que ele fala a sério. Há um grande mistério subjacente à natureza daquilo que estão a construir, e as preocupações que Chris e outros têm sobre o que o futuro poderá trazer, à medida que os sistemas de IA se tornam exponencialmente mais poderosos, são precisamente o tipo de preocupações que lhes tira o sono.

 

Os seus receios existenciais, e a sua necessidade de ajuda, sublinham por que razão esta encíclica é tão importante.

 

Fundamentos a considerar em Magnifica Humanitas

Leão constrói o seu argumento sobre três fundamentos que os católicos devem ponderar com cuidado. O primeiro é que algo genuinamente novo está a acontecer. A IA não é apenas uma calculadora mais rápida ou um motor de busca mais inteligente. Segundo a encíclica, ela “desafia por dentro as categorias da Doutrina Social”, de formas que exigem não apenas novas aplicações de princípios antigos, mas o desenvolvimento desses próprios princípios. A dignidade humana enfrenta uma ameaça que nunca antes enfrentámos, e Leão sabe-o.

 

O segundo é que o trabalho deve estar no centro da nossa preocupação. Leão XIV assinou Magnifica Humanitas no 135.º aniversário de Rerum Novarum, a grande encíclica de Leão XIII em defesa dos trabalhadores esmagados pela anterior revolução industrial e tecnológica.

 

Esse aniversário não é um mero ornamento retórico. A nova encíclica insiste que o trabalho é “um bem fundamental para a pessoa, um princípio da atividade económica e a chave de toda a questão social”. Quando os sistemas de IA substituem trabalhadores em massa ao serviço de uma maior eficiência e da extração de mais lucro, isso constitui um ataque fundamental à dignidade humana.

 

O trabalho, diz Leão, não é apenas um instrumento ou uma fonte de rendimento; pelo contrário, “expressa e enriquece a dignidade das nossas vidas”. O Papa chama ao trabalho “uma exigência da condição humana” e cita os bispos dos EUA, que insistem que ele proporciona “uma esfera crucial na qual a identidade é formada, amizades e relações são criadas, responsabilidades práticas são aprendidas e a vocação de cada um é discernida”.

 

O terceiro é que a Igreja tem um papel único e urgente a desempenhar neste momento decisivo da história. Leão cita diretamente o seu antecessor, o Papa Francisco: “Ninguém pode exigir que a religião seja relegada para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem preocupação pela solidez das instituições civis, sem direito a pronunciar-se sobre os acontecimentos que afetam a sociedade.

 

A Igreja é guardiã e promotora de uma tradição de 2.000 anos de reflexão sobre o que são os seres humanos e para que existem. Essa tradição, sobretudo porque já navegou momentos dramáticos deste tipo no passado, é exatamente aquilo de que precisamos neste momento. E o facto de alguns dos investigadores de IA mais importantes do mundo estarem a envolver-se ativamente com ela deve dar-nos ainda mais confiança para agir à luz da nossa tradição.

 

Três pontos de ação da nova encíclica sobre a IA

Mas, concretamente, o que nos está Leão a pedir?

 

Em primeiro lugar, está a canalizar o espírito de São João Paulo II ao exortar-nos a não ter medo de anunciar a boa nova no meio da revolução da IA. “Encorajo todos os membros da Igreja a não terem medo dos desafios presentes”, diz o Santo Padre. A verdade que a Igreja tem para oferecer neste momento histórico “é um dom a partilhar” com o mundo.

 

Em segundo lugar, pede-nos que comecemos por nós próprios. A encíclica regressa repetidamente à seguinte pergunta: esta tecnologia “torna a vida humana na Terra ‘mais humana’ em todos os seus aspetos? Torna-a mais digna do homem?” Essa pergunta é, antes de mais, pessoal. Como estou eu a usar a IA na minha própria vida? Que hábitos está ela a construir ou a destruir em mim? Estou a usá-la de formas que aprofundam a minha atenção e as minhas relações, ou de formas que terceirizam o meu discernimento e empobrecem a minha humanidade? Temos de nos evangelizar a nós próprios antes de levarmos esta mensagem ao mundo.

 

Em terceiro lugar, pede-nos que ponhamos mãos à obra. A imagem bíblica a que Leão regressa vezes sem conta é a de Neemias a reconstruir as muralhas de Jerusalém: cada pessoa recebe a sua própria secção. Cientistas e investigadores. Empreendedores e trabalhadores. Educadores e legisladores. Comunidades de fé. Cada um no seu campo, fazendo aquilo que lhe cabe fazer.

Talvez esteja a ser chamado a organizar um sindicato para trabalhadores na sua escola ou no seu hospital. Especialmente se trabalha numa instituição católica, talvez esteja a ser chamado a perguntar, desde já, se alguém avaliou as ferramentas de IA que a sua instituição está a adotar — e com base em que critérios. A encíclica dá-lhe tanto a legitimidade como a obrigação de fazer essa pergunta. Se ninguém a está a fazer, então talvez esta seja a sua secção da muralha, por onde deve começar.

 

Leão escreve: “A civilização do amor não nascerá de um gesto único ou espetacular, mas da soma total de pequenos e firmes atos de fidelidade.

 

Temos as nossas ordens de marcha. Está na hora de pôr mãos à obra.



[Charlie Camosy | tradução iMISSIO]

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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