A cicatriz, por Tolentino Mendonça

Razões para Acreditar 17 agosto 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Vi estes dias uma fotografia que me comoveu. Conta um episódio simples de uma família simples, do norte de Inglaterra. A fotografia mostra Martin Watts e o seu filho Joey, um miúdo de seis anos de idade, que teve recentemente de passar por uma complexa cirurgia cardíaca. Essa operação deixou no peito da criança uma cicatriz que mede bem um palmo. Quando a viu pela primeira vez, Joey perguntou aos pais se tinha sido ali que o cortaram para lhe consertarem o coração. Os pais explicaram que ele não devia ter medo, que ele era um pequeno grande lutador, que sentiam um orgulho enorme da sua bravura, e que aquela cicatriz simbolizava isso tudo. Mas, mesmo ao mais corajoso lutador, é difícil transportar as próprias feridas, e aos seis anos de idade os olhos desamparados de Joey gritavam isso. Poucos dias depois, Martin Watts — com a cumplicidade da mulher — decide fazer uma coisa que nunca lhe passara pela cabeça: uma tatuagem. Tatuaria no peito o desenho de uma cicatriz, idêntica à do filho. E, de facto, a tatuagem realizada reproduz, com grande realismo, o longo talho vertical avermelhado, em dupla costura, como se pode ver na fotografia em que ambos posam. Nela, o pai abraça o jovem filho convalescente, e o sorriso de um sustenta, protege e expande o sorriso do outro. O amor distingue-se por esta voluntária e interminável capacidade de tornar menos solitários os pesos, os golpes, os contratempos e as feridas com que a vida, em nós, se expressa. E, num tempo como o nosso, em que parece crescer uma incerteza em relação ao humano, e se debatem — como se fossem de todo indefinidas — a natureza e as fronteiras da nossa humanidade, é importante atender à irremovível verdade dos gestos elementares de amor que nos fundam para colhermos o significado disto que somos.

 

O amor distingue-se por esta capacidade de tornar menos solitários os pesos, os golpes e as feridas com que a vida, em nós, se expressa

 

Hoje, por exemplo, convivemos e interagimos com muitas máquinas: desde os velhos frigoríficos, aos computadores, aos telemóveis, às máquinas de multibanco, às portas automáticas ou aos drones. Existe um aparato tecnológico imenso integrado nos nossos quotidianos. Mas há um passo próximo, cada vez mais vizinho, que ocorrerá quando as máquinas forem programadas para interagir com os humanos pretensamente do mesmo modo como nós humanos nos relacionamos uns com os outros. Num jargão que força para se tornar língua comum, começa a falar-se dos robôs como “seres viventes não-biológicos” e avança-se experimentalmente para a chamada “robótica social”, com a reivindicação de que esta se desloque do âmbito da engenharia para o campo específico da sociabilidade humana. Não é preciso ser um especialista para perceber que há uma montanha de questões éticas a enfrentar. Mas é curioso como a “nova ecologia social mista” tenta dirimir as dúvidas fundamentais que qualquer um de nós se coloca. A começar por saber se é aceitável confiar pessoas em situação de vulnerabilidade — como crianças, idosos ou doentes — aos cuidados destes “agentes artificiais”, projetados não só para desempenhar meras ações técnicas, mas para criar também uma dependência emocional e afetiva de substituição. Os mais entusiastas falam de uma “empatia artificial”, argumentando que é certo que não se pode pedir (ainda) à máquina que tenha emoções, mas pode-se esperar que o agente artificial registe as emoções do seu interlocutor humano e adeque positivamente a sua resposta.

 

Diz-se que a última frase escrita por Fernando Pessoa terá sido: “I know not what tomorrow will bring.” Nesta encruzilhada epocal, todos podemos dizer o mesmo. Mas há coisas que sabemos que nos distinguem e distinguirão como humanos. Entre elas está a arte de reparar através do amor as cicatrizes mais irreparáveis.

 

SEMANÁRIO#2435 - 29/6/19]

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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