Busca criativa

Liturgia 19 novembro 2017  •  Tempo de Leitura: 3 min

Apesar da sua aparente inocência, a parábola dos talentos encerra uma carga explosiva. É surpreendente ver que o terceiro criado é condenado sem ter cometido nenhuma ação má. O seu único erro consiste em não fazer nada: não arrisca o seu talento, não o faz frutificar, conserva-o intato num lugar seguro.

 

A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim à criatividade. Não a uma vida estéril, sim à resposta ativa a Deus. Não à obsessão pela segurança, sim ao esforço arriscado por transformar o mundo. Não à fé enterrada debaixo do conformismo, sim ao trabalho comprometido em abrir caminhos ao reino de Deus.

 

O grande pecado dos seguidores de Jesus pode ser sempre o não arriscar a segui-lo de forma criativa. É significativo observar a linguagem que se utilizou entre os cristãos ao longo dos anos para ver em que temos centrado com frequência a atenção: conservar o depósito da fé; conservar a tradição; conservar os bons hábitos; conservar a graça; conservar a vocação...

 

Esta tentação de conservadorismo é mais forte em tempos de crise religiosa. É fácil então evocar a necessidade de controlar a ortodoxia, reforçar a disciplina e a normativa, assegurar a pertença à Igreja... Tudo pode ser explicável, mas não é com frequência uma forma de desvirtuar o Evangelho e congelar a criatividade do Espírito?

 

Para os dirigentes religiosos e os responsáveis das comunidades cristãs pode ser mais cômodo «repetir» de forma monótona os caminhos herdados do passado, ignorando as interrogações, as contradições e as abordagens do homem moderno, mas de que serve tudo isto se não somos capazes de transmitir luz e esperança aos problemas e sofrimentos que sacodem os homens e mulheres dos nossos dias?

 

As atitudes que temos de cuidar hoje no interior da Igreja não se chamam «prudência», «fidelidade ao passado», «resignação»... Levam mais bem outro nome: «busca criativa», «audácia», «capacidade de risco», «escuta do Espírito», que faz tudo novo.

 

O mais grave pode ser que, à semelhança do terceiro criado da parábola, também nós acreditemos que estamos respondendo fielmente a Deus com a nossa atitude conservadora, quando na realidade estamos defraudando as Suas expectativas.O principal trabalho da Igreja hoje não pode ser conservar o passado, mas sim aprender a comunicar a Boa Nova de Jesus numa sociedade sacudida por mudanças socioculturais sem precedentes.

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