Carta II

Crónicas 02 dezembro 2019  •  Tempo de Leitura: 2 min

Querida Mãe,

 

Escrevo-Te para te pedir mais um de muitos pedidos.

 

Peço-Te que não me deixes cair nas mãos da multidão, que olha para mim com o olhar desconfiado por me ver seguir outro caminho. Vi e reparei, que ao longo de um caminho que me obrigaria a sacrificar a dignidade, a humanidade que me foi oferecida como dom pelo meu Pai, ao longo de um labirinto do qual alguns apenas saem, ao longo de uma animalização cega, estaria apenas a fama e a glória e, morrendo, o esquecimento.

 

Porque viveria eu infeliz de ansiedade, doente de ambição, sedento de aprovação, se o prémio é apenas um curto espaço de alienada glória? A ninguém mudou a vida este ou aquele por terem bom aspecto.

 

Escrevo-Te, minha Mãe, porque me esqueço da minha missão e porque por vezes ouço os berros daqueles que querem mais e mais rápido. Não quero ser ensinado por aqueles que nada sabem e que, no princípio da sua idade recente vêm dar conselhos de nada. Não quero ser aplaudido por aquela multidão que tem medo de não aplaudir, de bater o pé e de não concordar, essa multidão que deixou o mundo enlouquecer por ter medo de admitir que vivemos num tempo tão pouco humano que as crianças recém-nascidas são assassinadas e atiradas ao lixo. Mãe, indefesas e atiradas ao lixo. Não quero ser inspirado e influenciado pelos artistas que têm o complexo da inteligência, como são burros que nem portas sem alma, gostam de decorar regras e de dizer o que é verdadeiro e falso e depois admiram-se de não haver mais beleza feita pelas mãos humanas. Minha Mãe, amo os meus irmãos e irmãs, mas a multidão, esse corpo formado por todos aqueles que pensam sermos iguais, aqueles que pensam que podem conhecer alguém pelo seu ofício, essa multidão causa-me um estranho sentimento.

 

Quero ser levado por Ti, ensina-me Tu a andar, a falar, a sorrir, a chorar. Ensina-me Tu a escrever, a amar tudo e todos, a aceitar o meu caminho. Ensina-me a ser simples e leva-me a mim e a todos aqueles que Te pedirem. Guarda-nos Nossa Senhora, àqueles que te querem seguir na sua imperfeição. Só pela Tua mão chegaremos a Teu lado.

Tem 25 anos. É músico e trabalha numa casa de fados como guitarra portuguesa. A terminar o curso de estudos gerais na faculdade de letras. 

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