Uma carta que podia ser de muitas crianças

Crónicas 23 outubro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Olá mãe. Olá pai. Estou a escrever-vos porque não vos consigo encontrar. Ontem não te vi, pai, estás em Munique há uma semana. Não sei muito bem o que fazes aí, mas sei que estás a trabalhar. Às vezes, lá na escola, os meus amigos perguntam-me o que é que tu e a mãe fazem. Eu respondo que só sei que vocês trabalham. E muito. Recebi o teste de Estudo do Meio. Tive satisfaz. Fiz o teste de Matemática e não correu nada bem. Mas também não faz mal, pois não? Vocês estão sempre a dizer que as notas não são assim tão importantes desde que eu esteja bem e feliz.

 

Mãe, para a semana temos que levar um bolo assustador. É o Halloween e João Pedro já me disse que a mãe dele ia fazer um bolo de chocolate com aranhas por cima. E comestíveis. Ajudas-me a fazer um qualquer? Depois podíamos decorar com aquelas gomas esquisitas que parecem dedos!!

 

Outra coisa, no fim de semana tenho a festa da Margarida. Vai a minha turma toda e eu também gostava de ir. Temos que ligar à mãe dela a confirmar. E tem que ser até amanhã.

 

Hoje estou um bocado preocupado com um amigo meu. Há uns miúdos que lhe batem e lhe tiram as coisas da mochila. Estão sempre a chateá-lo. Hoje dei um pontapé a cada um deles porque já estava farto de os ver a fazer tanta coisa estúpida. Há um pequeno probleminha… no meio daqueles pontapés todos (bem, não foram assim tantos) o António partiu os óculos e disse que agora a minha mãe e o meu pai é que iam pagar…também tenho aqui um recado da minha professora que diz que o meu comportamento não pode continuar assim. Não percebo isto. Eu estava a ajudar o Vasco. Ele não tem coragem de dar pontapés a ninguém… Dei eu! Fiz bem, não fiz, mãe? O que achas pai?

 

Agora que penso melhor nisso, talvez não tenha resolvido as coisas da melhor maneira. Agora já está.

 

Mãe, amanhã é quinta-feira. Prometeste que era amanhã que me lias aquela história dos monstros que invadem a escola. Mas não podes estar a mexer no telemóvel nem no tablet enquanto fazes isso. Assim não conta!

 

Pai, tens que me ensinar a rematar bem à baliza. Nunca consigo fazer isso bem e, por causa disso, não me deixam jogar. Estou farto da escola. Gostava mesmo de não ter que vos escrever esta carta. Mas o que interessa é que vocês estão a tentar construir o meu futuro, não é?

 

Só ainda não percebi uma coisa. Se ainda falta tanto para o futuro porque é que não podemos jantar todos juntos hoje?

 

Bem, tenho que ir. A avó está a chamar para jantar. Até amanhã pai! Até amanhã, mãe!

 

Esta carta é ficção. Mas podia não ser.

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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