Título atraente

Crónicas 19 outubro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Outro dia, cruzei-me com o fã número um dos meus escritos. Só tenho este. O seu cabelo castanho ondula até aos pés, chama-se José e desloca-se para todo o lado em cima de um cavalo alado a que deu o nome de Xanto.

 

O José repreendeu-me pelo meu último artigo. De sobrolho carregado proferiu as palavras que o seu peito mandava:

 

“Irrepreensível Francisco, filho de Nuno, magno engenheiro,

Não poderás levar no errado sentido as palavras que

O peito me enviar, conquanto sejam de verdadeira verdade.

Saberás que a glória do homem moderno não se distingue da fama

E do renome imorredouro que outros homens levarão nas suas bocas

Para que a posteridade revele quem viverá e quem será esquecido.

 

Saberás também que a glória se divide em duas partes:

A profundidade de um bolso cheio e a destreza da palavra ágil!

Sendo o teu bolso profundamente vazio, o que te resta senão a palavra?

 

Com a palavra poderás atrair o distraído, chamar a atenção

Ao indiferente, ensinar o ignorante, pensar o pensador.

Talvez assim consigas o renome imorredouro que todos procuram:

Usa as palavras que o teu peito envia à tua mente! É essa a tua espada!

 

Por isso o meu coração questiona o teu:

Porque não crias títulos mais atraentes para que

O outro seja levado a querer ler-te?”

 

Ouvi a reclamação e anui sem responder. O José assobiou ao Xanto e ambos voaram para casa. Eu fui pensar para casa. Fiquei parado no meu pensatório durante uma semana. Enviei-lhe a minha pomba zarolha com um convite para me visitar.

 

Quando chegou, foi isto que lhe disse:

 

“Meu mais estimado amigo José de longos cabelos,

Se antes ouvi o discurso que me ofertavas não poderás,

Por ventura, repreender-me da resposta pensada e sincera,

Se tal te interessar e for proveitoso para ti.

Antes de mais, renuncio o renome imorredouro.

Não me interessa qualquer fama, apesar de a minha

Superfície humana, por vezes, me impelir nesse sentido.

A árvore que deu fruto e alimentou várias famílias,

Não a distinguimos. Mas àquele que se alimentou a si próprio

Com os outros olhares aplaudimos. Não faz sentido.

Precisamos da árvore que desprezamos

E viveríamos perfeitamente sem o aplaudido

Que idolatramos.

 

Talvez tenha acontecido um dolo funesto.

O aplaudido, que não é essencial,

Tornou-se atraente e enganou-nos.

As nossas cabeças procuram o que não têm:

Não têm a verdade (que muitos dizem ensinar)

Não têm a felicidade (que muitos dizem vender)

Não têm controlo sobre nada (que muitos dizem oferecer).

 

Constantemente somos atraídos por títulos atraentes

Que dizem ter coisas tais. Somos constantemente enganados.

Por desespero repetimos o erro ao ponto de nos tornarmos

Insensíveis a esse mesmo.

 

O meu grande título virá quando a minha alma se separar

Deste corpo, desta árvore igual a tantas outras.

Quem quiser que apanhe um fruto.

Não me peças, José de distinta cabeleira,

Para dourar frutos, para os apressar.

Que eles sejam verdadeiros e que o seu sabor,

Mesmo que pequenino, espelhe Deus. Nada mais.”

Tem 25 anos. É músico e trabalha numa casa de fados como guitarra portuguesa. A terminar o curso de estudos gerais na faculdade de letras. 

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