Tragam-me esperança, por favor!

Crónicas 20 março 2019  •  Tempo de Leitura: 1 min

Queimaram-nos as pontes floridas que trazíamos dentro do peito. Deixaram-nos sem panos brancos para hastear as velas do nosso barco e sem remos para lhe traçar um rumo que nos faça ganhar a viagem. Substituíram os rios que nos corriam cá dentro por terras que nunca sonharam, sequer, com água.


Levaram-nos os sonhos, espreitaram-nos e riram-se deles. Deixaram-nos sem paisagens de onde se podia ver tudo. Encheram-nos os olhos de águas turvas e embalaram-nos ao som de armas, fogo, choro e lágrimas.

 

Queimaram-nos as rédeas que nos puxavam para diante. Seguimos agora sem norte e sem direção. Roubaram os pássaros ao Céu e, agora, já ninguém se atreve a olhar para cima.

 

Acorda.

 

Acorda depressa. Era só um sonho. Ainda está tudo bem. O planeta ainda está pintado das mesmas cores. As pontes estão em flor dentro do peito. Os panos brancos estão prontos e lavados. Os rumos estão por estrear. Os rios deslizam sobre a terra. Os sonhos continuam solenes e nossos. As paisagens continuam limpas e as águas são claras e transparentes. Embalam-nos ao som de beijos, risos, abraços e sossegos. As rédeas fizeram-se fortes. Seguimos agora. Os pássaros voam lá em cima e dentro de nós, como sempre.

 

Acorda depressa. Era só um sonho.

 

Ainda está tudo bem?

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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