O que é escutar?

Crónicas 13 fevereiro 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Num dos escritos de Jean-Luc Nancy, aquele filósofo recorda-nos uma coisa em que não pensamos: como a sonoridade tem, afinal, um papel decisivo não apenas na comunicação, mas também na semântica das palavras. É uma verdade: antes de serem sentido, e para chegarem a ser sentido, todas as palavras ditas tiveram de ser som. Um exemplo que Nancy avança é o do próprio termo francês para palavra, mot. Mot deriva do latino muttum, que significa grunhido, e que está também na origem de “murmúrio”, esse efeito sonoro que assinala a passagem de um sopro entre os lábios. No termo mot podemos, por isso, escutar aquele mesmo “mu” que surge duplicado no termo murmúrio, como que a dizer-nos que a nossa linguagem oral é indissociável da intimidade extrema de uma voz e que tudo o que temos para escutar está nesse sopro, nesse jogar fragilíssimo de vida. Mesmo na etimologia do nosso termo português “palavra” podemos anotar esse vestígio. “Palavra” provém do termo latino parabola, contudo a sua sonoridade não está distante de labrum/labra, que significa lábios. Em todas as palavras que proferimos a marca dessa primordial passagem continua a persistir, portanto.

 

Sendo assim, o que é escutar? O que é gerir a torrente de palavras que captamos a cada momento? Certamente passa por ativar os códigos de decifração de sentido. Mas não devemos esquecer que as palavras não se descobrem apenas no que designamos por sentido. Não as compreenderemos verdadeiramente se formos indiferentes ao seu som, se não aproximarmos o ouvido desse estremecimento que cada ser humano gera movendo os lábios, desse infinitesimal sopro que emite o tremido (fortuito, vacilante, vibrante) e as suas modulações, pois dessa maneira as palavras narram a resiliência, o sofrimento, a reparação, a alegria e o segredo daqueles que as pronunciam.

 

Nancy defende que a nossa razão de falantes é, no fundo, dar a razão do mundo. Mas — não nos iludamos — é no precário da voz que a razão que damos do mundo ressoa; é na fricção que a voz desenvolve contra si mesma que essa razão se mostra; é nesse audível quase inaudível que essa razão se descola; é no murmúrio, no sussurro, no suspiro, no vagido, no gemido que ela se torna acessível. Claro que é importante o que dizemos. Mas precisamos também de desenvolver uma sensibilidade ao acontecimento do dizer em si, essa espécie de respiração sem mais, onde a vida se colhe numa nudez e numa intensidade originais.

 

A psicanalista Françoise Dolto recorria, por exemplo, a um método curioso no acompanhamento que fazia de crianças: não se limitava a propor-lhes desenhos ou jogos, como é o habitual, mas praticava, interessada, a escuta e a interlocução com a linguagem infantil. Porque dizia: quando fica simplesmente chalreando, numa emissão sonora toda particular, a criança imagina/deseja a presença de outra pessoa. E imita o que lhe parece ser a linguagem dos adultos, repetindo-a de uma forma tão modificada que a semântica se torna abstrata: só o som permanece. O que se pode registar é a vibração. Mas, com isso, não deixa de exprimir-se e de esperar uma resposta para aquilo que emitiu... Muitas vezes os adultos ignoram que a criança está em busca de um intercâmbio. Os balbucios e fonemas são um modo de prolongar a presença dos outros. Servem à criança não só para comunicar, mas para comunicar-se. Mais tarde, muito mais tarde, no nosso percurso de falantes, continua a ser assim, mesmo quando nos sentimos a naufragar num mar de palavras suspensas e numa comunicação que nos parece inevitavelmente inacabada.

 

SEMANÁRIO#2415]

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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