A vida a nascer

Crónicas 12 janeiro 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Não é só o ano que começa. Qualquer que seja a nossa idade ou a estação em que nos encontremos a viver, a verdade é que somos, até ao fim, uma coisa no seu começo, a verdade é que habitamos unicamente começos. Nada mais. Não vimos outra coisa enquanto estivemos aqui. A nossa estirpe é a dos recém-nascidos, portanto. Uma das mais belas frases que conheço pertence a uma página bíblica, a Primeira Carta de Pedro. E a frase diz (ou ordena) o seguinte: “Como crianças recém-nascidas, desejai” (1Pe2,2). Somos, mesmo com dezenas, com centenas de anos e séculos em cima, “crianças recém-nascidas”. E devemos muito à misteriosa fragilidade dos recém-nascidos que, no fundo, ainda é a nossa, que, sabemos, será sempre a nossa. O nascimento deve ser reconhecido como estrutura fundante da vida, a sua irremovível arquitetura primária, e não apenas como uma das suas formas ocasionais, furtivas e possíveis. Quanta sabedoria existe naquele poema de Lao Tsé: “Quando os homens ingressam na vida são tenros e frágeis; quando morrem são hirtos e duros. Por isso os hirtos e duros se tornam mensageiros da morte e os tenros e frágeis são os mais credíveis mensageiros da vida.” Gosto de pensar que o verbo nascer é um verbo incessante, que faz de nós “credíveis mensageiros da vida”. Se pensarmos bem, conjugamos o verbo nascer milhares de vezes ao longo do nosso percurso. E mesmo aquelas experiências que, pela sua exigência, esforço ou sofrimento, não percebemos logo como itinerários de nascimento, se revelam depois uma etapa desse parto perene que é a nossa condição. A vida é fluxo, circulação espantosa, sucessão no aberto. A vida é interminável ação de nascer. Há um paciente e necessário trabalho a realizar para passar da tentação de fixar a vida em momentos determinados, cristalizando-a em imagens tanto euforicamente utópicas como desalentadamente distópicas, à capacidade de hospedar a correnteza da vida como ela nos assoma, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Um amor sem expectativas, nem julgamentos. No fundo, aquele amor que não nos coloca a amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera, mas a amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes na completa impotência ou na extrema vulnerabilidade de vida recém-nascida. Por isso, felizes aqueles que cultivam mais o espanto do que a deceção ou os que exercitam mais a aceitação generosa do que o ressentimento. Felizes os que no incompleto e no inacabado são capazes de ver a insinuação de uma promessa, mais do que uma lacuna. O importante é assim saber, com uma força que jorre do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta e não como a fantasiamos. Como recordava Françoise Dolto, a nossa hora de maturidade só chega “quando, como qualquer outro ser humano, sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar o nascimento de que somos portadores”.

 

Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provámos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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