É complicado ser simples!

Crónicas 13 junho 2018  •  Tempo de Leitura: 2 min

Não são poucas as vezes que ouvimos falar de simplicidade com algum desdém. Com algum desprimor. Com algum desamor, até.


“Isso, não quero. É demasiado simples…”.


A ideia do que é simples é frequentemente associada ao que tem menos valor, ao que é pouco, ao que não chega nem é suficiente. Claro que a simplicidade caminha de mãos dadas com o pouco e com o menos. Mas isso não tem que ser, necessariamente, uma desvalorização. A simplicidade, na sua raiz, vai a par e passo com o essencial. E é nas atitudes pequenas e pouco visíveis que podemos encontrar a verdade de cada coisa. A verdade de cada pessoa.


Devíamos ser mais apaixonados pelo simples. Devíamos entender a frase “eu gosto de pessoas simples” como um dos melhores elogios que alguém poderá receber. Devíamos reparar melhor (e com mais amor) nas migalhas dos dias. Nos detalhes. Nos pormenores. No que não está à distância de um clique. Gostava que tivéssemos a coragem de reparar no que faz a diferença em cada dia. E o que faz a diferença nunca é o que se vê melhor. É o que está nos bastidores. É o que nos sustenta o ânimo para continuar a caminhar.
Além do desafio de reparar na simplicidade de cada coisa, somos confrontados com um desafio dez vezes maior. O de sermos simples. O de conseguirmos ser brisa fresca quando tudo arde. O de conseguirmos chamar a atenção dos outros para o que é bom. O de conseguirmos ser luz que fere as nuvens e as dissipa. O de conseguirmos ter paciência e calma quando todos à nossa volta estão em desassossego. O de conseguirmos retirar, de cada acontecimento, o que realmente importa. E o que realmente importa nunca é (só) o que nos aconteceu.


É complicado ser simples. Mas vale a pena insistir na tentativa. Na vontade clara de não compactuar com complicações desnecessárias e diminuidoras de bem-estar e de alegria. Vale a pena descomplicar. Relativizar. Diminuir o que me faz sentir o melhor e maior do mundo. Aumentar e potenciar o que me faz querer ser melhor, sem a arrogância de querer ser perfeito.


É complicado o caminho de ser simples. Mas dizem que quem chega ao fim desse trilho, nunca mais volta para trás.

tags: Marta Arrais

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail