Há uma última vez para tudo

Há uma última vez para tudo. Não há?

 

Há. Há mesmo uma última vez para tudo. Os fins que damos aos capítulos das nossas histórias de cada dia são decisões nossas. Serão?

 

São. Somos. És tu quem decide. Mas…Tudo?!

 

Sim. Mas até o tamanho do que é TUDO pode ser relativo. O coração de cada um tem medidas específicas. Ninguém nasce com um coração igual ao de outra pessoa. Há corações muito velhos dentro de idades muito pequeninas. Há corações viciados na alegria e na juventude e podem estar dentro de idades feitas de muitos longes e de muitos quilómetros. Deixemo-nos de meias palavras.

 

Há uma última vez para tudo. As últimas vezes de cada avanço, ou de cada ferida no percurso, são sempre as mais importantes. É no fim do que nos acontece que fazemos frente ao que realmente somos. Quando o coração que temos nos avisa que é bem capaz de estar para vir mais uma última vez, paramos. Porquê?! Paramos porque temos muito medo das últimas vezes.

 

Da última vez que nos vemos. Da última vez que falamos. Da última vez que pensamos. Da última vez que teremos a responsabilidade de um abraço. Da última vez que vemos com nitidez. Da última vez que calçamos os sapatos de viver. Da última vez que vestimos a roupa de sonhar. Da última vez que nos permitimos fazer o que era impossível. É essa. É esta a verdade. Temos um medo gigantesco das últimas vezes. É esse medo que nos atropela e nos faz viver melhor. É esse medo que nos faz recuar com tudo o que julgamos ter. Quando pesamos a possibilidade das últimas vezes, olhamos melhor para o que devemos, de facto, VER.

 

Há uma última vez para tudo. E temos tanto medo das últimas vezes. Pensamos nelas quando nos espreitam e assaltam mas não conseguimos afastá-las de nós quando vivemos de cara lavada. As últimas vezes não nos levam a lugar nenhum. Não?! Levam, sim. As últimas vezes levam-nos a fazer caminho, a recortar falhas e fazer origami com elas. As últimas vezes levam-nos aos lugares onde nunca antes tínhamos tido a coragem de ir.

 

Conheço Alguém que nos ensinou que as últimas vezes não são fins. Conheço Alguém que me ensinou que as últimas vezes são princípios por nascer. Conheço Alguém que sabia que aquele seria o dia em que os seus Amigos diriam que não o conheciam de parte alguma. Mesmo assim, não teve medo de todas essas últimas vezes. Sorriu quando as viu chegar. As últimas vezes todas, em fila.

 

Não precises das últimas vezes para dizer o que é preciso. Para fazer o que é preciso. Para amar o que é preciso. A soma para a medida do coração de cada um faz-se assim:

 

Se não soubesses que haveria uma última vez para cada coisa, farias o quê?

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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