Ser pai é ser «porto seguro»
Uma das experiências mais significativas para mim é, sem dúvida, o dom de ser pai. A gravidez da minha esposa abriu uma série de certezas e interrogações tanto individuais como familiares, assim como lançou muitos sonhos sobre como será o nosso filho, o seu sexo, a sua saúde, o seu feitio, a sua fisionomia. Acompanhei sempre a minha esposa nas consultas pré-natais e foi com grande emoção que vi a primeira ecografia, o batimento frágil mas ritmado do coração da minha filha. Relembro igualmente com alegria o primeiro encontro com ela, na porta do bloco operatório, onde a fui buscar após o parto por cesariana. Foi sem dúvida uma experiência única, profunda, criadora e possibilitadora de um conjunto de sentimentos e emoções que ofusca quase toda a racionalidade do ser humano. Aqui as palavras encontram grandes limitações e ficam muito aquém do que foi vivido naquele momento, como certamente qualquer pai já o sentiu.
Ao longo destes três anos, que tem a minha filha, posso dizer que ser pai tem sido uma das melhores experiencias. Perante a fragilidade desta nova vida que precisa de ser acolhida e protegida surge a admiração e o espanto da grandeza da vida, dom de Deus, e a alegria de poder ser um colaborador. Ser pai é gerar, é suprir, é proteger, é amar, é promover, ser pai é possibilitar segurança e estabilidade. O dom da paternidade tem-me feito experimentar a plenitude humana, ao mesmo tempo em que se sente o medo de não ser suficientemente bom e apto para cuidar, ensinar, proteger… Em suma, é sentir doer em si os limites que se têm e provar a delícia de gerar uma nova vida, vê-la desabrochar, crescer e sentir-se maravilhado com essa dádiva.
Ser pai nos dias de hoje é, certamente, o maior desafio de qualquer ser humano, pois não há receitas, livros de instruções ou manuais que revelem a "arte" de ser pai… mas que a grande aventura não pode ser frutífera sem muito amor, alguma intuição, bom senso e uma boa dose de criatividade. A responsabilidade de educar uma criança, sem qualquer experiência anterior, é gigantesca e leva-nos, por vezes, ao medo/receio de fracassar. Contudo, a alegria, a felicidade e o encanto que o dia de amanhã será risonho para ela é superior a toda a incerteza do presente.
Assim, ao acompanharmos o seu crescimento e reações, cada dia é uma nova surpresa, recheado de um amor coberto de compreensão, mas firme quando necessário, saber dizer "não" na hora certa, "negar" quando for preciso e "renunciar" em prol do seu crescimento e felicidade. Assim como não há mar sem ondas também não há vida sem dificuldades, mas estou consciente que o que me manterá na rota certa será o amor, o carinho, o respeito, o sonho de família e o desejo de um futuro feliz para a minha filha. Sou pai, mas, à medida que o tempo passa, preciso de me transformar num verdadeiro pai, isto é, um "porto seguro", para que a minha filha possa sempre ter certeza de que pode lançar a sua âncora com total confiança, sabendo que ali estará a salvo das tempestades e intempéries do tempo, podendo sempre sentir que estará em terra firme. Ao olhar para a minha filha, tenho que igualmente ter consciência de que, apesar de carregar os meus genes, e muitas das minhas características, seja nos seus traços, andar, olhar, modo de falar ou mesmo em tiques, também é uma filha muito amada de Deus, parecida com Deus, e que, como tal, deve ter a sua individualidade respeitada e estimulada, assim como os seus sonhos e aspirações considerados. Tenho a consciência de que estou a semear e anima-me a esperança de um dia podermos colher.
[por Abel Dias, Viseu]