A incrível verdade na era da pós-verdade

CineCartaz 04 novembro 2018  •  Tempo de Leitura: 4 min

Atirei-me a ver A incrível verdade, o primeiro filme de Hal Hartley. Tinha-o visto há mil anos e não pensava nele aí há uns quinhentos, mas agora, não sei porquê, deu-me vontade de regressar àquele universo. Mudei de casa, pode ter a ver com isso. Uma casa nova traz consigo uma ideia de reinvenção da vida e, se calhar, sem me dar conta, pôr-me a ver um filme dos meus vinte anos faz parte desse recomeçar. Ou então é só nostalgia de cota. Nelson Rodrigues disse que “a arte da leitura é a da releitura”; pode ser que eu esteja a perceber isso como espetador. De qualquer forma, pensando bem, talvez nunca tenha visto os filmes de Hartley — revi-os desde sempre.

 

 

 

Durante os loucos anos noventa, o meu ortónimo de todos os dias andava disfarçado de estudante de direito enquanto o meu heterónimo de todas as folgas se sentava a ver filmes, uns atrás dos outros, na Cinemateca, no King, onde houvesse autores. Devo ter visto o Homens simples de Hartley umas dez vezes ou mais. Não é figura de estilo; se exagero, é para baixo. Era mais do que cinefilia, era algo ao nível do ritual religioso. Pode dizer-se com propriedade que, nessa altura, eu ia “religiosamente” ao cinema. Sabia os diálogos de cor e esperava por certa panorâmica, aquele travelling, aquela frase cómica, com o coração nas mãos, como um poeta do século dezanove ansiando o instante mágico em que a folha de outono cai no verso. Esse meu excesso “romântico”, aliás, pode ajudar a explicar o facto de eu ter deixado de ver estes filmes durante tanto tempo. Desinteressei-me depois de A rapariga de Monday: uma ficção-científica que o cineasta americano fez em resposta a Alphaville de Godard mas que se revelou aos olhos deste fã europeu um fracasso nem sequer interessante (para parafrasear uma personagem de Flirt). E o King desapareceu, e os “filmes de autor” perderam espaço nas salas, e os DVDs aburguesaram a cinefilia, e o cinema mudou…

 

Este A incrível verdade conta uma história quase convencional: Audry, uma estudante inteligente e perdida (interpretada por Adrienne Shelly), anda obcecada com a possibilidade de um apocalipse nuclear; Josh, um mecânico inteligente e enigmático (interpretado por Robert Burke), sai da prisão para regressar à sua terra e ao local do crime; os dois encontram-se e apaixonam-se, mas o mundo é uma mentira a vencer. Disse “uma história quase convencional”, e aí está uma via para chegarmos ao que distingue o toque de Hartley: o lado “quase” deste cinema. Um jeito de evocar, citar, atirar para o ar, não se preocupando demasiado em fechar o desenho; um modo “quase” que desconcerta mesmo quando acerta. Falo de A incrível verdade mas também de Trust, Homens simples, Amateur ou Flirt: filmes quase realistas e quase absurdos, quase distanciados e quase sentimentais, quase palavrosos e quase musicais, tão estranhos e tão felizes. Escreve Paul Valéry: “A pergunta ‘Qual é o fim da arte?’ equivoca-se acerca do tipo de surpresa digna da arte. As surpresas finitas não são necessárias.” Este cinema de Hartley parece saber isso e escolher, contra a cartilha do bom contar, um caminho de histórias esburacadas, notícias que caem de pára-quedas e suspensões irrazoáveis, como forma de se abrir, precisamente, às “surpresas infinitas”. (Dei-me conta de uma, por exemplo, em A incrível verdade, passados estes anos todos: o que há de “pecado original” na historinha de Josh e Audry.)

 

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