Conto: O menino de Nazaré

Conto 15 janeiro 2020  •  Tempo de Leitura: 16 min

Era uma vez um menino que se chamava Jesus. Os seus pais, que tiveram que emigrar quando ele ainda era bebé, quando se aperceberam que as condições de vida do seu país natal tinham melhorado, decidiram regressar e foram viver para uma pequena cidade da Galileia chamada Nazaré. Apesar da ocupação do Império Romano, acreditaram que valia a pena voltar.

 

Nazaré estava situada num alto vale entre as montanhas, a uns 400 metros acima do nível do mar e, devido à sua localização privilegiada, beneficiava de umas belíssimas paisagens. Era uma terra sem grande relevância na região, apesar de haver algumas rotas comerciais nas proximidades e de estar a pouco mais de uma centena de quilómetros de Jerusalém.

 

O Jesus tinha três anos quando começou a brincar nas praças e a calcorrear as ruas da cidade pelas mãos dos pais. A sua mãe chamava-se Maria, tinha nascido ali e era conhecida de toda a gente pela sua bondade e alegria. O pai, de nome José, era também popular por aquelas bandas, pois era um homem afável e justo e o seu talento na arte da carpintaria era reconhecido por quase toda a gente.

 

Uma das coisas que o Jesus mais gostava de fazer era ir para casa dos avós. Muitas eram as vezes em que passava o dia inteiro com Joaquim e Ana, os avós maternos, ou com Jacob e Heli, os avós paternos. José e Maria queriam muito que o filho herdasse dos avós a sua sabedoria, humildade e fé e, por isso, sempre que se proporcionava, arranjavam maneira de se encontrarem e estarem juntos, pois os benefícios recíprocos eram muitos.

 

Os avôs gostavam de passear orgulhosamente o netinho pelas ruas e vielas da cidade, apresentando-o a todos os amigos e vizinhos e adoravam levá-lo às montanhas para correr e fazer jogos tradicionais. Por sua vez, as avós gostavam mais de lhe contar histórias junto à lareira ou enquanto lavavam a roupa no tanque do quintal e regozijavam-se ao preparar-lhe bolos e petiscos com as iguarias mais populares da região. Mas o que era comum a todos era a crença em Deus e, por isso, muitas vezes, rezavam com o neto e falavam-lhe da esperança de Israel na vinda do Messias prometido pelos profetas.

 

Apesar de os pais do Jesus sentirem que ele era um menino especial, eles quiseram que ele fosse uma criança como todas as demais e a verdade é que, ao longo dos primeiros anos de vida, era bem notório que crescia fisicamente e amadurecia no seu carácter. Comia, dormia, jogava, brincava e divertia-se como qualquer outro menino da sua idade. Até aos cinco anos, a mãe, a par das tarefas domésticas, foi ensinando-o a ler, a escrever e a rezar, enquanto o pai procurava colaborar no que fosse preciso na vida familiar e fazer os trabalhos em madeira que lhe encomendavam, providenciando o pão para a mesa.

 

Entre os muitos miúdos com quem o Jesus brincava, havia dois irmãos gémeos que eram muito especiais. Chamavam-se Nathan e Esther e viviam mesmo ao lado da sua casa. Ao longo dos anos, foram-se tornando grandes companheiros e confidentes e não se largavam por nada deste mundo, partilhando tudo quanto tinham e eram. Com eles, o Jesus aprendeu o que eram os valores da amizade, da gratuidade, do respeito, do perdão, da justiça e, ao fim e ao cabo, o que era amar desinteressada e desmedidamente, mesmo que isso implicasse dar a própria vida pelo outro.

 

O Jesus gostava muito de ajudar a sua mãe nos afazeres domésticos e estava sempre a pedir-lhe que o deixasse também limpar o pó da casa e estender a roupa na relva junto ao riacho. Também gostava muito de observar o pai a trabalhar na oficina e facilmente foi aprendendo algumas técnicas da construção de bancos, mesas e berços de madeira.

 

Apesar de o Jesus ser um rapazinho igual a tantos outros, Maria e José ficavam muitas vezes impressionados com a curiosidade que evidenciava e com as mil e uma perguntas que ele fazia sobre tudo e mais alguma coisa. Procuravam sempre responder-lhe com o que sabiam sobre a natureza, os animais, a sociedade, a família, a política, a história, os romanos, a religião e muitas outras realidades, mas, a verdade é que ele estava sempre ávido de conhecimento e parecia nunca estar completamente satisfeito com o que lhe diziam. José foi assumindo a responsabilidade direta na educação intelectual e religiosa do Jesus e, paulatinamente, foi sendo capaz de falar, ler e escrever em aramaico, grego e hebraico.

 

Pelos seis anos, a visita dos tios Zacarias e Isabel e do primo João, marcou indelevelmente o Jesus. Como a viagem fora longa e cansativa, José, Maria e o Jesus ofereceram as suas próprias camas para que ficassem bem hospedados durante o tempo que quisessem. Foram uns dias muito especiais pois a última vez que Maria tinha estado com a prima, ainda estavam as duas grávidas e, agora, conheciam os sobrinhos pela primeira vez.

 

Mas mais singular foi o encontro entre os primos, pois a proximidade da idade proporcionou muitos pontos de contacto em termos de interesses, conversas, brincadeiras e jogos. Os dois rapazes divertiram-se muito como se já se conhecessem desde bebés e muitas foram as aventuras que viveram com a miudagem da cidade, em especial com os gémeos da casa ao lado.

 

A verdade é que as conversas entre os adultos e os pequenotes se tornaram, aos poucos, em autênticas aulas de História, Sociologia e Religião e todos teciam as suas considerações sobre a forma como os Romanos exerciam o seu poder por aquelas bandas e sobre as tradições judaicas dos ritos do Sabat, os sermões da sinagoga e as mais importantes festas e comemorações. Os dois primos não se cansavam de fazer perguntas e dar as suas opiniões também e queriam saber tudo sobre a Festa da Páscoa, a Festa dos Tabernáculos, os Dez Dias de Arrependimento, o Dia do Perdão, a Festa das Luzes, entre muitas outras celebrações.

 

A partida dos tios e do primo deixou o Jesus muito triste, pois tinham sido uns dias vividos intensamente em família e as brincadeiras e aventuras com o João tinham sido inolvidáveis. A forma que apaziguar as saudades que o primo deixara foi a promessa de brevemente serem eles a visitar a casa dos tios.

 

Nos meses seguintes, começou a intrigar os pais do Jesus que ele, por vezes, torcia o nariz em relação a vários aspetos dos rituais sagrados e dizia que mais importante do que o cumprimento exterior desta ou daquela forma de estar ou fazer a oração, era a intenção interior do coração e insistia que, quando se dirigia a Deus, lhe chamava de papá e que gostava de lhe falar no silêncio do seu quarto com a mesma naturalidade, espontaneidade e confiança com que falava com a família e os amigos.

 

Nos anos seguintes, o Jesus frequentou a escola da sinagoga de uma cidade próxima e estudou os rudimentos do Livro da Lei e memorizou os seus ensinamentos mais profundos. Graduou-se e tornou-se um cidadão responsável da comunidade de Israel, com todos os direitos e deveres que isso implicava.

 

Como percebia bastante bem várias línguas, quando algum visitante proeminente estava de passagem por Nazaré, pediam-lhe que lesse as sagradas escrituras em hebraico para os fiéis reunidos na sinagoga nos serviços regulares de sábado e também era frequente conversar em grego com muitos viajantes, comerciantes e condutores de caravanas que passavam por aquela região.

 

Sabia cada vez mais do ofício da carpintaria e gostava de acompanhar o pai por todo o lado para levar as moveis que ajudava a construir. Como o pai tinha que falar com muita gente, o Jesus adquiria muitos conhecimentos nessas viagens e tinha especial prazer em conversar com rabinos, contadores de histórias, agricultores, pescadores, artesões, pessoas idosas, mulheres e crianças, médicos e curandeiros.

 

Incomodava-o muito quando ouvia dizer que a mortalidade infantil era elevada e perturbava-o que muitas mulheres morressem no parto ou depois dele, por falta de higiene e que muitas pessoas perdessem a vida por causa de doenças estranhas, acidentes, epidemias e falta de assistência médica. Por outro lado, ficava impressionado quando o povo justificava o aparecimento de algumas doenças com o pecado e com a ação de demónios e que a cura da epilepsia, surdez, paralisia ou outras enfermidades, passava por expulsar, através de exorcismos, os espíritos ruins. Então, dizia muitas vezes que, quando fosse grande, haveria de ajudar as pessoas a terem mais saúde e a serem mais felizes.

 

O Jesus, apesar de ser dócil e obediente aos pais e mestres, revelava um espírito inquieto e estava sempre a fazer perguntas desconcertantes e embaraçosas pois não conseguia entender certas coisas da vida, do mundo e das tradições sociais e religiosas. Custava-lhe a compreender e aceitar, por exemplo, que ao sábado não se pudesse trabalhar ou fazer alguma coisa que fosse imprescindível para salvar a vida de alguém, só porque era um dia sagrado, ou que as mulheres, os estrangeiros ou aqueles que fossem diferentes por alguma razão, fossem marginalizados, discriminados ou perseguidos.

 

Incomodava-o que houvesse quem se achasse bom, perfeito, puro, santo e, muitas vezes, era como se vissem uma pestana nos olhos dos outros e não fossem capazes de dar-se conta dos troncos de madeira que tinham bem em cima dos seus. Acreditava que toda a humanidade era uma única família e que todos, sem exceção, mereciam ser chamados filhos do mesmo Deus. Pensava que Ele que não quereria, de certeza absoluta, que um só se perdesse e ficasse de fora da salvação divina, pois a sua principal característica e especialidade era amar e todos deveriam fazer o mesmo.

 

Quando o Jesus fez doze anos, os pais levaram-no à Festa da Páscoa a Jerusalém e isso foi motivo da maior alegria e satisfação para o rapaz. Os judeus deveriam ir ao Templo todos os anos para as festas de preceito da Páscoa, do Pentecostes e das Tendas e ele participou pela primeira vez com a maior devoção e seriedade em todas as celebrações pascais.

 

Acabados os dias da festa, todas as pessoas da caravana onde estava a família do Jesus voltaram para casa. Pelo caminho, os irmãos Nathan e a Esther foram perguntar a José e a Maria onde estava o Jesus pois já não o viam há algum tempo e queriam conversar e brincar para passar o tempo. A verdade é que também não o viam há algum tempo, mas estavam descansados pois estavam convencidos que estaria algures na comitiva.

 

De qualquer maneira, decidiram procurá-lo, por entre os parentes, conhecidos e companheiros da caravana e, como não o encontravam, ficaram aflitos. Então, fizeram o caminho inverso, regressando a Jerusalém para tentar descobrir onde é que ela estava. Com lágrimas nos olhos, José e Maria perguntavam a toda a gente se tinham visto o filho e descreviam-no com todos os pormenores possíveis e imaginários, mas, desgraçadamente, ninguém lhe tinha posto os olhos em cima.

 

Três dias depois, e após terem vasculhado toda a capital, José e Maria decidiram entrar no Templo e, para o seu alívio, viram finalmente o menino. Surpreendentemente, viram-no sentado no meio dos doutores, escutando-os com toda a atenção e também fazendo-lhes perguntas. Os pais do rapaz abraçaram-se, elevaram os olhos ao alto e agradeceram a Deus por o terem encontrado são e salvo. Todos os que viam e ouviam o Jesus estavam admirados e maravilhados com a sabedoria das suas intervenções.

 

Então, Maria aproximou-se do filho e, abraçando-o, disse-lhe ao ouvido que ele lhes tinha causado um enorme susto e que estavam aflitos pois podia ter sido assaltado, raptado ou até assassinado já que havia milhares de pessoas na cidade naquelas ocasiões festivas. Depois, José agarrou-se também a ele em lágrimas e pediu-lhe desculpa por se terem descuidado ao pensarem que estaria na caravana onde estavam todos.

 

Então, o Jesus levantou-se e tentou relativizar o sucedido, dizendo-lhes que não percebia o porquê de tanto desespero. Ele estava bem e, sorrindo, perguntou-lhes se sabiam onde poderia estar melhor do que na própria casa do Pai do Céu. Posteriormente, disse-lhes que sentia que a sua vida deveria ser dedicada às coisas de Deus e que nisso estava o sentido da sua história e a razão da sua existência.

 

Maria e José não entenderam muito bem aquelas palavras, até porque o mais importante naquele momento é que tinham encontrado o seu filho e agora era imperioso ir dar a boa nova aos familiares e amigos que estavam também ansiosos e angustiados com o desaparecimento do rapaz. Os três saíram abraçados e retomaram tranquilamente a caravana para o regresso a Nazaré, enquanto todos se regozijavam com o feliz desenlace daquela história.

 

Os pais do Jesus guardaram no coração aquele dia e as palavras do filho e todos os dias conversavam sobre os episódios extraordinários da sua curta existência e do sentido de tantas coisas que se tinham já passado com o menino, cuja razão humana não tinha capacidade para entender.

 

E o Jesus crescia em estatura, sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens, tornando-se um rapaz que, pela forma radical como vivia, sentia, pensava e amava, era admiravelmente único e inexplicavelmente diferente. E muitos começaram a acreditar que o mundo não voltaria a ser o mesmo depois dele e que grandes coisas se poderiam esperar deste filho de Deus.

Paulo Costa

Conto

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail