A cascavel da tribo dos índios

Conto 19 março 2019  •  Tempo de Leitura: 5 min

Era uma vez dois jovens índios que eram muito amigos. Chamavam-se Amanara e Piancó. Pela primeira vez, eles iam acompanhar os homens da aldeia numa jornada de caça. Estavam crescidos e participar naquela atividade comunitária da tribo representava muito para eles.


No momento da partida, toda a aldeia se reuniu para desejar sorte aos novatos naquelas lides. Cavalgavam lado a lado, estavam pintados com cores bem garridas e iam munidos do tradicional arco com flechas. Estavam nervosos, mas felizes. Eram amigos e, apesar de andarem sempre a implicar um com o outro e a pregar partidas, naquele dia queriam brilhar.

 

Amanara provocava o amigo dizendo que a jornada de caça ia-lhe correr bem já que estava a chover. E argumentava que no dia em que nasceu, estava a chover e, por isso, os seus pais tinham-lhe dado o nome de Amanara que queria dizer ‘Dia com chuva’.

 

Piancó sorriu e logo lhe disse que não se esquecesse que o seu nome queria dizer ‘Pássaro que canta’ e que tinha a certeza que, no final do dia de caça, seria ele a cantar vitória.

 

Ao chegarem à zona da floresta onde era costume encontrar animais, todos fizeram silêncio e apenas se ouvia o chilrear dos pássaros. Subitamente apareceu uma onça que apanhou todos desprevenidos e precipitaram-se uns para cada lado. Amanara não queria perder aquela oportunidade de apanhar um animal e decide atirar-lhe uma flecha. Mas o seu cavalo assustou-se e a flecha mudou de direção, acertando na perna de Piancó.

 

O dia de caça terminara irremediavelmente. Muito preocupados, todos os homens regressaram à aldeia para salvar Piancó. Amanara estava muito arrependido por não ter medido os riscos do seu gesto. Pedira desculpa a Piancó, mas ele não o perdoara. Pensava que Amanara tinha sido egoísta, que se tinha deixado levar pela ambição e pelo exibicionismo e que o ferira porque não era verdadeiramente seu amigo.
Piancó aos poucos foi melhorando do seu ferimento, mas não voltou a olhar para Amanara. Passadas umas semanas, numa noite de lua cheia e após o habitual serão à volta da fogueira, em que toda a tribo conversava e cantava, todos se foram deitar e Piancó decidiu ir à tenda de Amanara, determinado a reconciliar-se com ele. A poucos metros da entrada, chamou-lhe a atenção um ruído estranho e, qual foi a sua surpresa, quando viu uma cascavel a entrar na tenda do amigo.

 

Piancó não pensou senão em salvar Amanara. Apressadamente foi buscar um saco grosso e sorrateiramente entrou na tenda e conseguiu conduzir a cascavel para dentro. Sem que Amanara acordasse, saiu da tenda, pegou no seu cavalo e foi libertar o réptil bem longe dali, na outra margem do rio.

 

Jacimira, que quer dizer, ‘Homem da lua’, gostava de passear durante a noite e vigiar a aldeia contra eventuais ataques de inimigos. Ele tinha assistido a tudo e estava impressionado com a coragem e determinação de Piancó. Quando o sol se levantou e toda a aldeia tomava os primeiros alimentos do dia que a natureza oferecia, Jacimira contou tudo ao Touro Sentado, o chefe da tribo, que, verdadeiramente comovido, reuniu toda a gente.

 

Disse a todos que Amanara no dia de caça ferira Piancó, mas ele não o desculpara. Contudo, durante a noite, Piancó salvara Amanara ao afastar de dentro da tenda onde dormia uma cascavel, arriscando a sua própria vida. Sentia-se feliz porque a desavença entre os dois jovens era uma ferida que teimava em não cicatrizar. Congratulava-se com o sucedido pois mais do que palavras, a fraternidade acontecera naquele gesto tão nobre e genuíno e convidou toda a tribo a fazer festa e a celebrar o perdão.

 

Toda a aldeia ficou pasmada, feliz e orgulhosa. Amanara abraçou Piancó e todos se juntaram como se fossem uma só família. Todos dançaram à volta de uma enorme fogueira cujos sinais de fumo levaram bem longe a mensagem da reconciliação e da amizade e Amanara e Piancó tornaram-se os melhores amigos do mundo. A cascavel voltou a ser vista na aldeia e nenhum mal acontecia a ninguém. A tribo ficou mais unida e fortalecida e a história da cascavel da tribo correu montanhas e planícies como o vento que assobia singelas melodias.

Paulo Costa

Conto

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