Conto: As cegonhas da torre da igreja

Conto 15 fevereiro 2019  •  Tempo de Leitura: 5 min

Era uma vez uma aldeia onde nunca acontecia nada. O tempo e a vida pareciam ter-se ausentado dali e, por entre as ruelas estreitas do velho casario não se viam crianças e as poucas pessoas que viviam na pequena e pobre povoação eram maioritariamente idosas.

 

Um dia, quando o sol já se escondia no horizonte, as pessoas foram surpreendidas com o ruído estridente do sino da igreja a tocar a rebate. Todos se dirigiram apressadamente para a praça da pacata localidade e ninguém conseguia disfarçar o nervosismo e a ansiedade. Todos conversavam assustados com o insólito e raro acontecimento enquanto olhavam para a torre branca da igreja à espera de descobrirem o que estava a acontecer.

 

A única coisa estranha que chamava a atenção era o padre e o sacristão da paróquia de braços no ar a tentar afugentar uma cegonha que teimava em entrar e permanecer na torre e o receio generalizado depressa se transformou em alívio e em grande risada. Na verdade, a sensação era a de que parecia que a montanha tinha parido um rato, já que, afinal, o sino não avisava a aldeia de nenhuma invasão inimiga, tragédia ou catástrofe.

 

Alguma coisa anormal devia ter levado a cegonha à aldeia. Era costume vercegonhas em campos abertos, margens de lagos e lagoas, zonas pantanosas, prados húmidos, várzeas, pastagens e falésias, mas nunca ninguém ouvira dizer que alguma tivesse visitado a aldeia. Por outro lado, o tempo quente já tinha ido embora e o habitual é que, sendo um tipo de ave migratória, já devia estar bem longe daqueles sítios à procura de calor.

 

Numa das suas descidas à calçada da praça, todos se deram conta de que a cegonha mancava e estava muito magra. Rapidamente as pessoas ficaram cheias de compaixão da pobre cegonha que não conseguira acompanhar os amigos e a família na tradicional viagem para longínquas paragens menos frias naquela época e gritaram ao padre e ao sacristão para que parassem de molestar a visita.

 

A verdade é que as pessoas da aldeia depressa ganharam afeto pela cegonha, que parecia meiga e, pelos vistos, a proximidade dos humanos não a amedrontava. Era uma fêmea, tinha cerca de um metro de altura e a famosa plumagem branca, pontas das asas negras e bico, pernas e patas de coloração avermelhada.

 

A ave tornou-se paulatinamente o grande assunto da aldeia e todos se empenhavam por tentar ajudá-la a recuperar a saúde visivelmente abalada. As pessoas chamaram o veterinário da vila mais próxima para que lhe tratasse das patas e lhe administrasse alguma medicação e não lhe faltavam com alimentos que habitualmente as cegonhas apreciavam, como minhocas, rãs, gafanhotos e outras coisas que tinham mais à mão. Ela refugiava-se tranquilamente dentro da torre da igreja junto ao sino e, para satisfação de todos, foi melhorando a olhos vistos, caminhando por toda a aldeia e esvoaçando jovialmente pelos céus de toda a região.

 

Para espanto de todos, passados uns meses, a cegonha, começou a trazer paus, galhos e folhas para a torre da igreja. As pessoas sabiam que as cegonhas gostavam de fazer os seus ninhos em árvores altas, postes de eletricidade e em suportes rochosos e sentiram-se muito felizes e honradas pela decisão da nova habitante da aldeia de construir o seu ali.

 

Com os dias a acrescer e a ficar mais quentes, outras cegonhas começaram a ser vislumbradas pelos céus e era evidente a cumplicidade entre a cegonha da aldeia e uma outra. As pessoas da aldeia passavam horas a olhar para a torre onde viam o casal no ninho a bater os bicos e a exibir animados e românticos movimentos de cabeça. Passadas umas semanas, o sacristão anunciou jubilosamente a toda a gente da aldeia que havia cinco ovos no ninho e, quando as pequenas cegonhas nasceram, fez-se uma grande festa popular na praça central.

 

Após muitos anos sem crianças na aldeia, começaram a nascer vários bebés e a vida tinha regressado com todo o esplendor. O padre não se cansava de louvar a Deus pelos sinais que enviava à humanidade e repetia muitas vezes que as cegonhas representavam bom augúrio e eram símbolo de fertilidade, longevidade, contemplação e piedade filial. Na aldeia onde nada acontecia, a alegria tinha voltado e todos viam as cegonhas da torre da igreja como uma bênção.

Paulo Costa

Conto

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