Conto: As borboletas do colecionador

Conto 15 novembro 2018  •  Tempo de Leitura: 5 min

Era uma vez um jovem que era colecionador de borboletas. Nunca tivera amigos e, desde pequeno, era a única coisa que o entusiasmava. Achava fascinante a variedade, tonalidades e agilidade daqueles insetos e, por isso, em certa ocasião o pai oferecera-lhe um equipamento para caçar e guardar borboletas.

 

Com um cuidado extremo e uma perícia singular, sabia como usar a rede, os frascos de vidro, o algodão, o éter, a caixa de madeira com fundo de cortiça e os alfinetes coloridos e, assim, conseguia conservar e ter para si a mais bela coleção de borboletas.

 

Um dia, os pais receberam a visita de uns amigos que tinham uma filha da mesma idade do rapaz. Apesar de demonstrar pouca afabilidade e de não sorrir nunca, o jovem mostrou-lhe a sua coleção de borboletas, enquanto respondia às imensas perguntas sobre a forma como as apanhava e conservava para que se mantivessem bonitas e viçosas como se estivessem vivas.

 

Como intrigava a rapariga o facto de o jovem saber tudo e mais alguma coisa sobre as borboletas a partir do momento em que as apanhava e não revelar a mesma sabedoria sobre o seu nascimento e desenvolvimento até se tornarem assim tão belas, convidou-o a ir dar um passeio pelos campos.

 

Ao chegarem perto de uns arbustos, a rapariga apontou para um casulo onde uma borboleta se esforçava por sair. Tinha conseguido fazer um pequeno orifício, mas o seu corpo era maior e, apesar da luta intensa, não conseguia libertar-se dali.

 

O jovem, espantado e com pena da pobre borboleta, logo quis ajudá-la a sair, mas a rapariga impediu-o dizendo-lhe que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para se libertar eram fundamentais para que se exercitasse e fortalecesse as suas asas. Caso contrário, passaria a vida a rastejar, com o corpo murcho, as asas encolhidas e incapaz de voar.

 

Sentindo-se bem ao lado da rapariga e enquanto passeavam, contou-lhe que se sentia infeliz, falou da mágoa que sentia por não saber o que significava a amizade e o amor e confessava que gostava de ser diferente e ser livre e ter asas como as borboletas.

 

A rapariga abraçou-o em silêncio e percebendo que ele não tinha noção do que era uma borboleta, explicou-lhe que o ciclo de vida das borboletas conhecia várias etapas de transformação, pois começavam por ser ovos, depois larvas ou lagartas, a seguir crisálidas que se desenvolviam dentro de casulos e, finalmente, na fase adulta, criavam belas asas e voavam.

 

O rapaz ficou surpreendido com tudo aquilo e, pela primeira vez em muitos anos, sorriu ao reconhecer a sabedoria da mãe natureza e os imensos conhecimentos da rapariga.

 

No dia seguinte, foi visitar os avós ao fundo da aldeia e contou, com um brilhozinho nos olhos, quanto aprendera na tarde do dia anterior com a filha dos amigos dos pais. A avó sorriu, piscou o olho ao marido e, entrelaçando as suas mãos com as do neto, disse-lhe que ele talvez tivesse descoberto a pessoa mais importante da sua vida.

 

Depois, explicou-lhe que na vida, tal como na natureza, tudo é mudança e transformação e que mais importante do que tentar mudar as coisas e os outros o essencial é transformarmo-nos a nós mesmos e que as borboletas eram um bom exemplo disso. Se a larva ao olhar para si se se tivesse fechado à transformação e tivesse caído na tentação de desistir de viver, não tinha dado a oportunidade a si mesma de ser uma singela borboleta. Da mesma forma, ele precisava mudar algumas coisas na sua vida e abrir-se aos outros para se transformar como as borboletas.

 

O jovem estava feliz com as descobertas que fizera e partilhou com os avós que a duração de vida das borboletas era muito variável e que algumas espécies viviam apenas algumas horas ou dias e que, como elas, só por aqueles dois dias já tinha valido a pena ele ter existido.

 

Depois, o avô disse ao jovem que, em vez de correr atrás das borboletas, era mais interessante que ele cultivasse um jardim com flores e, então, seriam elas a vir a si. A felicidade era como uma borboleta. Se a perseguíssemos, podia escapar-nos, mas se não a perseguíssemos, ela poderia pousar em nós. E o jovem, reconhecendo estar apaixonado, disse que queria realizar algumas mudanças na sua vida e que não mais queria ser colecionador de borboletas.

Paulo Costa

Conto

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