Conto: «O peixinho do rio e as botas velhas»

Conto 15 setembro 2018  •  Tempo de Leitura: 5 min

Era uma vez uma menina que vivia numa pequena e modesta casa nas margens verdejantes de um rio que serpenteava as montanhas. Sempre que podia, ajudava os pais nas tarefas do campo e toda a gente da aldeia os admirava pois, apesar de pobres e pouco letrados, eram muito unidos, simpáticos e felizes.


Além de estudar e de brincar com o seu cão e as ovelhas do quintal, a menina gostava imenso de acompanhar o pai à pesca no rio. À sombra das árvores que se espreguiçavam sobre as águas do rio, a menina gostava de escrever e ler os livros que levava numa velha caixa de sapatos, enquanto a mãe fazia tricô e o pai esperava que algum peixe incauto picasse.


Um dia, após umas boas duas horas sem pescar peixe algum e quando já se preparavam para arrumar as coisas, o pai da menina sentiu que algum agarrava com força o anzol. A cana dobrava toda, mas a experiência e sabedoria do pobre homem era mais do que suficiente para que a tarefa fosse coroada de êxito. Qual não foi o espanto de todos quando viram surgir à superfície uma velha bota toda esburacada e os três deram uma longa e sonora gargalhada.


Enquanto riam e conversavam sobre a surpreendente pescaria daquele fim de tarde, a menina dera-se conta que dentro da bota estava um peixe pequenino que saltitava aflito. Depressa o colocou numa lata e disse que aquele não era para comer e que queria ficar com ele.


Enquanto o homem retirava terra e pedras da bota para a levar consigo, a menina batizou o seu peixinho com o nome ‘Bota’ e disse que, de vez em quando, na escola, os colegas comentavam que o pai e a mãe andavam sempre com sapatos velhos e que isso a entristecia. O pai e a mãe da menina entreolharam-se e, sem nada dizer, decidiram regressar a casa.


Quando à noite estavam a jantar, a mãe contou à menina que o pai na sua infância andava descalço, na sua juventude fora pescador de lampreia e aprendiz de sapateiro para ajudar a sua família e que só tivera o primeiro par de sapatos quando casou. Depois, disse-lhe que para que ela pudesse ir à escola e ter sempre roupa nova para vestir e calçado bonito e confortável para andar, o pai e a mãe há muitos anos que não compravam sapatos novos.


A menina, comovida e em lágrimas, foi abraçar o pai e a mãe. Então, o pai tomou a palavra e, de forma serena, disse que a sua vida fora a pesca à lampreia e a terra e, depois, disse algumas frases de memória: ‘Antes de me acusares, criticares ou explorares, anda uma milha nos meus sapatos’, ‘Vale mais andar descalço do que tropeçar nos sapatos dos outros’, ‘O afeto conduz a alma como os pés conduzem o corpo’, ‘Aquele que quer aprender a voar um dia, precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar’.


De seguida, referiu que os sapatos simbolizavam bem a ideia da importância de fazer caminho na vida e que o peixinho que estava dentro da bota a lutar pela vida representava bem o que fora a sua existência. Disse que o essencial era invisível aos olhos e que só se via bem com o coração. Depois, citou de forma solene mais alguns pensamentos: ‘Caminhante não há caminho. O caminho faz-se ao andar’, ‘Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho’, ‘São os passos que fazem os caminhos’, ‘Onde existe uma vontade, existe um caminho’.


No dia seguinte, os pais da menina levaram-na à velha arrecadação do fundo do quintal. Junto à porta havia botas velhas transformadas em vasos com flores e, dentro da casinha, o calçado fora de uso ganhara uma nova vida. Um melro tinha feito o seu ninho dentro de uma galocha e, em cima de uma estante, dois chinelos acolhiam aranhas. Debaixo de uma caixa, um sapato era o lar de dois ratinhos, junto a um cesto de lenha, um tamanco era a casa de um sapo e, ao lado de uns garrafões de água, um par de sapatilhas albergava uma família de sardaniscas.


A menina estava sem palavras diante daquela bicharada toda que vivia no velho calçado e sentia-se orgulhosa do enorme coração dos pais. Eles tinham-lhe ensinado que somente o esforço e os afetos calçavam a verdadeira felicidade e a autêntica realização.


Então, combinou com os pais construir um lago que fosse o habitat do seu peixinho e de mais alguns peixes do rio para que vivessem felizes e não fossem para comer. Depois, levou um par de botas velhas suas para a arrecadação e, partindo o seu mealheiro, ofereceu todo o seu dinheiro aos pais para que comprassem finalmente uns sapatos novos.

Paulo Costa

Conto

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