Elogio da crise

Razões para Acreditar 08 maio 2019  •  Tempo de Leitura: 1 min

Hoje não são unicamente os mercados financeiros ou a política com os seus ciclos trepidantes a recorrer à terminologia da crise. Na nossa própria vida (pela meia-idade, ou para além desta etapa), damo-nos conta de que avançamos de crise em crise.

 

São as grandes crises – quando a perceção de uma devastadora insegurança vital nos induz a colocar tudo em questão – ou as pequenas, das quais temos de nos ocupar no dia a dia.

 

Por muito que nos custe admiti-lo, as crises podem ensinar-nos alguma coisa, podem ajudar-nos a entrar numa dimensão mais autêntica da existência, ainda que saibamos que comportam o risco de nos lançar para turbulências para as quais não estávamos preparados.

 

Precisamente por este motivo, a crise é, por definição, um momento de sofrimento. Todavia, à maneira de um parto, ela pode representar a ocasião para compreender que o tempo não é um dispositivo trágico sem redenção, mas que, atravessado pela graça de Deus, o tempo é aberto e reversível.

 

A vida não é sem remédio: a vida está dentro de um processo contínuo, em gestação, num constante reinício. Existe sempre uma oportunidade de salvação, qualquer que seja a etapa do caminho.

 

Num mundo sem rituais, e que nos aprofunda numa inválida pobreza simbólica, são as crises, muitas vezes, que marcam a possibilidade de um reencontro com as interrogações mais sérias da vida.

 

[D. José Tolentino Mendonça | In Avvenire]

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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