A árvore verde e a árvore seca

Razões para Acreditar 17 abril 2019  •  Tempo de Leitura: 5 min

No interior da narração da paixão de Cristo segundo Lucas, retalhamos uma cena especificamente feminina. Jesus avança, já esgotado, ao longo do caminho que o conduz ao Calvário. Na multidão curiosa, como sempre, pelas desventuras alheias (pense-se nos turistas do horror que acorrem aos lugares aonde se consumaram delitos ou tragédias), só Lucas assinala a presença de uma espécie de confraria feminina votada à assistência aos condenados à morte, aos quais – de acordo com o Talmude, a grande recolha antiga de tradições judaicas – ofereciam bebidas anestésicas. É, portanto, realizado por mulheres o único gesto de compaixão que Jesus recebe durante o martírio. A elas dirige, no entanto, uma mensagem forte, até severa. Por outras palavras declara-lhes: mais do que terdes compaixão de mim, devereis preocupar-vos por vós mesmas e pelo vosso povo.

 

Inicia, com efeito, com esta primeira advertência: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, mas chorai antes por vós próprias e pelos vossos filhos». E logo depois reforça a sua afirmação com uma série de frases repletas de símbolos e de cores apocalípticas. A primeira contém uma espécie de profecia: «Virão dias em que se dirá: “Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram”». O olhar de Jesus parece alongar-se até à tragédia que atingirá Jerusalém no ano 70, quando vai ser demolida pelos romanos.

 

Na verdade, talvez se refira a outro acontecimento dramático, ocorrido em 586 a.C., quando os babilónios destruíram a cidade santa. Nesse dia – cantavam as Lamentações biblicas - «a língua do menino do peito colou-se ao seu paladar [por causa da sede]. As crianças reclamam pão, e não há quem lho reparta». Por isso, afortunadas as mulheres estéreis, que, não tendo filhos, não viam morrer entre os braços os seus bebés. É isto que Jesus já tinha dito no seu discurso denominado “escatológico”, ou seja, sobre a meta última de Jerusalém e da história humana, um fim destinado a ser acompanhado por um tempo de grande desventura, antes de abrir-se à luz da redenção e da salvação: «Ai das que estiverem grávidas e das que estiverem a amamentar naqueles dias, porque haverá uma terrível angústia no país e um castigo contra este povo».

 

A segunda frase, sempre sombria, que Jesus endereça àquelas mulheres é, por seu lado, uma citação do profeta Oseias: «Hão de, então, dizer aos montes: “Caí sobre nós!”. E às colinas: “Cobri-nos!”. É a exclamação poderosa de quem, encontrando-se numa desventura insuportável, implora a morte através de uma catástrofe natural. Continuamos na linha da chamada “apocalíptica”, que quer sacudir Israel para que tema o juízo final de Deus.

 

Chegamos, assim, à terceira e última declaração de Cristo, que coloca em relação a árvore verde e aquela velha e árida: «Se tratam assim a árvore verde, o que não acontecerá à seca?». A imagem, diferentemente especificada pelos estudiosos, é no entanto suficientemente nítida e clara: se agora se queima a madeira verde, ou seja, intacta e viva, símbolo de Jesus, o justo, o que acontecerá quando forem submetidos ao juízo os verdadeiros culpados, ou seja, a madeira seca?

 

Também no livro do profeta Ezequiel justos e pecadores são representandos sob este mesmo duplo sinal: «Eu acenderei em ti – diz o Senhor – um fogo que devorará toda a árvore verde e seca». Jesus, por isso, convida a considerar a verdadeira tragédia, que é a do juízo divino sobre aqueles que então o estavam a matar, e portanto a condenação de Deus em relação ao mal, à violência e à injustiça (a madeira seca, facilmente combustível).

 

[Card. Gianfranco Ravasi | In Famiglia Cristiana] 

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