Quaresma, microcosmo do estilo de vida cristã

Razões para Acreditar 12 março 2019  •  Tempo de Leitura: 5 min

Após a austeridade da Quarta-feira de cinzas e da abstinência de carne de sexta-feira passada, a Igreja entrou no primeiro domingo da Quaresma. Haverá vários outros domingos, mas o primeiro define o tom para todo o tempo. De todos os acontecimentos da vida do Senhor Jesus, a Igreja leva-nos ao deserto.

 

Depois do seu batismo no rio Jordão, Jesus vai para um lugar de solidão para se preparar para o seu ministério público. Passa tempo em oração e jejum. O Senhor permite-se ser tentado e serem expostas as trevas do prazer rebelde, da vaidade e do poder.

 

Os 40 dias de Jesus no deserto são o guia espiritual da Quaresma. Ao refletir sobre este tempo sagrado na vida de Jesus, é nos dada uma direção para a nossa própria observância quaresmal. Tal como a natureza humana do Senhor foi preparada para o seu serviço ao Pai, também uma boa Quaresma purifica-nos e fortalece-nos para vivermos com mais fidelidade e zelo a nossa missão no mundo.

 

Qual é essa missão? O que é que o crente cristão é chamado a fazer hoje?

 

Com as nossas próprias cicatrizes como comunidade, e uma credibilidade quase inexistente devido aos escândalos e encobrimentos, somos, no entanto, chamados a sair das nossas zonas de conforto. Somos levados a exemplificar a justiça, a paz, a misericórdia, a bondade, o amor que conduz ao esvaziamento pessoal e serviço abnegado, num mundo que, muitas vezes, não os aprecia e, por vezes, os rejeitará. São assumidos motivos ocultos, a suspeita está à solta e o medo domina. Neste cenário, a luz oferecida pelos cristãos é considerada suspeita e duvidosa.

 

Além do testemunho vivido enquanto crentes, os cristãos também são chamados a proferir palavras de bondade e verdade. O crente empresta a sua voz aos sofredores, aos não-nascidos, às pessoas desfavorecidas e esquecidas, e anuncia uma mensagem de dignidade humana, amor ao próximo, cuidado preferencial pelos pobres, respeito pelo corpo humano e pelos nossos poderes sexuais, a natureza do casamento e integridade em tudo o que fazemos.

 

Esses atos e palavras do cristão não são completamente cumpridos neles nesta vida. Cada um de nós, como seres humanos, crentes e não crentes, estamos mutuamente unidos a este extraordinário modo de amar, e cada um de nós luta para os viver e atualizar nas nossas próprias vidas. Esta consciência ajuda-nos a permanecermos humildes e a dizer e a viver o Evangelho com gentileza e bondade. É precisamente esse trabalho salvador de ações e palavras nas nossas vidas que é destacado durante a Quaresma. O desafio de permitir que a graça trabalhe nas nossas vidas é o coração da observância quaresmal.

 

Durante a Quaresma, é-nos dado um microcosmo de todo o estilo de vida cristão. Somos recordados da importância do Evangelho e da nossa parte em vivê-lo e partilhá-lo com o mundo. Isto começa nos nossos corações, nas nossas famílias e bairros, nos nossos locais de trabalho e na sociedade à nossa volta.

 

No deserto, Jesus expulsou os espíritos decaídos que diminuiriam ou distrairiam o seu serviço ao Pai e à família humana. Durante a Quaresma, somos convocados de volta ao nosso primeiro amor, recebemos uma nova porção do Espírito de Deus, e somos conduzidos a viver abnegadamente e proclamar corajosamente as Boas Novas. Estamos dispostos a aceitar esta fatura?

 

O papa Francisco lembra-nos: «A Quaresma é o tempo de redescobrir a direção da vida. Porque na jornada da vida, como em todas as jornadas, o que realmente importa é não perder de vista o objetivo. (…) O Senhor é o objetivo de nossa jornada neste mundo. A direção deve levar a Ele. Nunca avançaremos se estivermos sobrecarregados. (…) Precisamos nos libertar das garras do consumismo e das armadilhas do egoísmo, de querer sempre mais, de nunca estarmos satisfeitos, e de um coração fechado para as necessidades dos pobres».

 

E assim, no primeiro domingo da Quaresma, somos convidados para o deserto. É-nos oferecida a graça de sermos limpos das trevas, rejuvenescidos espiritualmente e aceitar mais profundamente a missão de viver e partilhar as Boas Novas.

 

[P. Jeffrey F. Kirby | In Crux]

tags: Quaresma

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