Verão, tempo para reentrar em nós próprios

Razões para Acreditar 18 agosto 2018  •  Tempo de Leitura: 5

Para muitos, agosto é tempo de férias. Diz-se adeus, pelo menos durante algum tempo, à habitual atividade laboral, com vista a um tempo de restauro e recriação que visa regenerar-nos. Enquanto penso nestes últimos meses, sinto o quanto é urgente para mim – e sinto-o também para a nossa sociedade – um tempo para reentrar em nós próprios.

 

Parece-me que todos precisamos particularmente de calma e silêncio. Alguns considerarão que poucos vão levar estas palavras em consideração: a maior parte concebe as férias como o momento propício para se “divertir” e, portanto, como o tempo por excelência para “sair de si próprio” para o divertimento…

 

Mas talvez nem todos pensem assim. A redescoberta dos santuários, dos itinerários turístico-religiosos, das peregrinações ou dos percursos de montanha testemunha que há hoje, e talvez em crescimento, a necessidade de espiritualidade e de voltar a entrar em si mesmo, para fazer florescer aquele algo de profundo que temos dentro de nós.

 

Sentir dentro de nós o desejo de olhar para o seu interior é já um dom, extremamente precioso, de modo algum dado como adquirido. Ao mesmo tempo é também uma tarefa, no sentido de que quem sente dentro de si este apelo à interioridade não deve deixá-lo cair no vazio, pois é uma oportunidade importante, a não perder.

 

Em primeiro lugar, para cada um, porque o facto de reentrar em nós próprios ajuda-nos a termo-nos de novo na mão, a compreender onde nos encontramos; ajuda-nos a descobrir o fio condutor da nossa vida e o sentido que a faz brilhar.

 

Todas as vezes em que perdemos de vista as motivações que estão na base do nosso trabalho (e em geral da nossa vida), corremos o risco de andar para a frente pela força da inércia e, a longo prazo, corremos o risco de nos desgastarmos, ficarmos entediados, perder o entusiasmo…

 

Olhar para o nosso interior – com muita honestidade, sem dizer fantasias a nós mesmos – faz-nos compreender as nossas contradições e permite-nos chamá-las pelo nome, se tivermos coragem de o fazer. Se é verdade que não é possível eliminar totalmente uma certa incoerência, também é certo que a pessoa saudável é aquela que mais consegue fazer unidade dentro de si e encontrar um equilíbrio entre as suas várias dimensões.

 

Se alguma vez esteve próximo de uma pessoa reconciliada consigo própria e profundamente unificada, ter-se-á seguramente apercebido da sua força interior e profunda serenidade. Ao contrário, quem cultiva conscientemente as suas contradições ou as deixa crescer inconscientemente, sem lhes dar remédio algum, verá aumentar dentro de si a insatisfação e a agitação que conduzem à infelicidade.

 

Mas há também acontecimentos que ocorrem à nossa volta que nos pedem uma maior capacidade de distância e convidam a entrar em nós próprios, para olhar os factos com maior objetividade. Tudo parece impelir-nos na direção do sensacional, do imediato, da reviravolta… com o risco de nos cegarmos e perdermos o sentido da realidade.

 

Exemplos eloquentes são as chamadas “fake news”, isto é, as falsas notícias fabricadas para impelir o leitor a escandalizar-se, influenciado profundamente o seu modo de pensar e agir.

 

É evidente que ainda não aprendemos a defender-nos das notícias falsas. Se nos deixamos levar pelo sensacionalismo e damos ouvidos apenas a quem grita mais alto, dificilmente conseguiremos entrever ou simplesmente aproximar-nos da verdade.

 

Parece-me que precisamos de voltar a nós próprios também como cristãos, para reencontrar aquilo que é verdadeiramente essencial para a vida de fé. O que é que nos faz cristãos? Há uma “diferença cristã” que permite distinguir a vida de um cristão de quem não o é? Como padres, leigos ou consagrados, o que é que é verdadeiramente irrenunciável na nossa vida de crentes? Voltar a dizê-lo, com clareza, e agir depois em consequência só pode fazer-nos bem e ajudam-nos a regressar à fonte do nosso crer, unificando as nossas vidas, por vezes desgastadas e dispersas.

 

A unidade interior de cada pessoa torna-se uma peça essencial para construir a unidade de cada comunidade, igualmente a da cristã. Para lá das diferenças de pensamento e do modo de enfrentar as espinhosas questões que enfastiam o nosso presente, continua a ser um valor saber que se faz parte de uma mesma grande família.

 

Se soubermos reentrar em nós próprios, superando a hegemonia individualista que hoje impera, poderemos sentir de novo, como diz o papa Francisco, «o privilégio e o prazer espiritual de nos sentirmos um povo».

 

 

[Alessio Magoga | In SIR]

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